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Tarifa de Donald Trump afeta o agronegócio e tira 0,4 ponto porcentual do PIB

Análise do Banco Safra indica efeito heterogêneo nos setores exportadores e prevê queda da inflação devido ao aumento da oferta no mercado interno

4 minutos
Exportações para os EUA

O Safra destaca que, no setor de commodities, em geral o redirecionamento de volumes pode pressionar preços globais | Foto: Getty Images

A tarifa generalizada de 50% sobre todas as exportações brasileiras, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com
vigência a partir de 1º de agosto, surpreendeu o governo brasileiro, tanto pela magnitude da tarifa quanto pelo tom político adotado na justificativa oficial.

O cenário de negociação para conter escalada tarifária permanece incerto e o governo brasileiro já indicou que o aumento unilateral das tarifas será respondido com reciprocidade.

No campo econômico, o mercado começa a projetar os potenciais efeitos no PIB, câmbio e inflação. O time de macroeconomia do Safra estima que a tarifa possa ter efeito negativo de até 0,4 ponto percentual sobre o PIB. Isso tende a arrefecer a inflação no médio prazo, devido ao redirecionamento de parte das exportações para o mercado interno.

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O Banco Safra vê um efeito heterogêneo sobre os setores econômicos exportadores, com base na capacidade de determinados setores em redirecionar parte da produção e na presença internacional de companhias importantes.

Setores do agronegócio mais afetados pela tarifa de 50% nos EUA

Apesar do Brasil estar sujeito à maior tarifa comparativamente a outros países, o efeito nos setores precisa ser analisado de forma proporcional, isto é, levando em conta que países competidores também podem estar sujeitos a tarifas de exportação, ainda que sensivelmente menor do que a aplicada ao Brasil.

De todo modo, o efeito da tarifa sobre o desempenho dos setores exportadores brasileiros é heterogêneo, conforme a análise dos especialistas do Banco Safra:

  • (i) exportadores do setor agrícola, como café, carnes (e derivados de origem animal), sucos etc.;
  • (ii) papel e celulose, especialmente no caso da Suzano (SUZB3), cuja receita com exportações para a América do Norte representa cerca de 19% do total;
  • (iii) bens de capital, destacando-se como maiores impactados as companhias Embraer e Weg, e segmento autopeças exportador; e
  • (iv) exportadores de petróleo, ainda que tenham capacidade de remanejar volumes para outros mercados.

O Safra destaca que, no setor de commodities, em geral o redirecionamento de volumes pode pressionar preços globais. No setor de proteína animal, ainda que as exportações para os EUA tenham aumentado nos últimos anos, o impacto tende a ser limitado para grupos com presença
internacional e capacidade de realocação logística, como Minerva (BEEF3), Marfrig (MRFG3) e JBS (JBSS3).

Em siderurgia, as exportações de aço brasileiro já eram sujeitas à tarifa de 50%, o que limita efeitos incrementais, e boa parte dos produtos exportados aos EUA, como placas, têm origem em modelos integrados e com produção nos próprios EUA.

Açúcar e Etanol (risco baixo)

  • Baixo impacto aos produtores de etanol, dado que a exportação ao mercado dos EUA é abaixo de 1% da produção brasileira.
  • Açúcar deve sofrer impacto limitado, dada a diversificação nas exportações e barreiras existentes.

Bens de Capital (risco médio e alto)

  • Perda de market share para concorrentes americanos.
  • Magnitude conforme a elasticidade de preços do mercado externo e a
  • capacidade de repasse de custos para consumidores.

Grãos (efeito diverso)

  • Produtores de soja e milho serão pouco afetados.
  • Produtores de café e laranja podem ser mais prejudicados, dada a exposição ao mercado dos EUA. Risco das exportações brasileiras serem parcialmente substituídas por concorrentes internacionais.

Óleo e Gás (risco médio)

  • Tarifas podem limitar exportações brasileiras de óleo bruto e devem estimular busca por outros mercados.

Proteína Animal Baixo a Médio

  • Exportações de carne suína e de aves aos EUA são pouco representativas.
  • Carne bovina pode ter impacto relevante, dado que os EUA detêm 10,3% das exportações.
  • Redirecionamento das vendas a outros países mitiga parcialmente o impacto financeiro.

Impacto das tarifas nas empresas

A lista de cobertura de empresas (relatório consolidado) abrange desde os setores que podem sofrer maior impacto das tarifas, conforme
elencado anteriormente, até concessões públicas, como energia elétrica, rodovias e transporte ferroviário, cobrindo também imobiliário e saúde, cujo impacto não é relevante.

Neste cenário de imposição tarifária ao comércio exterior, a atenção se volta para poucas firmas, cujo perfil é exportador e com exposição significativa ao mercado estadunidense. Confira a análise:

Cooxupé – As exportações de café para os Estados Unidos representaram 21% da receita líquida da companhia em 2024, portanto, uma eventual aplicação tarifária reduz a competitividade da cooperativa. Ainda é muito incerto o possível efeito sobre os números financeiros da companhia, dado que a Cooxupé tem capacidade para redirecionar parcialmente a produção para o mercado local, Europa e Ásia. Além disso, haveria dificuldade de outros países em suprir a demanda dos EUA, que é o principal consumidor mundial de café, com 20% do consumo global na safra 2024/2025. O Brasil, por sua vez, respondeu por 41% da produção global de café, mantendo-se como o principal exportador – cerca de 33% das exportações mundiais.

Dado a possibilidade de encarecimento da commodity brasileira, outros produtores como Colômbia, Etiópia e Vietnã, poderiam redirecionar parte de suas vendas para o mercado norte-americano. No entanto, a relevância do Brasil na comercialização do grão, os baixos estoques globais e a menor escala dos demais produtores, limitariam esse movimento. Desse modo, o Safra acredita que é difícil a substituição total do produto
brasileiro e espera-se que os EUA absorvam inflação com o encarecimento do café ao consumidor final.

JF Citrus – A produção de laranjas da companhia é direcionada para as indústrias de processamento como Citrosuco e Natural One, que exportam parte da sua produção para os EUA. Logo, o impacto sobre a companhia é indireto, mas, ainda assim, podendo ser relevante.

O Brasil é o maior produtor de suco de laranja do mundo, com cerca de 70% do mercado global e sendo também o principal exportador. Segundo estimativas da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (Citrus BR), os EUA representaram 37% das exportações brasileiras do produto entre jul/24 e fev/25. Novamente aqui, o Safra considera difícil a substituição total do produto brasileiro, portanto, haveria demanda mesmo em um cenário com tarifa elevada de importação pelos EUA.

Minerva (BEEF3)– Segundo estimativas da companhia, as exportações brasileiras sujeitas às novas tarifas apresentam potencial de impacto máximo de 5% sobre a receita líquida. A Minerva, no entanto, possui flexibilidade para redirecionar sua produção para outras plantas localizadas América do Sul, podendo mitigar parcialmente esse efeito.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações de proteína bovina para os EUA representaram 10,3% do volume total brasileiro nos últimos 12 meses.

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