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Transporte no Brasil segue refém do diesel e de distorções no frete

Pressão do combustível pesa menos no curto prazo e mais via inflação, juros e fragilidade estrutural do transporte rodoviário, segundo análise da Ilos Consulting

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Diesel

Dependência do modal rodoviário, repasses incompletos de custos e limitações de infraestrutura mantêm a logística brasileira vulnerável a choques de diesel e à intervenção regulatória | Foto: Getty Images

A dinâmica do setor logístico brasileiro sugere que o preço do diesel, isoladamente, não costuma produzir um choque imediato e duradouro sobre as empresas no curto prazo. Isso porque os aumentos do combustível, em geral, abrem espaço para repasses de custos ao mercado de frete, ainda que com defasagem e com pressão temporária sobre o capital de giro das companhias.

A leitura central da análise fundamentalista preparada pelos especialistas do Banco Safra, com base em reunião realizada na quarta-feira, 8, com Mauricio Lima, sócio-fundador da Ilos Consulting, é que o principal risco está no efeito indireto e acumulado desses aumentos. Ao pressionar a inflação, o diesel contribui para um ambiente de juros mais altos, o que compromete a sustentabilidade financeira de um setor intensivo em capital e com ciclo longo de recebíveis.

Sob essa ótica, o impacto estrutural tende a ser mais relevante do que a oscilação pontual do combustível. Para o investidor, isso desloca o foco da análise: mais do que medir apenas a capacidade de repasse, torna-se necessário observar sensibilidade a capital de giro, custo de financiamento e exposição ao ciclo macroeconômico.

Transporte rodoviário concentra a maior vulnerabilidade

Entre os diversos segmentos da logística, o transporte rodoviário de cargas aparece como o elo mais exposto. A razão principal é sua elevada dependência do mercado spot, no qual a formação de preços é mais volátil, menos contratualizada e mais sensível a oscilações de demanda e custos.

Mercado spot amplia volatilidade operacional

Em segmentos mais contratados, mecanismos automáticos de reajuste, inclusive vinculados ao diesel, tendem a reduzir a fricção entre aumento de custo e recomposição de receita. No rodoviário, essa proteção é mais limitada. Como consequência, a atividade convive com maior instabilidade de margens, menor previsibilidade de receita e maior vulnerabilidade a ciclos econômicos adversos.

Esse desenho também ajuda a explicar por que o setor sofre mais intensamente quando a alta do diesel se transforma em inflação persistente e juros elevados. Em um ambiente assim, o custo financeiro sobe, o investimento perde atratividade e a desalavancagem operacional se torna mais difícil.

Piso mínimo do frete distorce preços sem resolver a baixa rentabilidade

A análise também destaca que a regulação do piso mínimo do frete voltou a ganhar efetividade por meio de fiscalizações mais rígidas, inclusive com monitoramento eletrônico. Na prática, a regra funciona como uma camada adicional de intervenção sobre as operações de transporte.

Embora agentes do mercado busquem meios de contornar a exigência, esse movimento tende a criar custos extras, elevar riscos tributários e deslocar preços ao longo da cadeia, sem enfrentar o problema central da baixa rentabilidade estrutural do segmento.

Distorção é mais política do que econômica

Segundo a avaliação consolidada no material, a combinação entre piso mínimo, baixo risco percebido de nova greve de caminhoneiros e aparente excesso de oferta de motoristas revela uma distorção cuja natureza é mais política do que econômica. O piso é visto de forma relativamente favorável por caminhoneiros autônomos, e sua retirada carregaria custo político elevado.

Nesse contexto, soluções de curto prazo e apelo populista tendem a prevalecer sobre ajustes mais eficientes, como aperfeiçoamento regulatório ou medidas que ataquem os desequilíbrios de oferta do setor.

Excesso de oferta de caminhoneiros é, em parte, ilusório

Outro ponto relevante é que a percepção de ampla disponibilidade de motoristas não necessariamente se traduz em capacidade estrutural robusta. Parte dessa oferta migrou para plataformas de transporte por aplicativos, atraída por menor risco e menor barreira de entrada.

Além disso, a presença expressiva de autônomos subcontratados ajuda a pressionar preços para baixo em períodos de demanda fraca, mas não assegura capacidade suficiente quando a atividade econômica acelera. O resultado é um sistema que parece folgado em momentos de baixa, mas revela fragilidade quando o ciclo se torna mais exigente.

Essa assimetria reforça a leitura de que o modal rodoviário brasileiro, embora dominante, tem dificuldade para sustentar períodos prolongados de expansão sem gerar gargalos operacionais e pressões adicionais de custo.

Matriz logística deve seguir rodoviária por falta de alternativas

No horizonte de longo prazo, a conclusão é pouco animadora do ponto de vista estrutural: o transporte rodoviário deve continuar ganhando ou preservando protagonismo na matriz de transportes brasileira, não por eficiência superior, mas pela ausência de alternativas efetivas em escala.

Os investimentos observados até aqui são descritos como marginais, concentrados em terminais logísticos capazes de melhorar a eficiência em pontos específicos, mas insuficientes para alterar de forma relevante a oferta logística nacional. Com isso, outros modais perdem participação relativa, enquanto o rodoviário segue absorvendo a expansão das distâncias médias de transporte.

Infraestrutura limitada restringe mudança estrutural

O diagnóstico ganha força quando se observa a infraestrutura disponível. A malha rodoviária brasileira soma cerca de 1,4 milhão de quilômetros, dos quais aproximadamente 200 mil quilômetros são pavimentados e apenas 20 mil quilômetros estão concedidos. Ainda que exista algum otimismo em relação ao pipeline de projetos, a escala dessas iniciativas não parece suficiente para modificar o quadro estrutural.

Em paralelo, intervenções recorrentes do governo tendem a agravar desequilíbrios ao represar preços e ampliar a intensidade dos ajustes posteriores. Forma-se, assim, um ambiente em que o frete rodoviário pode parecer barato em termos globais, mas continua caro quando comparado à baixa qualidade da infraestrutura alternativa.

Ferrovia aparece como solução estrutural, mas esbarra em custo e execução

Se a resposta de longo prazo para a espinha dorsal da infraestrutura brasileira passa pelo modal ferroviário, a implementação desse caminho permanece complexa. O investimento exigido é elevado, os desafios ambientais e de execução são relevantes e a dependência de capital de longo prazo expõe o setor ao nível das taxas de juros.

Por isso, a análise sugere que uma inflexão real da matriz logística dependeria de maior participação do poder público e de projetos com escala suficiente para reduzir a dependência do rodoviário. Sem isso, a mudança estrutural tende a permanecer limitada no curto e no médio prazo.

Implicações para o mercado e para o investidor

Para o mercado, a principal mensagem é que a sensibilidade do setor de transporte não deve ser lida apenas pela variação do diesel na bomba. O vetor decisivo está na transmissão macroeconômica: inflação, juros, capital de giro e custo de financiamento.

Para o investidor, isso significa acompanhar com maior atenção:

  • Grau de exposição ao mercado spot
  • Capacidade de repasse de custos
  • Necessidade de capital de giro
  • Perfil de alavancagem e duration da dívida

Dependência do modal rodoviário

Risco regulatório ligado ao piso do frete: em síntese, a reunião com a Ilos Consulting reforça uma tese relevante para a cobertura setorial: a logística brasileira continua operando sobre uma base frágil, em que o diesel é apenas o gatilho mais visível de desequilíbrios mais profundos, ligados à regulação, à infraestrutura e ao ambiente macroeconômico.

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