Investimentos prefixados ganham tração com mercado mais cauteloso
Em um ambiente de maior cautela nos mercados, o Comitê de Alocação do Banco Safra recomenda redução em pós-fixados e aumento em prefixados
07/04/2026 Atualizado em 08/04/2026 4 minutos
Safra Report sugere mudança tática em renda fixa, com migração parcial de pós-fixados para prefixados, preservando a diversificação entre multimercados, bolsa local, ativos internacionais e alternativos | Foto: Getty Images
Diante do atual cenário de volatilidade com as tensões geopolíticas no Oriente Médio, o relatório mensal com recomendações de investimentos do Banco Safra traz ajustes pontuais para o mês de abril. A estratégia reduz a exposição a ativos pós-fixados e amplia a posição em títulos prefixados.
A mudança ocorre após a abertura expressiva da curva de juros e reflete uma leitura mais construtiva para a trajetória dos juros no Brasil, mesmo em um contexto de maior volatilidade global.
Depois de um início de ano marcado pela valorização dos ativos brasileiros, março registrou uma inflexão no humor dos investidores, com aumento da aversão a risco no exterior e maior sensibilidade a fatores geopolíticos.
Ainda assim, o comitê de alocação do Safra optou por preservar a espinha dorsal da carteira recomendada, mantendo sem alteração as posições em juro real, multimercados, renda variável local, internacional e ativos alternativos. As recomendações estão no Safra Report de abril.
Bolsa brasileira perde fôlego, mas mantém desempenho relevante no ano
O mercado acionário doméstico interrompeu, em março, a sequência de meses positivos observada desde o segundo semestre do ano passado. Mesmo com recuperação no fim do mês e alta superior a 2% no último pregão, o Ibovespa encerrou o período em leve queda de 0,70%, aos 187.461 pontos.
Apesar do recuo mensal, a bolsa brasileira continuou entre os mercados de melhor desempenho em 2026, preservando parcela relevante dos ganhos acumulados no primeiro trimestre.
Para os especialistas do Banco Safra, esse comportamento indica que, embora o ambiente externo tenha se tornado menos benigno, os ativos locais seguem sustentados por fundamentos domésticos e pela perspectiva de flexibilização monetária ao longo do ano.

Exterior mais adverso pressiona emergentes
A deterioração do cenário internacional foi um dos principais vetores de oscilação em março. O avanço das tensões no Oriente Médio elevou a cautela global, pressionou o petróleo, reacendeu preocupações inflacionárias e trouxe dúvidas sobre o ritmo de crescimento da economia mundial. Em consequência, o apetite por risco diminuiu em diversas regiões, com impacto mais forte sobre mercados emergentes.
Nesse contexto, a reacomodação feita pelo Safra na renda fixa busca responder a uma nova assimetria de mercado. A redução em pós-fixados e o aumento em prefixados sugerem maior convicção de que há espaço para captura de valor em um ambiente de juros em queda no Brasil, ainda que o cenário externo recomende seletividade.
Desaceleração da economia brasileira reforça expectativa para a Selic
No campo macroeconômico, a avaliação do Safra é de que a desaceleração da atividade no Brasil reforça a expectativa de corte da taxa Selic ao longo de 2026.
Após crescimento de 2,3% em 2025, o Produto Interno Bruto brasileiro deve avançar 1,6% neste ano, em ritmo mais moderado. O dado do quarto trimestre do ano passado, com alta de apenas 0,1% frente ao trimestre anterior, já indicava perda de tração da atividade.
Segundo a equipe de macroeconomia do banco, o arrefecimento da absorção doméstica, em um ambiente ainda marcado por juros elevados, contribui para reduzir pressões inflacionárias à frente.
A projeção do Safra para o IPCA em 2026 é de 3,7%, dentro da banda da meta, o que sustenta a avaliação de início do ciclo de afrouxamento monetário. A estimativa da casa é de que a Selic termine o ano em 11,50%.
Cenário externo segue misto entre crescimento e inflação resistente
Nos Estados Unidos, a economia segue em expansão, com projeção de crescimento de 2,5% em 2026, acima do potencial estimado pelo Federal Reserve. A inflação, porém, permanece ligeiramente acima da meta, limitando o espaço para cortes mais intensos de juros. A expectativa do Safra é de apenas uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa básica americana em meados do ano.
Na China, os sinais seguem mais desafiadores, especialmente no setor imobiliário e no consumo, embora as exportações continuem mostrando resiliência.
Já na zona do euro, a recuperação mais consistente da atividade e a inflação em nível compatível com a meta devem levar o Banco Central Europeu a manter os juros estáveis nas próximas reuniões.
Estratégia privilegia coerência e disciplina em vez de movimentos bruscos
A mensagem central do Banco Safra para abril é a de que o momento exige disciplina e consistência estratégica. Em vez de mudanças amplas, o comitê preferiu um ajuste seletivo, preservando a diversificação da carteira em um cenário ainda cercado por incertezas.
Na prática, a leitura é que, em mercados menos lineares, a qualidade da alocação depende menos de reações táticas exageradas e mais da capacidade de manter coerência entre cenário, horizonte de investimento e perfil de risco.
Para o investidor, isso significa atravessar períodos de maior volatilidade com portfólios equilibrados e exposição calibrada entre diferentes classes de ativos.
Alocação por perfil mantém diversificação gradual
As recomendações por perfil de investidor seguem ancoradas em diversificação progressiva conforme a tolerância a risco.

Ultraconservador: a carteira permanece integralmente alocada em renda fixa, com 75% em pós-fixados e 25% em inflação, sem exposição a multimercados, bolsa, ativos internacionais ou alternativos.
Conservador: a alocação sugerida reúne 77% em renda fixa, 8% em multimercados, 5% em renda variável local, 6% em internacional e 4% em alternativos, em uma composição voltada a preservar capital com diversificação moderada.
Moderado: para esse perfil, o Safra recomenda 55% em renda fixa, 16% em multimercados, 11% em renda variável local, 12% em ativos internacionais e 6% em alternativos, refletindo maior disposição para oscilações em busca de retorno.
Dinâmico: a carteira mais arrojada concentra 39% em renda fixa, 17% em multimercados, 18% em renda variável local, 18% em internacional e 8% em alternativos, com foco em horizonte de longo prazo e maior potencial de valorização.
Síntese das recomendações para investidores em abril
O Safra entra em abril com uma mudança tática, mas sem alterar o eixo central da estratégia. Ao migrar parte da exposição de pós-fixados para prefixados, o banco sinaliza confiança maior na queda de juros domésticos.
Ao mesmo tempo, a manutenção das demais posições reforça a avaliação de que a diversificação continua sendo o principal instrumento de navegação em um ambiente global mais instável.
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