Superquarta testa início da queda dos juros no Brasil e cautela prolongada nos EUA
Copom deve reduzir a Selic em 0,25 ponto, para 14,75%, enquanto Federal Reserve tende a manter juros entre 3,50% e 3,75% em meio a incertezas globai
16/03/2026 3 minutos
Safra avalia que a pressão inflacionária decorrente da alta do petróleo tende a ser temporária | Foto: Getty Images
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decide nesta quarta-feira (18) o rumo da taxa Selic em um ambiente de expectativas mais moderadas para o início do ciclo de afrouxamento monetário. Nos Estados Unidos, a expectativa é a de que o Federal Reserve deve manter os juros diante do atual cenário de instabilidade geopolítica.
A projeção predominante do mercado financeiro, captada pelo boletim Focus do Banco Central do Brasil, divulgado nesta segunda-feira (16), é de um corte de 0,25 ponto porcentual, levando a taxa básica de juros de 15% para 14,75% ao ano.
O Banco Safra corrobora essa leitura e avalia que, apesar da desaceleração da atividade e do fechamento do hiato do produto, o cenário ainda exige prudência. Segundo o banco, o Copom deve optar por um ajuste inicial mais contido, diante da volatilidade recente dos preços das commodities, especialmente do petróleo, e do aumento das expectativas inflacionárias de médio prazo.
A Selic está no maior nível desde julho de 2006 e permaneceu inalterada por cinco reuniões consecutivas. Na ata do encontro de janeiro, o colegiado indicou que poderia iniciar cortes em março, desde que o cenário inflacionário permanecesse sob controle — condição que segue válida, embora com riscos no curto prazo.
Atividade mais fraca abre espaço para corte gradual
A análise do Safra destaca que a política monetária restritiva produziu efeitos relevantes sobre a economia real ao longo dos últimos trimestres. O consumo das famílias ficou praticamente estagnado no segundo semestre de 2025, pressionado pelo alto comprometimento da renda com o serviço da dívida. Já o investimento das empresas recuou 3,4% no período, refletindo o elevado custo de capital.
Apesar disso, indicadores recentes sugerem uma recuperação moderada da atividade no início de 2026, impulsionada, entre outros fatores, pela desoneração do Imposto de Renda para pessoa física. O banco projeta crescimento do PIB de 1,7% neste ano, em linha com a leitura de arrefecimento gradual da economia.
Inflação: choque de oferta no curto prazo, alívio no horizonte relevante
No front inflacionário, o Safra avalia que a pressão decorrente da alta do petróleo tende a ser temporária. Embora os preços no atacado devam acelerar nos próximos meses, a curva futura das commodities sugere acomodação ao longo de 2026 e 2027.
Simulações do modelo de inflação do Banco Central indicam que, mesmo incorporando choques climáticos como o El Niño, o IPCA acumulado em 12 meses no terceiro trimestre de 2027 ficaria em torno de 3,6%, dentro do intervalo de tolerância da meta.
Em cenários alternativos, a projeção é ainda mais benigna, reforçando a avaliação de que a autoridade monetária pode “olhar através do choque” de oferta.
Fed deve manter postura cautelosa nos Estados Unidos
Na mesma quarta-feira, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), do Federal Reserve, anuncia sua decisão de política monetária.
A expectativa do Banco Safra é de manutenção dos juros básicos no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano, prolongando a postura cautelosa da autoridade americana.
A combinação de inflação ainda resistente em alguns segmentos da economia dos EUA e a resiliência do mercado de trabalho reduz o espaço para cortes no curto prazo, o que mantém o diferencial de juros como variável-chave para os fluxos de capital em mercados emergentes, como o Brasil.
Superquarta amplia impacto sobre mercados e investimentos
As chamadas “superquartas”, quando as decisões do Copom e do Fed coincidem, costumam elevar a volatilidade dos mercados financeiros, dada a influência direta das taxas básicas de juros sobre câmbio, preços de ativos e expectativas econômicas.
No Brasil, as reuniões do Copom ocorrem a cada 45 dias, enquanto o FOMC se reúne cerca de oito vezes por ano. Quando os calendários se alinham, o mercado passa a interpretar as decisões de forma conjunta, avaliando não apenas o início do ciclo de cortes doméstico, mas também os limites impostos pelo cenário internacional.
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