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Com queda lenta da Selic, foco da renda fixa migra para o meio da curva

Com inflação mais pressionada, piora fiscal e incerteza externa, estratégia de investimentos em renda fixa privilegia NTN-Bs intermediárias, mantém LFTs como âncora de liquidez e evita prefixados longos

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renda fixa

Relatório do Banco Safra reposiciona a carteira de renda fixa para o trecho intermediário da curva, com maior peso em NTN-Bs 2032 e 2035 diante de juros reais elevados e ambiente macroeconômico mais adverso

O Banco Safra passou a defender uma alocação em renda fixa mais concentrada no centro da curva de juros, diante de um ambiente em que o ciclo de queda da Selic tende a avançar de forma gradual e sob maior nível de incerteza. A principal mudança da estratégia foi o alongamento moderado da duration em títulos públicos, com reforço das posições em NTN-Bs intermediárias, especialmente nos vencimentos entre 2032 e 2035.

A avaliação dos especialistas é que esse trecho reúne, neste momento, a melhor combinação entre carrego elevado, prêmio real acima do juro neutro estimado e sensibilidade ainda administrável aos próximos movimentos da política monetária.

Em paralelo, o Safra reduziu o peso das NTN-Bs curtas, manteve LFTs como reserva tática e preservou apenas uma exposição limitada a prefixados de curto prazo.

O que sustenta a recomendação

A estratégia reflete uma leitura mais cautelosa para o cenário doméstico e internacional. No Brasil, o Copom realizou em 29 de abril de 2026 o segundo corte do ciclo, reduzindo a Selic de 14,75% para 14,50%, mas preservando um discurso prudente.

O mercado passou a projetar juros de 13,00% ao fim de 2026, num ritmo mais lento de afrouxamento monetário do que se estimava anteriormente.

Ao mesmo tempo, a inflação e suas expectativas pioraram. A mediana das projeções para o IPCA em 12 meses subiu de 3,93% no início de março para 4,91% em 11 de maio, movimento que elevou o custo de reancoragem para o Banco Central.

O IPCA acumulado em 12 meses até abril ficou em 4,39%, ainda abaixo do teto da meta, mas em patamar desconfortável.

Fiscal e exterior ampliam a cautela

Na visão do Safra, o principal vetor de risco segue sendo o fiscal. A dívida bruta do governo geral superou 80% do PIB em março, e a trajetória projetada pelo Tesouro aponta avanço adicional nos próximos anos.

Esse quadro tende a manter pressão sobre os juros longos e a ampliar o prêmio exigido pelos investidores, sobretudo no período pré-eleitoral.

No exterior, o banco cita o choque do petróleo, com o Brent ao redor de US$ 110 por barril, e a perda de consenso no Federal Reserve como fatores que aumentam a volatilidade global.

A combinação desses elementos reforça a defesa por posições mais protegidas contra inflação e por um posicionamento menos agressivo na ponta longa da curva.

Como fica a alocação recomendada

A carteira sugerida pelo Safra está organizada em quatro blocos principais:

  1. Posição central em NTN-Bs 2032-2035
    As NTN-Bs intermediárias concentram 40% do portfólio. O banco vê nesses papéis o núcleo da estratégia por oferecerem juros reais elevados, prêmio relevante sobre o juro neutro e duration entre cinco e sete anos, considerada adequada para capturar a próxima etapa de fechamento da curva. A inflação implícita também é vista como um colchão importante em um ambiente de preços mais resistentes.
  2. Redução das NTN-Bs curtas
    Os títulos indexados ao IPCA com vencimentos entre 2028 e 2030 passam a responder por 30% da carteira, abaixo dos 40% recomendados anteriormente. Embora continuem atrativos, com taxas reais acima de 7,8%, o Safra entende que parte relevante do ganho inicial do ciclo de cortes já foi capturada nesse trecho.
  3. LFTs como âncora de liquidez
    As LFTs 2030-2031 ficam com 20% da alocação. O papel desses títulos é funcionar como reserva tática, preservando carrego elevado em ambiente de Selic ainda alta, com baixa volatilidade de marcação a mercado. Na prática, são a parcela mais defensiva da estratégia.
  4. Prefixados curtos apenas de forma tática
    A exposição a LTNs com vencimento em janeiro e julho de 2028 soma 10% da carteira. O banco vê espaço para ganho adicional caso o ciclo de queda de juros se aprofunde, mas limita a aposta ao curto prazo. Prefixados com vencimentos acima de três anos seguem evitados por causa do aumento do prêmio fiscal e do risco de inclinação da curva.

Pontos de atenção

A estratégia mantém visão neutra para NTN-Bs muito longas, como 2050 e além. Apesar do retorno potencial elevado, a duration longa torna esses papéis mais vulneráveis à deterioração fiscal, à abertura da curva e à volatilidade do período pré-eleitoral.

Na leitura do banco, esse risco não é compensado de forma suficiente no cenário atual, exceto para investidores com horizonte muito longo.

Síntese da tese de investimento

Em termos práticos, a estratégia do Safra pode ser resumida em três pontos:

  • Priorizar proteção inflacionária, com maior peso em NTN-Bs;
  • Migrar do curto para o intermediário da curva, onde o prêmio parece mais eficiente;
  • Preservar liquidez e seletividade, evitando alongamento excessivo em prefixados e títulos muito longos.

O racional central é que, num ambiente de cortes graduais da Selic, inflação ainda sensível, risco fiscal elevado e maior instabilidade externa, o melhor equilíbrio entre retorno e risco está no miolo da curva real, e não nas apostas extremas de prazo.

Principais riscos monitorados

O banco destaca quatro focos de atenção que podem alterar a estratégia:

  • Desancoragem adicional da inflação, exigindo juros mais altos por mais tempo;
  • Deterioração fiscal mais acelerada, com pressão extra sobre a curva longa;
  • Choque externo prolongado, sobretudo via petróleo e Treasuries;
  • Piora do crédito doméstico, com avanço da inadimplência e possível reprecificação de risco.

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