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Juros altos, açúcar em baixa e El Niño redesenham o risco das usinas

Relatório do Banco Safra aponta que a combinação entre juros elevados, sobreoferta global de açúcar e riscos climáticos deve ampliar a seletividade no crédito do setor, favorecendo grupos com baixa alavancagem e maior flexibilidade operacional

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usina de etanol e açúcar

Safra avalia que empresas com maior flexibilidade entre açúcar e etanol, caixa robusto e dívida alongada terão mais capacidade de atravessar o atual ciclo de pressão sobre preços e margens no setor sucroenergético | Foto: Getty Images

O Banco Safra avalia que o setor sucroalcooleiro brasileiro entrou em um ciclo mais desafiador, marcado pela combinação de preços internacionais pressionados, juros ainda elevados e riscos climáticos associados ao fortalecimento do fenômeno El Niño.

Em relatório setorial publicado em 20 de julho, os analistas Yuri Machado e Roberto Pasqualini destacam que a safra 2026/27 deverá apresentar crescimento de produção, mas sem garantia de melhora proporcional na rentabilidade das usinas. Segundo o estudo, a geração de caixa dependerá cada vez mais da eficiência operacional, da estratégia de hedge, da flexibilidade de mix entre açúcar e etanol e da estrutura de capital de cada companhia.

O Safra observa que o Brasil mantém posição estratégica no mercado global, respondendo por cerca de 40% das exportações mundiais de açúcar e consolidando participação crescente na matriz de combustíveis renováveis. Essa liderança, contudo, amplia a exposição do setor a choques externos, especialmente climáticos, cambiais e geopolíticos.

Açúcar pressionado e etanol mais resiliente

Sobreoferta global limita recuperação do açúcar

Na avaliação do Safra, o açúcar segue como principal vetor de pressão sobre as margens do setor. Os contratos internacionais negociados em Nova York permaneceram na faixa de 14 a 15 cents por libra-peso ao longo do primeiro semestre de 2026, níveis considerados insuficientes para parte dos produtores.

Embora consultorias internacionais já indiquem déficits globais para a safra 2026/27, o banco entende que a recuperação dos preços tende a ocorrer de forma gradual e limitada, principalmente para usinas que fixaram contratos em níveis mais baixos.

E32 sustenta demanda por etanol

Do lado positivo, o Safra destaca a elevação temporária da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, medida aprovada pelo CNPE em julho. A expectativa do setor é de uma demanda adicional próxima de 1 bilhão de litros por ano.

Ainda assim, os analistas ponderam que o aumento da produção total de etanol, projetada pela Conab em mais de 3 bilhões de litros adicionais na safra 2026/27, deve limitar uma recomposição mais consistente dos preços.

Segundo o relatório, a demanda doméstica segue sustentada pela paridade favorável frente à gasolina, mas o ambiente ainda é de margens comprimidas.

Clima, geopolítica e crédito ampliam riscos

O Safra considera que o principal risco climático do atual ciclo não está necessariamente em uma quebra severa de produção, mas na piora de produtividade, aumento de custos operacionais e redução do ATR.

O relatório aponta que o fortalecimento do El Niño pode provocar irregularidade de chuvas no Centro-Sul e elevar os custos agrícolas, sobretudo em regiões mais expostas ao déficit hídrico.

No cenário internacional, a reescalada das tensões no Oriente Médio também preocupa. O banco avalia que a alta do petróleo favorece a competitividade do etanol, mas encarece fertilizantes, diesel e fretes, pressionando a estrutura de custos das usinas.

Outro ponto de atenção é o ambiente de crédito. O Safra observa aumento das reestruturações financeiras no agronegócio e maior seletividade para captação de recursos, em um contexto de Selic ainda elevada e maior custo de carregamento de estoques.

Empresas mais resilientes concentram preferência do Safra

O banco classifica Colombo, Copersucar, Cerradinho e São Martinho entre suas principais preferências no setor, destacando baixa alavancagem, liquidez robusta e maior flexibilidade operacional.

A Colombo foi citada pela combinação entre elevada participação de cana própria, desalavancagem e fortalecimento operacional após a entrada da nova unidade de açúcar em Palestina (SP).

A São Martinho segue favorecida pelo histórico de produtividade acima da média do Centro-Sul e pelo perfil híbrido entre cana e milho, apesar do ciclo mais intenso de investimentos.

Já a Cerradinho se beneficia da diversificação entre etanol de cana e milho, além da melhora recente de alavancagem após a conclusão de projetos de expansão.

No caso da Copersucar, o Safra destaca a diversificação geográfica e operacional, com presença relevante nos mercados brasileiro e norte-americano.

Por outro lado, o relatório adota postura de cautela em relação à FS e à Raízen.

FS amplia investimentos e eleva risco financeiro

A FS teve perspectiva revisada para negativa após anunciar nova expansão industrial. Segundo o Safra, a construção de uma quinta planta de etanol de milho deve elevar a alavancagem da companhia para até 4,5 vezes dívida líquida sobre EBITDA ao longo da safra 2026/27.

Apesar da forte capacidade operacional e do crescimento do EBITDA, o banco entende que o aumento do endividamento e a pressão esperada sobre os preços do etanol ampliam o risco de crédito no curto prazo.

Raízen segue sob forte pressão

A Raízen permanece como o caso mais sensível do setor. O Safra classifica o risco de crédito da companhia como alto, diante da combinação entre alavancagem elevada, fluxo de caixa pressionado e necessidade de execução do plano de recuperação extrajudicial.

A companhia encerrou a safra 2025/26 com dívida líquida de R$ 58,2 bilhões e alavancagem de 5,2 vezes EBITDA ajustado.

Segundo os analistas, a evolução da reestruturação financeira e o andamento da venda de ativos serão determinantes para a trajetória futura do crédito da empresa.

Perspectiva permanece seletiva

Na conclusão do relatório, o Safra afirma que o ciclo atual deve ampliar a diferenciação entre emissores mais resilientes e companhias mais expostas ao aumento de custos, pressão sobre preços e necessidade de capital.

Para o banco, empresas com hedge disciplinado, dívida alongada, maior liquidez e flexibilidade no mix entre açúcar e etanol terão melhores condições de preservar margens e atravessar um ambiente global ainda marcado por elevada volatilidade.

Cley Scholz

Editor do portal O Especialista. LinkedIn

Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.

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