Superquarta: cenário externo trava queda mais rápida da taxa Selic
A superquarta deve ter manutenção dos juros nos Estados Unidos e um novo corte de 0,25 ponto percentual no Brasil, em meio à pressão inflacionária do petróleo
3 minutos Publicado em Atualizado emEm semana de decisões simultâneas de política monetária no Brasil e nos EUA, Safra avalia que a cautela seguirá predominando nos bancos centrais, com impacto direto sobre câmbio, inflação e renda fixa | Foto: Getty Images
O Banco Safra projeta que o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na reunião que termina nesta quarta-feira (29), levando os juros básicos para 14% ao ano, em um movimento de continuidade cautelosa do processo de flexibilização monetária.
A avaliação foi apresentada por Matheus Rosignoli, da área de Macroeconomia do banco, em entrevista ao programa Safra Insights. Segundo ele, a decisão ocorre em um ambiente marcado por duas forças simultâneas: de um lado, juros ainda muito elevados no Brasil e sinais de desaceleração gradual da atividade econômica; de outro, um cenário internacional mais adverso, com pressão sobre a inflação decorrente da alta do petróleo e da incerteza geopolítica.
Cautela do Copom reflete inflação mais alta e cenário externo incerto
Na leitura do Safra, o corte promovido anteriormente pelo Banco Central não inaugurou, necessariamente, um ciclo clássico e agressivo de afrouxamento monetário.
O próprio Copom, segundo o economista, adotou uma comunicação mais contida ao classificar o movimento como um processo de calibração, e não como um ciclo mais intenso de redução de juros.
Espaço para queda da Selic existe, mas em ritmo moderado
Para o banco, ainda há espaço para cortes adicionais, porque a taxa básica permanece em nível restritivo e a economia brasileira começa a mostrar moderação em indicadores mensais. Embora o primeiro trimestre de 2026 deva registrar um Produto Interno Bruto (PIB) mais forte, próximo de 1%, impulsionado em parte pelo setor agropecuário, esse desempenho não altera, por si só, a avaliação de que a política monetária segue contracionista.
O ponto central, segundo o Safra, é definir quanto espaço existe para flexibilização sem comprometer a convergência da inflação à meta. A elevação recente do preço internacional do petróleo, associada ao conflito no Oriente Médio, piorou tanto a inflação corrente quanto as expectativas futuras, tornando o ambiente mais delicado para cortes mais profundos no curto prazo.
Pressão inflacionária limita corte mais intenso
O contexto global dificulta um movimento mais acelerado do Banco Central. Por isso, a instituição financeira entende que a estratégia mais provável, por ora, é repetir a dose de 25 pontos-base, ganhando tempo para observar a evolução de variáveis-chave, como:
- a intensidade e duração dos conflitos geopolíticos;
- a trajetória do petróleo no mercado internacional;
- o comportamento da atividade econômica doméstica;
- a dinâmica das expectativas de inflação.
Fed deve manter juros e adiar eventual corte para o segundo semestre
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve também decide os rumos da política monetária nesta superquarta. O mercado financeiro trabalha majoritariamente com a permanência da taxa no intervalo entre 3,50% e 3,75%, diante de um quadro ainda incerto para a inflação americana.
Segundo o economista do Safra, a alta dos preços de energia e a recomposição inflacionária em alguns segmentos de bens reforçam a necessidade de prudência por parte da autoridade monetária americana.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho segue relativamente resiliente, com taxa de desemprego ao redor de 4,5%, e a atividade econômica continua apresentando desempenho considerado satisfatório.
Corte de juros nos EUA segue no radar, mas não no curto prazo
Nesse quadro, o Safra mantém a avaliação de que o Fed ainda poderá cortar juros em 2026, mas apenas mais adiante, possivelmente no terceiro ou no quarto trimestre, quando os choques atuais tenderiam a se dissipar.
A eventual troca de comando na presidência do Fed também foi mencionada, mas com efeito limitado no curto prazo. A leitura do banco é que mudanças na comunicação ou na orientação geral podem ocorrer gradualmente, sem alterar de forma abrupta a condução da política monetária, já que as decisões são colegiadas.
Projeção do Safra para o fim de 2026 segue em 12,25%
Apesar das incertezas no curto prazo, o Banco Safra manteve sua projeção de taxa Selic em 12,25% ao fim de 2026. O cenário-base considera continuidade do processo de cortes, ainda que o ritmo possa variar conforme a evolução do ambiente externo.
Se houver alívio nas tensões no Oriente Médio e recuo das pressões inflacionárias associadas ao petróleo, o banco avalia que o Copom poderia acelerar o passo e promover cortes de 0,50 ponto percentual em reuniões posteriores. Ainda assim, tanto no cenário mais cauteloso quanto em um ambiente mais benigno, a projeção terminal para o ano permanece a mesma.
O que a visão do Safra sinaliza para investidores
A mensagem central da projeção do Safra é que o Banco Central brasileiro ainda dispõe de espaço para reduzir juros, mas deve fazê-lo com parcimônia. Para os investidores, isso reforça a importância de acompanhar:
- a comunicação do Copom;
- os desdobramentos da política monetária dos Estados Unidos;
- a trajetória das commodities, especialmente o petróleo;
- os sinais de desaceleração ou resiliência da economia brasileira.
Para os mercados de renda fixa, a perspectiva de queda gradual da Selic segue construtiva, embora o ambiente continue sujeito a volatilidade. Já para ativos mais sensíveis ao crescimento e ao câmbio, o peso do cenário externo tende a continuar relevante nas próximas semanas.
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