Usiminas tem potencial de valorização restrito após alta de 36% desde outubro
Após desempenho expressivo desde outubro e avanço impulsionado pela expectativa de medidas antidumping, a ação da Usiminas passa a exibir relação risco-retorno menos favorável
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Papéis da Usiminas acumulam forte valorização desde o fim de 2025, mas mercado já embute cenário mais benigno para preços do aço, custos e proteção comercial | Foto: Getty Images
A Usiminas (USIM5) entrou em uma nova fase de avaliação no mercado, na qual o principal vetor de alta recente parece já ter sido amplamente incorporado ao preço.
Em relatório de estratégia para o setor de aço e mineração, os especialistas em investimentos do Banco Safra elevaram o preço-alvo da companhia para o fim de 2026 para R$ 7,70 por ação, ante R$ 6,20, mas rebaixaram a recomendação do papel para venda — ou underperform, ante classificação anterior neutra.
A combinação entre aumento do preço-alvo e piora da recomendação reflete uma mudança no balanço entre fundamentos e valuation. Embora o banco reconheça uma perspectiva mais favorável para preços e demanda de aços planos no Brasil, sobretudo entre o segundo semestre de 2026 e 2027, a avaliação é de que o mercado já antecipou boa parte desse cenário.
Desde outubro, a ação da Usiminas superou em 36% o desempenho da Gerdau e em 29% o do Ibovespa, movimento que, na leitura do Safra, reduziu o potencial de valorização adicional. Pelas estimativas da instituição, o preço-alvo atual implica TSR de 9%, patamar considerado insuficiente diante dos riscos operacionais e setoriais ainda presentes.
Valuation sugere pouco espaço para nova alta da USIM5
A principal conclusão do relatório é que a ação passou a negociar em múltiplos que já pressupõem um ambiente mais construtivo para o aço do que o contemplado no cenário-base do Safra.
A Usiminas é estimada em 5,1 vezes EV/EBITDA para 2026 e 3,3 vezes EV/EBITDA para 2027, além de exibir yield médio de fluxo de caixa livre em torno de 3% entre 2026 e 2028. Para os analistas, esse nível de retorno não torna a tese especialmente atraente, sobretudo porque um novo ciclo de revisão positiva de lucros exigiria premissas ainda mais otimistas para preços, demanda e custos.
Nesse contexto, o risco assimétrico passa a pender mais para baixo. Caso os preços domésticos do aço não avancem além do projetado ou os custos de matérias-primas deixem de ceder, a ação pode sofrer, uma vez que tanto as projeções do Safra quanto o consenso de mercado já embutem hipóteses favoráveis para preços realizados e alguma deflação de custos.
Medidas antidumping parecem totalmente precificadas
Outro ponto central da tese é o esgotamento do efeito de opcionalidade associado à agenda de defesa comercial. Antes, a ação refletia baixa probabilidade de implementação de medidas antidumping. Agora, segundo o Safra, esse componente parece integralmente embutido no preço dos papéis.
Desde a adoção das primeiras medidas antidumping sobre folhas de flandres, no fim de agosto de 2025, a ação da Usiminas acumula alta de 65%. Para os analistas, esse movimento reduz a probabilidade de novos upgrades relevantes de lucro a partir dos níveis atuais de preço.
Além disso, o banco antecipa possível enfraquecimento do outlook de resultados já no segundo trimestre de 2026, em meio a uma base de comparação mais exigente e à necessidade de sustentação de preços em um ambiente ainda desafiador para demanda e comércio.
Expectativas para preços podem abrir espaço para frustração
O Safra chama atenção para o fato de que as estimativas de mercado já consideram preços realizados materialmente mais altos ao longo de 2026. Pelas contas da instituição, há um aumento implícito de cerca de 10% na comparação anual no quarto trimestre de 2026, mesmo com os preços no segmento automotivo — responsável por cerca de um terço dos volumes domésticos — projetados em queda de 3%.
Essa dinâmica pressupõe recuperação ainda mais intensa nos segmentos não automotivos, com alta próxima de 16% na mesma base de comparação. Embora esse cenário não seja descartado, o Safra vê espaço para decepção caso a demanda doméstica não acompanhe essa trajetória ou o ambiente comercial siga pressionado por importações elevadas.
Geração de caixa segue pressionada por custos e capex
A geração de caixa é outro fator que limita o apetite pelo papel no curto e médio prazo. O Safra avalia que o aumento dos custos de matérias-primas, combinado com um programa mais intenso de investimentos e menor uso de forfaiting, reduz a capacidade da companhia de converter melhora operacional em fluxo de caixa livre.
A projeção do banco é de FCF yield negativo em cerca de 5% em 2026, com recuperação para aproximadamente 3% em 2027 e 11% em 2028. Essa melhora dependeria de preços mais altos do aço e de redução do custo dos produtos vendidos por tonelada, apoiada tanto por iniciativas internas quanto por preços mais benignos de insumos no mercado.
Projeto de minério adiciona incerteza à alocação de capital
Embora a expectativa seja de manutenção de posição de caixa líquido, o Safra observa que o perfil conservador de alavancagem da companhia pode estar ligado à possibilidade de aprovação do projeto de minério de ferro Compactos, que não integra o cenário-base da análise.
Se levado adiante, o projeto poderia exigir entre US$ 1,2 bilhão e US$ 1,5 bilhão em investimentos, o que ampliaria de forma relevante a discussão sobre alocação de capital e potencialmente elevaria a sensibilidade do mercado à disciplina financeira da empresa.
Importações continuam altas e limitam convicção sobre repasse de preços
O ambiente competitivo tampouco dá sinais claros de normalização. As importações de aços planos seguiram em nível elevado, equivalentes a 32% do consumo aparente em fevereiro. Em março, dados da Secex indicaram queda de 30% nas importações, com penetração estimada em torno de 25%.
Ainda assim, esse patamar segue acima da visão normalizada do Safra, de 15%, o que leva os analistas a considerar prematuro concluir que as medidas antidumping, isoladamente, serão suficientes para garantir redução adicional e sustentada da presença do aço importado no mercado brasileiro.
No caso do aço laminado a quente, o banco considera provável a continuidade do processo antidumping, mas pondera que eventual implementação apenas em meados de 2026 não repetiria a mesma dinâmica observada em medidas anteriores. Há ainda o risco de substituição por material originado fora da China, o que pode suavizar o efeito prático da proteção comercial.
Em galvanizados, a existência de contratos anuais a preço fixo — equivalentes a 20% a 30% dos volumes domésticos — também limita a captura imediata de eventual alta de preços spot até 2027.
Tese mais dependente de execução e de um cenário benigno
Em síntese, a visão do Safra é que a tese de investimento em Usiminas se tornou mais exigente. Depois de uma forte reprecificação, a ação já incorpora parte importante de um cenário mais favorável para aço plano no Brasil, ao mesmo tempo em que ainda convive com restrições relevantes de geração de caixa, incertezas sobre alocação de capital e dúvidas quanto à efetividade das barreiras comerciais.
Assim, embora o banco reconheça fundamentos melhores à frente, a relação entre risco e retorno deixou de ser favorável o suficiente para sustentar recomendação neutra. O rebaixamento para venda decorre menos de deterioração operacional imediata e mais da percepção de que o mercado foi adiante demais na precificação de um cenário ainda sujeito a execução complexa e variáveis exógenas importantes.
Principais riscos à tese do Safra
Segundo o relatório, os fatores que podem contrariar a visão mais cautelosa incluem:
- Preços domésticos do aço acima das projeções
- Medidas mais protecionistas contra importações
- Aceleração da atividade econômica doméstica
- Deflação mais forte nos custos de matérias-primas
- Mudanças não antecipadas no plano de investimentos
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