close

Gigantes de tecnologia crescem acima da média com força da IA

Relatório do Banco Safra Analisa os resultados das big techs e destaca os desafios das empresas de inteligência artificial

7 minutos
resultadoe e investimentos em tecnologia de IA

Aumento de investimentos pressionam o fluxo de caixa livre no curto prazo, mas segundo os especialistas do Safra parecem consistentes com a estratégia de fomentar a próxima onda de crescimento da IA | Foto: Getty Images

A temporada de resultados das gigantes mundiais de tecnologia foi marcada por crescimento ainda elevado de receita, sustentado principalmente por demanda relacionada à inteligência artificial, com expansão relevante em data centers, mas já com maior dispersão entre os segmentos de consumo e publicidade digital.

Relatório do Banco Safra sobre o desempenho do setor de tecnologia mostra que as receitas continuam subindo, mas investimentos ainda são o grande tema de discussão.

Em termos consolidados, as grandes empresas de tecnologia apresentaram crescimento de receita ano a ano acima da média do S&P 500, com maior dinamismo em infraestrutura de nuvem e chips voltados para IA, enquanto o hardware e alguns negócios voltados para o consumidor registraram um ritmo mais moderado.

Em termos de margens, a maioria das empresas manteve ou expandiu ligeiramente a lucratividade, refletindo a alavancagem operacional em segmentos ligados à IA e os custos.

Ainda assim, o Capex (aquisição de ativos tangíveis e intangíveis, registrados no balanço patrimonial da empresa como investimentos) continua sua trajetória ascendente, impulsionado por investimentos em data centers, GPUs e expansão de capacidade para suportar cargas de trabalho de IA.

Isso pressionou o fluxo de caixa livre no curto prazo, mas parece consistente com a estratégia de fomentar a próxima onda de crescimento.

Mercado teme o ‘saaspocalipse’

Resultados à parte, o relatório do Banco Safra destaca os últimos acontecimentos no segmento de software, mais especificamente nas companhias de SaaS (Software as a Service), um modelo de distribuição de software baseado em nuvem, onde aplicativos são hospedados por provedores e acessados via internet.

Após o lançamento pela Anthropic do agente de IA Claude Cowork (e de seus agentes autônomos), o segmento de software despencou por conta de um temor real de que a IA estivesse deixando de ser apenas uma ferramenta de auxílio para se tornar uma substituta direta de workflows corporativos inteiros.

Ao demonstrar que esses novos agentes conseguem executar tarefas complexas de ponta a ponta de forma quase independente – desde revisões de contratos e rotinas administrativas até a criação de códigos e auditorias de cibersegurança –, o mercado rapidamente questionou a sustentabilidade do modelo tradicional de cobrança por usuário (seat-based pricing).

Esse movimento provocou forte correção nas ações de diversas empresas de software, cibersegurança e serviços de TI, à medida que os investidores avaliavam o risco dessas plataformas perderem poder de precificação e serem forçadas a adaptar drasticamente seus modelos de negócios na era da “IA agêntica”.

Quem ganha e quem perde entre as gigantes de tecnologia

Entre os grandes vencedores da temporada, a Meta ganhou destaque provando que consegue expandir agressivamente seus investimentos em IA (projetado em até US$ 135 bi) sem sacrificar margens e a forte geração de caixa do seu negócio central de publicidade.

O mercado, que há alguns trimestres punia aumento de gastos, desta vez premiou a execução impecável. Além da Meta, empresas de infraestrutura “pá e picareta”, como TSMC e ASML, consolidaram-se como vencedoras inquestionáveis, apresentando carteiras de pedidos abarrotadas e revisões para cima nas projeções (guidance) na corrida para suportar a expansão dos data centers globais.

Intel ficou na ponta negativa por conta do seu guidance decepcionante para o trimestre corrente e restrições de oferta, que reacenderam o ceticismo quanto à velocidade e eficácia de sua reestruturação fabril.

O setor de software tradicional (SaaS) sofreu forte reprecificação negativa e foi a principal “vítima” da transição tecnológica, com o avanço rápido dos agentes autônomos colocando em xeque o modelo clássico de cobrança por usuário.

Nvidia

A Nvidia (NVDC34) entregou um trimestre forte, reportando receita recorde no 4T de US$ 68,1 bi (+73% a/a) e um LPA ajustado de US$ 1,62, batendo o consenso Bloomberg. O crescimento foi mais uma vez impulsionado pelo segmento de Data Center, que registrou US$ 62,3 bi em receita, à medida que a adoção corporativa de agentes de IA e a forte demanda dos hyperscalers continuaram puxando o resultado. Reforçando o seu poder de precificação e domínio de mercado, a companhia manteve as margens brutas na casa dos 75% e forneceu um guidance de receita otimista para o 1T do ano fiscal de 2027, com um ponto médio de aproximadamente US$ 78 bi, também muito acima do consenso. O relatório do Safra lembra que esse guidance recorde pressupõe zero receita de data centers vinda da China, demonstrando que a demanda global sem precedentes pela sua arquitetura Blackwell de próxima geração é mais do que suficiente para compensar os contínuos ventos contrários geopolíticos.

Apple

A Apple (AAPL34) reportou receita de US$ 102,5 bi no 4T, +8% a/a. Esse resultado foi impulsionado por um novo recorde nas vendas de iPhone e pela expansão do segmento de Serviços, além de marcar uma reversão na pressão de queda que a operação vinha sofrendo na China. A expansão da base instalada de dispositivos ativos ajudou a elevar as margens brutas da companhia, refletindo um mix de vendas rentável e a adoção crescente de assinaturas do ecossistema. Porém, um ponto de atenção no resultado foi a alta nos custos de componentes de memória, que podem pressionar as margens brutas da companhia ao longo do próximo ano fiscal, exigindo ajustes na gestão da cadeia de suprimentos. Além disso, a companhia vem enfrentando desconfiança do mercado pela dificuldade de integrar novas ferramentas de IA-gen ao seu sistema operacional.

Alphabet

A Alphabet (GOGL34) superou as estimativas do mercado ao registrar receita de US$ 114 bi e aumento de 30% a/a no lucro líquido. O buscador Google e o YouTube mantiveram ritmo forte, mas o destaque principal foi o Google Cloud, que avançou 48% a/a. Além disso, a companhia demonstrou que a integração de IA já gera retornos reais, com o Gemini Enterprise atingindo a marca de 8 mi de assinantes corporativos. Agora as atenções se voltam para a projeção de investimentos, que pode alcançar os US$ 185 bi em 2026 para financiar a infraestrutura dos novos modelos. Esse nível de gasto exigirá uma gestão eficiente do fluxo de caixa, podendo levar a companhia a reavaliar a alocação de capital entre recompra de ações e o financiamento dessa expansão estrutural intensa.


Microsoft

A Microsoft (MSFT34) apresentou números robustos, com receita de US$ 81,3 bi e lucro líquido de US$ 38,5 bi no trimestre. A plataforma Azure cresceu 39% a/a, um ritmo ligeiramente menor do que o esperado pelo mercado, pois a companhia precisou reservar parte da capacidade dos chips de IA para treinar os seus próprios modelos. A companhia parece agora focada em reduzir o custo computacional necessário para rodar o 365 Copilot, visando proteger as margens operacionais de software. Um dado interessante apresentado no trimestre foram os 15 mi de usuários pagantes do 365 Copilot (a US$ 30 por mês), criando uma nova linha de faturamento de dezenas de bilhões anuais.


Meta

A Meta (META) encerrou o trimestre com receita recorde de US$ 59,9 bi, marcando um avanço de 24% a/a na sua divisão de publicidade digital. O desempenho refletiu o uso de algoritmos mais eficientes de direcionamento e conversão de anúncios, que mantiveram o engajamento elevado nas plataformas. A companhia ainda colheu frutos do esforço contínuo de eficiência, entregando margens operacionais sólidas mesmo com o aumento das despesas com P&D. Esses dados devem sustentar agora uma narrativa de que investidores estão mais tolerantes com o intenso ciclo de investimentos em inteligência artificial, desde que seu negócio principal de publicidade continue gerando caixa forte. A projeção de investimentos de até US$ 135 bi para 2026 ficou cerca de 20% acima do que o consenso esperava, mostrando disposição da gestão em construir uma infraestrutura de processamento de ponta e, ao mesmo tempo, mais paciência do mercado (no trimestre passado o mercado penalizou o discurso mais agressivo sobre novos investimentos).


Amazon

A Amazon (AMZO34) reportou um trimestre de expansão financeira robusta, entregando receita total de US$ 180 bi (+13% a/a) e lucro líquido de US$ 21,2 bi, o que marcou um salto expressivo de 39% a/a. A grande âncora desse balanço foi a divisão AWS, que avançou 20% a/a e evidenciou uma clara reaceleração frente aos períodos anteriores, mitigando receios de perda de participação de mercado. Esse ganho de tração na nuvem foi impulsionado diretamente por clientes corporativos que renovaram contratos de longo prazo e escalaram a adoção de serviços nativos de inteligência artificial generativa. Além do sucesso na infraestrutura tecnológica, a companhia colheu os frutos do seu foco em eficiência de custos, registrando expansão contínua nas margens operacionais do e-commerce na América do Norte. O negócio de publicidade digital também entregou desempenho muito forte.


TSMC

A fabricante de semicondutores TSMC (TSMC34) manteve a sua tração comercial ao reportar lucro líquido de US$ 14,8 bi (+39,1% a/a). A performance foi impulsionada pela forte demanda por nós de 3nm e 5nm, peças essenciais para os aceleradores de IA globais. O ritmo acelerado prosseguiu na virada do ano: somente as vendas de janeiro
saltaram 37% a/a, reafirmando o status da companhia como a espinha dorsal de todo o ecossistema tecnológico.


ASML

A ASML (ASML) reportou EUR 13,2 bi em novos pedidos no trimestre, quase o dobro das projeções de analistas. Houve também forte aceleração no planejamento de capacidade fabril por grande parte da sua base global de clientes no período. O alto nível de encomendas sugere a intenção firme de fabricantes de chips de investir dezenas de bilhões na expansão no próximo ano. Esse cenário cria um pano de fundo positivo com alta visibilidade para o setor de hardware, dissipando temores de retração nos investimentos em bens de capital para semicondutores.


AMD

A AMD (A1MD34) reportou receita total de US$ 9,25 bi no trimestre, marcando um crescimento expressivo de 36% a/a, impulsionado quase inteiramente pela adoção massiva dos seus aceleradores e processadores para servidores no segmento de data center. A companhia executou com precisão a sua estratégia de alocação de capacidade nas fundições para atender à crescente demanda de hyperscalers por alternativas viáveis de aceleração nas infraestruturas de nuvem. Um marco fundamental desse balanço foi a consolidação de parcerias estratégicas e o ganho de participação de mercado no ambiente corporativo, o que garantiu um volume de vendas da linha institucional muito superior às médias históricas. Esse forte avanço na infraestrutura de IA e conectividade ajudou a compensar de forma robusta uma dinâmica de recuperação ainda lenta e margens mais pressionadas nos mercados tradicionais de PCs (Client) e no segmento de gaming.


Intel

A Intel (ITLC34) registrou vendas totais de US$ 15,9 bi no trimestre (+12% a/a), beneficiando-se diretamente da demanda mais forte por processadores, o que possibilitou o escoamento da maior parte dos estoques acumulados nos ciclos anteriores. O balanço evidenciou uma estabilização clara das linhas de negócio atreladas a computadores pessoais (client computing), o que ajudou a impulsionar a recuperação da margem bruta da companhia. A fabricante voltou a apresentar resultado financeiro positivo e rentável no período, colhendo os primeiros frutos de uma série de ajustes operacionais severos e de otimização de custos implementados ao longo do ano. No entanto, o otimismo inicial com a volta à lucratividade foi contido por uma projeção de receita mais fraca para o trimestre corrente, justificada por restrições operacionais e limitações agudas de oferta após a queima de estoques. Agora as atenções se voltam para a capacidade de execução da companhia na abertura e na aceleração das suas novas fábricas de fundição. A companhia parece agora focada em estabilizar suas linhas de manufatura avançada para garantir a melhora progressiva no nível de fornecimento a cada trimestre, visando capturar demanda de longo prazo, que permanece firme, segundo a gestão. Esses dados devem sustentar agora uma narrativa de que, embora a reestruturação financeira esteja avançando, o sucesso estrutural da recuperação e da retomada da confiança do mercado dependerá criticamente da comprovação da sua excelência fabril.

Leia também:

Abra sua conta