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Agenda de transição climática se destaca como tese de investimento

Primeiro World Climate Summit São Paulo reuniu mais de 700 participantes e destacou financiamento, minerais críticos, natureza, alimentos e infraestrutura resiliente como frentes estratégicas para a América Latina.

6 minutos
Parque Burle Marx

Parque Burle Marx, em São Paulo: World Climate Summit conectou instituições financeiras, empresas, governos e sociedade civil em torno da implementação de projetos climáticos na região | Foto: Cley Scholz

A primeira edição do World Climate Summit São Paulo, realizada durante a São Paulo Climate Week, colocou a América Latina no centro da agenda global de implementação climática. O encontro reuniu mais de 700 participantes no Museu de Arte de São Paulo (MASP), entre representantes de empresas, instituições financeiras, governos, academia e organizações da sociedade civil.

Condiderando os compromissos climáticos, o evento concentrou-se em como transformar ativos estratégicos da região em projetos financiáveis, escaláveis e capazes de gerar retorno econômico. Financiamento, transição energética, minerais críticos, natureza, sistemas alimentares e infraestrutura resiliente estiveram entre os principais temas.

Para investidores, a mensagem central a de que a transição de baixo carbono deixou de ser apenas uma agenda regulatória ou reputacional e passou a envolver alocação de capital, gestão de riscos e identificação de novas oportunidades setoriais.

“O desafio agora é conectar esse potencial a capital, políticas públicas e condições de escala”, afirmou Flora Bitancourt, diretora de Tecnologia da Informação da World Climate Foundation e líder da organização no Brasil.

A entrada de São Paulo no calendário anual da World Climate Foundation amplia a presença da América Latina na plataforma internacional da organização e cria uma agenda regional permanente para conectar capital, políticas públicas, inovação e projetos climáticos.

As principais medidas e frentes anunciadas

Embora o encontro não tenha apresentado um pacote regulatório vinculante, foram anunciadas parcerias, coalizões e prioridades capazes de influenciar o direcionamento de investimentos climáticos na região.

1. Continuidade da Agenda de Ação após a COP30

Um dos principais anúncios foi a parceria entre a World Climate Foundation e o Climate Champions Team, com o objetivo de dar continuidade à Agenda de Ação e aos avanços alcançados na COP30.

A iniciativa sinaliza uma tentativa de reduzir a distância entre compromissos assumidos em conferências climáticas e sua execução nos mercados. Para investidores, isso pode significar maior atenção a projetos com métricas de impacto, mecanismos de financiamento e capacidade de implementação comprovada.

A participação de Dan Ioschpe, Climate High-Level Champion da COP30, reforçou a necessidade de avançar a agenda climática para além dos grandes fóruns internacionais.

2. Fortalecimento das coalizões Future of Mining e Future of Food

O evento também registrou avanços nas coalizões Future of Mining e Future of Food, voltadas a transformar vantagens competitivas latino-americanas em oportunidades de investimento e desenvolvimento sustentável.

As duas frentes são relevantes porque atingem setores com forte peso econômico e exposição direta a riscos climáticos, ambientais e geopolíticos.

Minerais críticos

A transição energética depende de cadeias de fornecimento de minerais utilizados em baterias, redes elétricas, veículos eletrificados e outras tecnologias de baixo carbono. A América Latina possui reservas e capacidade produtiva relevantes, mas enfrenta desafios relacionados a:

  • Licenciamento e segurança jurídica;
  • Infraestrutura logística e energética;
  • Rastreabilidade socioambiental;
  • Processamento e agregação de valor;
  • Relação com comunidades e povos tradicionais;
  • Redução da intensidade de emissões na mineração.

Para o mercado, a oportunidade não está apenas na extração. Ela também envolve processamento, tecnologia, infraestrutura, reciclagem, eficiência energética e soluções para reduzir impactos ambientais.

3. Redução de riscos e ampliação do financiamento para sistemas alimentares

A agenda de sistemas alimentares contou com a participação de David Laborde, diretor da Divisão de Economia dos Sistemas Agroalimentares da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

As discussões destacaram a necessidade de reduzir riscos, aprimorar instrumentos financeiros e ampliar o fluxo de recursos para soluções climáticas e baseadas na natureza.

O setor de alimentos combina riscos físicos — como secas, enchentes e alterações no regime de chuvas — com riscos de transição, associados a mudanças regulatórias, exigências de rastreabilidade e preferências de consumidores.

Nesse contexto, investidores devem acompanhar instrumentos capazes de financiar:

  • Agricultura regenerativa;
  • Recuperação de áreas degradadas;
  • Manejo sustentável do solo e da água;
  • Redução de emissões na pecuária;
  • Sistemas agroflorestais;
  • Tecnologias de produtividade e resiliência;
  • Cadeias de suprimento rastreáveis.

O debate também reforçou a importância de estruturar produtos financeiros que distribuam melhor os riscos entre produtores, empresas, instituições financeiras, governos e investidores de longo prazo.

Natureza passa a ser tratada como infraestrutura econômica

Outro ponto de destaque foi a defesa de que a natureza deve ser incorporada à gestão de riscos e às decisões de investimento. Florestas, bacias hidrográficas, solos e ecossistemas foram apresentados como componentes essenciais da infraestrutura de uma economia resiliente.

Essa abordagem amplia o entendimento tradicional de risco climático. A degradação ambiental pode afetar:

  • Oferta e preço de matérias-primas;
  • Continuidade operacional;
  • Segurança hídrica e energética;
  • Produtividade agrícola;
  • Qualidade do crédito;
  • Valor de ativos imobiliários e industriais;
  • Prêmios de seguros e resseguros.

Para investidores institucionais, a incorporação da natureza às análises de portfólio exige avançar em dados, indicadores e metodologias de mensuração. Também aumenta a relevância de empresas capazes de demonstrar dependências, impactos e planos de transição.

Participaram das discussões representantes de instituições como ANBIMA, B3, Instituto Arapyaú, Mercado Livre, Coca-Cola, CNseg, iCS, Vale, Régia Capital, Banco da Amazônia, Binatural, Itaminas e iFood.

Transição energética exige planejamento e capital

A transição energética foi apresentada como uma agenda que demanda planejamento, financiamento e capacidade de antecipação. A discussão envolveu não apenas a expansão de fontes renováveis, mas também a redução gradual da dependência de combustíveis fósseis e a adaptação da infraestrutura.

Para os mercados, os principais vetores de oportunidade incluem:

Geração e transmissão

A expansão de fontes renováveis precisa ser acompanhada por investimentos em transmissão, armazenamento, digitalização e modernização das redes. A infraestrutura de conexão pode se tornar um gargalo relevante para a entrada de novos projetos.

Eficiência e eletrificação

Indústrias, transportes, edifícios e cadeias logísticas deverão ampliar a eficiência energética e a eletrificação. Empresas fornecedoras de equipamentos, serviços, software e soluções de gestão podem capturar parte desse crescimento.

Combustíveis de menor emissão

Biocombustíveis, combustíveis sustentáveis e outras alternativas de menor intensidade de carbono permanecem no radar, especialmente em setores de difícil eletrificação. A viabilidade econômica dependerá de escala, disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura e regras claras.

Resiliência da infraestrutura

Eventos extremos aumentam a necessidade de adaptação de cidades, sistemas de transporte, instalações industriais, portos, redes de energia e estruturas de saneamento. A adaptação climática tende a ampliar a demanda por engenharia, seguros, monitoramento e obras de proteção.

Governança e participação social entram no cálculo de risco

O encontro também destacou que a transição climática não pode ser analisada apenas sob a ótica tecnológica ou financeira. A governança, a participação social e a distribuição dos benefícios são elementos que podem influenciar o risco de execução dos projetos.

Em debate mediado por Andreia Coutinho Louback, diretora executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática, o cientista Carlos Nobre e a deputada federal Sônia Guajajara discutiram o futuro da região a partir de perspectivas da ciência, da justiça climática e dos povos indígenas.

Guajajara ressaltou que o reconhecimento dos povos indígenas como guardiões da natureza precisa ser acompanhado de participação efetiva nas decisões e de acesso aos recursos destinados à conservação e à transição climática.

Para investidores, a questão tem impacto direto sobre a qualidade dos projetos. Processos de consulta, repartição de benefícios, transparência e respeito a direitos territoriais podem reduzir riscos jurídicos, operacionais e reputacionais.

A possível evolução do marco regulatório

Marina Silva, deputada federal por São Paulo e ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, defendeu a necessidade de planejamento para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e de um marco legal voltado à emergência climática.

A proposta, segundo ela, permitiria ao país agir de forma preventiva diante de eventos extremos. No entanto, o material do evento não indica a aprovação de uma legislação específica sobre o tema.

Para o mercado, a evolução regulatória permanece como um dos principais fatores de acompanhamento. Regras mais claras podem reduzir incertezas e destravar investimentos, mas também podem elevar custos de adaptação para empresas expostas a emissões, desmatamento, escassez hídrica ou riscos físicos.

O que investidores devem monitorar

A agenda apresentada em São Paulo sugere que a análise climática deve migrar de compromissos genéricos para indicadores concretos de execução.

Entre os pontos que merecem acompanhamento estão:

  1. Capacidade de mobilização de capital: volume de recursos privados direcionados a projetos climáticos e condições de financiamento.
  2. Qualidade dos projetos: existência de estudos técnicos, governança, métricas de impacto e capacidade de geração de receita.
  3. Risco regulatório: evolução de políticas para energia, carbono, mineração, agricultura, conservação e infraestrutura.
  4. Exposição a eventos extremos: vulnerabilidade de ativos, cadeias de fornecimento e operações.
  5. Dependência da natureza: uso de água, solo, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
  6. Rastreabilidade: capacidade de comprovar a origem e os impactos socioambientais de produtos e matérias-primas.
  7. Participação das comunidades: qualidade dos processos de consulta e mitigação de conflitos.
  8. Escalabilidade: possibilidade de replicar soluções em diferentes regiões e setores.
  9. Retorno ajustado ao risco: equilíbrio entre impacto climático, geração de caixa e proteção do capital.
  10. Continuidade institucional: capacidade de as coalizões manterem suas agendas entre as conferências internacionais.

São Paulo ganha papel regional na agenda climática

A realização do World Climate Summit em São Paulo marca a entrada da capital paulista no calendário anual da World Climate Foundation. A plataforma deverá funcionar como espaço regional da organização para a América Latina, com conexões que poderão continuar em fóruns internacionais, incluindo a COP31, em Antalya, na Turquia.

A relevância do movimento está em aproximar a agenda global das características específicas da região: abundância de recursos naturais, potencial energético, importância agrícola, demanda por infraestrutura e desigualdade no acesso a capital e tecnologia.

Para os investidores, a principal conclusão do encontro é que a transição climática latino-americana deverá ser disputada simultaneamente em três frentes: financiamento, execução e governança. As oportunidades poderão ser expressivas, mas dependerão da capacidade de transformar compromissos em projetos com escala, previsibilidade e retorno compatível com os riscos envolvidos.

Sobre a World Climate Foundation

A World Climate Foundation é uma organização sem fins lucrativos criada em 2010. A entidade reúne empresas, governos, instituições financeiras e organizações internacionais em coalizões voltadas a clima, biodiversidade e sustentabilidade.

Sua atuação busca conectar parcerias público-privadas, liderança empresarial e soluções de mercado para acelerar a transição para um futuro sustentável.

Cley Scholz

Editor do portal O Especialista. LinkedIn

Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.

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