Varejo cresce abaixo do esperado e reforça cautela para o próximo Copom
Alta das vendas em fevereiro sinaliza resiliência do consumo, mas em ritmo inferior ao projetado, o que evidencia os efeitos da Selic restritiva às vésperas da reunião do Copom marcada para os dias 28 e 29 de abril
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Dados da pesquisa do comércio de fevereiro mostram avanço do varejo restrito e ampliado, mas com composição desigual entre os segmentos, em um ambiente ainda condicionado por juros elevados e crédito mais seletivo | Foto: Getty Images
As vendas do comércio varejista no Brasil cresceram em fevereiro, mas em intensidade menor do que a esperada por analistas, segundo leitura da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) analisada pelos especialistas em investimentos do Banco Safra.
A divulgação ganha peso adicional porque antecede a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, agendada para os dias 28 e 29 de abril. Na mesma superquarta, o comitê do Federal Reserve deve manter os juros inalterados nos Estados Unidos.
Em um momento em que o mercado busca sinais sobre os próximos passos da taxa básica de juros, a PMC de fevereiro oferece um retrato relevante da atividade do consumo sob condições monetárias ainda apertadas.
Resultados do varejo em fevereiro
No conceito restrito, que exclui veículos e materiais de construção, o volume vendido subiu 0,6% na comparação mensal com ajuste sazonal, abaixo da projeção do Safra, de 0,8%, e também inferior ao consenso de mercado, de 0,9%.
No conceito ampliado, que inclui segmentos mais sensíveis ao crédito, o avanço foi de 1,0% em fevereiro ante janeiro, também aquém das expectativas: o Safra projetava alta de 1,4%, enquanto o mercado esperava 1,6%.
A leitura sugere que a atividade de consumo segue resistente, mas sem força suficiente para caracterizar uma aceleração disseminada da demanda doméstica.
Supermercados sustentam o resultado no varejo restrito
Dentro do varejo restrito, o principal vetor positivo veio do segmento de supermercados, com crescimento de 1,1% no mês, desempenho que ajudou a sustentar o indicador agregado. Ainda assim, a surpresa altista nesse grupo foi mais do que compensada por resultados mais fracos em outros componentes.
Composição heterogênea limita leitura mais otimista
Entre os destaques negativos, o grupo de outros artigos de uso pessoal e doméstico recuou 0,6% na margem, evidenciando que a recuperação do consumo permanece desigual. Também chama atenção a ausência de um movimento uniforme entre os segmentos, o que reforça a percepção de que parte relevante das famílias continua operando sob restrições financeiras.
Na comparação interanual, o quadro também mostra dispersão. O varejo restrito cresceu 0,2% em fevereiro ante igual mês de 2025, enquanto o varejo ampliado caiu 2,2% na mesma base, sinalizando perda de fôlego em categorias mais dependentes de financiamento.
Veículos reagem com incentivo tributário, mas abaixo da projeção
No varejo ampliado, a expectativa de desempenho mais robusto estava concentrada principalmente em veículos, diante dos efeitos do Programa Carro Sustentável, que vem estimulando a demanda por automóveis de entrada por meio da redução do IPI para modelos menos poluentes.
O segmento efetivamente avançou, com alta de 1,6% na margem em fevereiro, confirmando a presença desse estímulo. Ainda assim, o resultado ficou abaixo do que era antecipado pelos analistas do Safra. Parte dessa frustração foi compensada por surpresa positiva no atacarejo, mas não o suficiente para alterar a leitura central de moderação.
Juros elevados seguem como freio para o consumo
A avaliação prospectiva do Banco Safra é de que o varejo deve continuar crescendo em ritmo moderado ao longo de 2026. De um lado, o mercado de trabalho ainda resiliente sustenta renda e consumo.
De outro, a Selic em patamar restritivo continua pressionando o orçamento das famílias ao elevar o custo do crédito e o comprometimento da renda com o serviço da dívida.
Efeito da Selic aparece nos gastos discricionários
Esse ambiente tende a limitar sobretudo os gastos discricionários, mais sensíveis às condições financeiras. Na prática, o resultado é um setor varejista ainda apoiado em segmentos essenciais, enquanto categorias ligadas a bens duráveis e consumo financiado seguem mais expostas ao efeito contracionista da política monetária.
A combinação entre trabalho aquecido e juros altos ajuda a explicar por que os dados de fevereiro apontam crescimento, mas não uma expansão robusta ou disseminada.
Resultado da PMC entra no radar do Copom
Para a leitura de política econômica, o dado do varejo não elimina a preocupação com a persistência da atividade, mas tampouco sugere, por si só, uma reaceleração forte o bastante para alterar de forma abrupta a percepção sobre os efeitos da Selic.
O resultado, portanto, tende a reforçar uma mensagem de cautela: a economia segue rodando, mas sem evidências de sobreaquecimento disseminado no consumo.
O que o mercado deve observar a partir daqui
Os próximos indicadores de atividade e inflação serão decisivos para calibrar as expectativas em torno da decisão do Copom. No caso específico do varejo, o foco recai sobre três vetores principais:
- Sustentação da renda pelas condições do mercado de trabalho
- Impacto continuado dos juros elevados sobre crédito e inadimplência
- Capacidade de programas setoriais, como o de estímulo a veículos, gerarem tração mais ampla no consumo
Por ora, a leitura predominante é a de um varejo resiliente, porém contido — quadro compatível com uma economia que ainda absorve os efeitos defasados da política monetária.
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