Operadoras reforçam migração para pós-pago e fibra
Dados de fevereiro da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) sustentam leitura construtiva para o setor, com destaque para Vivo e Claro, avanço da fibra e desaceleração da Starlink no mercado brasileiro
06/04/2026 4 minutos
Base móvel cresce com migração para planos pós-pagos, enquanto a fibra volta a acelerar e reforça a tese de qualidade de receita no setor de telecomunicações | Foto: Getty Images
Os dados de fevereiro da Anatel reforçaram a leitura construtiva do Banco Safra para o setor brasileiro de telecomunicações. Na visão dos analistas, a combinação entre avanço do pós-pago, retomada do crescimento da fibra e desaceleração da Starlink preserva um ambiente favorável para companhias com melhor execução comercial e capacidade de capturar receitas de maior qualidade.
A avaliação é particularmente positiva para a Telefônica Brasil (VIVT3), que liderou as adições líquidas no pós-pago excluindo M2M, com 358 mil linhas, acima das 282 mil registradas em janeiro. A companhia também manteve a liderança entre as incumbentes em fibra, com 59 mil adições líquidas no mês.
A Claro, da América Móvil, também teve leitura positiva. A operadora somou 346 mil adições líquidas no pós-pago ex-M2M, foi a única entre as três grandes a expandir a base pré-paga, com 164 mil linhas, e liderou o crescimento em FTTH, com 68 mil novas adições. Para o Safra, o desempenho reforça a estratégia de migração da base legada para fibra.
Já a TIM Brasil (TIMS3) teve leitura neutra. Embora a companhia tenha mostrado sinal favorável em banda larga, com 13 mil adições líquidas em FTTH, o avanço de 68 mil linhas no pós-pago ex-M2M permaneceu abaixo do ritmo observado em meados de 2025, quando a operadora vinha adicionando entre 140 mil e 200 mil linhas por mês.
Setor segue apoiado por mudança estrutural de mix
O ponto central para a tese de investimento continua sendo a migração estrutural de clientes do pré-pago para o pós-pago e, na banda larga, a substituição de acessos legados por fibra.
Na prática, esse movimento tende a elevar a previsibilidade das receitas, melhorar a monetização da base e sustentar a geração de caixa das operadoras.
Segundo os especialistas em investimentos do Banco Safra, o setor ainda se beneficia de uma dinâmica comercial que permite repasses de inflação aos preços, preservando rentabilidade mesmo em um ambiente competitivo.
No universo coberto pelo banco, a preferência relativa segue com a Vivo, classificada como Outperform e com preço-alvo de R$ 42. A TIM Brasil também tem recomendação Outperform, com preço-alvo de R$ 27, enquanto a América Móvil está classificada como Neutral, com preço-alvo de US$ 22.
Pós-pago acelera e pré-pago continua encolhendo
A base total de telefonia móvel no Brasil chegou a 271,3 milhões de acessos em fevereiro, crescimento de 0,2% na comparação mensal e de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior. As adições líquidas totais somaram 538 mil, acima das 328 mil registradas em janeiro.
Mais importante que o dado agregado foi a composição do crescimento. A base de pós-pago atingiu 177,6 milhões de linhas, com alta de 0,4% no mês e de 9,8% em 12 meses. Já o pré-pago caiu para 93,7 milhões, com recuo de 0,3% ante janeiro e de 7,8% na comparação anual.
No recorte de pós-pago ex-M2M, o setor adicionou 759 mil linhas em fevereiro. A Vivo concentrou 46,4% desse total, seguida de perto pela Claro, com 44,8%. A TIM respondeu por cerca de 8,8% das adições líquidas.
Claro chama atenção no pré-pago
No segmento pré-pago, a Claro destoou do restante do mercado ao registrar 164 mil adições líquidas positivas, revertendo a perda observada no mês anterior. A TIM concentrou a maior parte dos desligamentos, com 304 mil desconexões líquidas, enquanto a Vivo teve retração de 117 mil linhas.
Para investidores, esse movimento reforça a leitura de que a principal avenida de crescimento do setor segue no upgrade da base para planos mais rentáveis, e não na expansão tradicional do pré-pago.
Fibra volta a acelerar e melhora qualidade operacional
Na banda larga fixa, a base total alcançou 54,6 milhões de acessos em fevereiro, com expansão de 0,2% sobre janeiro e de 6,4% em 12 meses. O setor registrou 131 mil adições líquidas, revertendo a contração de 572 mil acessos observada em janeiro.
Entre as grandes operadoras, a Vivo liderou em banda larga total, com 46 mil adições líquidas, seguida por Claro, com 27 mil, e TIM, com 12 mil. Parte relevante da recuperação veio dos provedores regionais, que retomaram crescimento após o ajuste do mês anterior.
No segmento de FTTH, a base brasileira chegou a 43,3 milhões de acessos, com alta de 1,2% no mês e de 8,8% em 12 meses. A Claro liderou as adições líquidas entre as três grandes, com 68 mil, seguida pela Vivo, com 59 mil, e pela TIM, com 13 mil.
ISPs ainda dominam, mas incumbentes seguem relevantes
Os provedores independentes mantiveram 73,3% do mercado de FTTH, preservando ampla liderança. Ainda assim, a evolução das incumbentes segue relevante para a tese de investimento, especialmente em áreas urbanas de maior densidade e maior potencial de monetização.
A Vivo manteve a maior fatia entre as operadoras tradicionais, com 18,3% do mercado de fibra. Já a Claro seguiu como a companhia de crescimento mais acelerado entre as incumbentes, com expansão anual de 43,9% na base de FTTH.
Starlink perde tração no curto prazo
Outro ponto monitorado pelo Safra é a evolução da Starlink no Brasil. A companhia alcançou 662 mil assinantes em fevereiro, crescimento de 91,8% em relação ao ano anterior. Ainda assim, as adições líquidas mensais desaceleraram para apenas 5,6 mil, bem abaixo do ritmo de cerca de 50 mil por mês observado entre dezembro e janeiro.
Na leitura dos analistas, essa desaceleração pode indicar saturação inicial em nichos rurais e menos atendidos ou eventual sensibilidade a preço. Embora a participação da Starlink ainda seja pequena, em torno de 1,2% do mercado total de banda larga, o movimento reduz parte da pressão competitiva de curto prazo sobre operadoras e provedores regionais.
O que importa para o investidor
Para o investidor, os dados reforçam três mensagens centrais:
- o pós-pago continua sendo o principal motor de crescimento e rentabilidade do móvel;
- a fibra segue elevando a qualidade da receita na banda larga;
- Vivo e Claro entregaram os sinais operacionais mais consistentes no mês, enquanto a TIM ainda precisa mostrar retomada mais clara no pós-pago.
Em valuation, a Telefônica Brasil negocia a 16,7 vezes lucro estimado para 2025 e 13,2 vezes para 2026, com EV/Ebitda de 5,4 vezes e 5,0 vezes, respectivamente.
A TIM Brasil aparece a 14,4 vezes e 12,9 vezes lucro, com EV/Ebitda de 5,2 vezes e 5,0 vezes. A América Móvil negocia a 17 vezes e 15 vezes lucro, com EV/Ebitda de 5,8 vezes e 5,5 vezes.
A conclusão do Safra é que a tese para telecom no Brasil permanece favorável, sustentada por mudança estrutural de mix, disciplina comercial e expansão da fibra.
Dentro desse quadro, a Vivo segue como principal destaque relativo, enquanto a Claro mostrou força operacional relevante nos dados de fevereiro.