Copom eleva juros para 15% ao ano e anuncia fim do ciclo de aperto; Fed mantém taxas
Comitê de Política Monetária do Banco Central surpreende maior parte do mercado e volta a elevar juros; nos Estados Unidos, Federal Reserve mantém taxas
18/06/2025 4 minutos
Incertezas em relação à economia dos Estados Unidos levaram o Copom a promover mais uma elevação da taxa Selic, surpreendendo a maior parte dos analistas | Foto: Getty Images
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) surpreendeu a maior parte do mercado financeiro e promoveu mais uma elevação de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros (taxa Selic), que passa a 15% ao ano. Com isso, o juro no Brasil é o mais alto desde julho de 2006.
O Copom justificou que o ambiente externo continua adverso e incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos. Segundo a autoridade monetária, o cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes.
“O Copom decidiu elevar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 15,00% ao ano, e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”, afirma o comunicado do Copom. O Comitê antecipou para a próxima reunião a decisão de interromper o ciclo de alta de juros para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos no intervalo entre 4,25% e 4,50% ao ano. A decisão já era esperada pelo mercado, diante do aumento da aversão ao risco após da escalada das tensões entre Israel e Irã. A reunião desta quarta-feira foi a quarta seguida da autoridade monetária dos EUA em que a taxa de juros foi mantida. Os juros foram reduzidos para o nível atual em dezembro de 2024.
No Brasil, a decisão do Copom surpreendeu boa parte do mercado, que estava dividido nesta superquarta: parte dos investidores precificava uma alta de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic, enquanto a maioria dos analistas esperava a manutenção da taxa de 14,75%, com sinalização de juro alto por prazo prolongado.
Matheus Rosignoli, da equipe de Macroeconomia do Banco Safra, considera que os juros já poderiam estar em queda nos EUA, se não fossem as incertezas atuais. “Os dados de inflação americana foram bons, inclusive o núcleo das taxas do setor de serviços, mas o Federal Reserve prefere aguardar para ter mais certeza sobre o cenário global, o que explica a medida de cautela atual”.
A expectativa de arrefecimento da atividade e a redução da inflação ao longo do segundo semestre devem levar o Banco Central de Brasil a iniciar um processo de redução da taxa básica de juros, o que tende a favorecer os investimentos em renda variável. O Safra espera dois cortes de juros nas duas últimas reuniões do ano.
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Decisão do Fed sobre taxa de juros reflete tensão no oriente Médio
A decisão do Fed reflete a cautela diante das incertezas econômicas, após o tarifaço decretado pelo presidente Donald Trump e a recente negociação de acordos com a China para adiar o aumento das tarifas comerciais.
O banco central americano revisou de 1,7% para 1,4% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos em 2025, o que também foi visto como reflexo do impacto das tarifas comerciais.
A projeção de inflação para 2025 subiu de 2,7% para 3%, embora o núcleo dos índices preços tenha mostrado sinais de desaceleração nas divulgações mais recentes.
Íntegra do comunicado do Copom
‘O ambiente externo mantém-se adverso e particularmente incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, principalmente acerca de suas políticas comercial e fiscal e de seus respectivos efeitos. Além disso, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos também têm sido afetados, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes em ambiente de acirramento da tensão geopolítica.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho ainda tem apresentado algum dinamismo, mas observa-se certa moderação no crescimento. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 5,2% e 4,5%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o ano de 2026, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,6% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando com atenção como os desenvolvimentos da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. Para assegurar a convergência da inflação à meta em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado.
O Copom decidiu elevar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 15,00% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
Em se confirmando o cenário esperado, o Comitê antecipa uma interrupção no ciclo de alta de juros para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, e então avaliar se o nível corrente da taxa de juros, considerando a sua manutenção por período bastante prolongado, é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em prosseguir no ciclo de ajuste caso julgue apropriado.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Diogo Abry Guillen, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, Renato Dias de Brito Gomes e Rodrigo Alves Teixeira’.
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