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Bens de capital: Safra vê seletividade no setor e mantém viés construtivo

Banco avalia que o ambiente para 2026 segue heterogêneo entre as companhias, com pressão de curto prazo em receitas e margens em parte do setor, mas oportunidades mais claras em empresas com ganhos de participação de mercado, disciplina operacional e exposição a nichos resilientes

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Executivos e analistas discutem perspectivas para bens de capital, com foco em demanda, margens, capacidade e geração de caixa em 2026 | Foto: Getty Images

A leitura consolidada dos especialistas do Banco Safra para o setor de bens de capital aponta para um quadro heterogêneo, em que a visibilidade de curto prazo ainda é limitada para parte das empresas, sobretudo diante de efeitos de sazonalidade, bases de comparação mais exigentes, competição em algumas linhas de produto, custos de matérias-primas e incertezas macroeconômicas e geopolíticas.

Ao mesmo tempo, o Safra identifica vetores favoráveis em companhias com ganho de participação de mercado, maior disciplina em alocação de capital e exposição a mercados de reposição e serviços.

Nesse contexto, a casa mantém recomendação de compra para GPS, Randoncorp e Frasle, enquanto adota postura neutra para WEG, Intelbras e Iochpe-Maxion.

A avaliação do Safra sobre as principais empresas do setor foi feita durante o Capital Goods Day, realizado em 30 de março, no Rio de Janeiro. O Safra reuniu companhias relevantes do setor de bens de capital para discutir as principais tendências operacionais e financeiras para 2026. Participaram do encontro WEG, GPS, Intelbras, Randoncorp, Frasle e Iochpe-Maxion.

WEG: demanda forte em transformadores, mas monetização mais lenta

A avaliação do Safra para a WEG (WEGE3) segue neutra, apesar da demanda global ainda aquecida por transformadores, especialmente nos Estados Unidos. A instituição pondera que o primeiro trimestre deve continuar pressionado por câmbio, sazonalidade e, sobretudo, por uma base de comparação forte em produtos solares.

Margens ainda enfrentam equação complexa

Na visão dos analistas, a companhia segue operando em uma referência de margem entre 21% e 22,5%, mas a dinâmica de curto prazo permanece desafiadora. A redução de tarifas nos EUA tende a ajudar, embora esse efeito deva ser parcialmente compensado por custos mais altos de cobre e alumínio e pela necessidade de calibragem de preços.

O Safra destaca ainda que a expansão de capacidade dificilmente deve se traduzir em contribuição mais relevante de receita antes do período entre o fim de 2027 e o início de 2028. Para o banco, o caso de investimento pode ganhar tração mais clara após o segundo trimestre, quando houver maior visibilidade sobre preços, custos e demanda.

GPS: fundamentos sólidos, mas curto prazo ainda sem grande catalisador

Entre as empresas analisadas, a GPS (GGPS3) continua entre as preferidas do Safra. A recomendação de compra se apoia na resiliência operacional, no amplo mercado endereçável e no potencial de captura gradual de benefícios da reforma tributária.

Ainda assim, o banco adota uma leitura neutra para o momento operacional imediato. O crescimento orgânico deve ficar entre 6% e 8%, abaixo do ritmo observado no segundo semestre de 2025, em razão principalmente do encerramento de contratos não rentáveis da GRSA.

Margem deve melhorar, mas 1º trimestre tende a ser pressionado

O Safra estima margem EBITDA de 10,2%, com avanço anual de 50 pontos-base, embora o início do ano ainda deva refletir sazonalidade, reajustes salariais e provisões de férias. O banco também observa que a retomada mais forte de fusões e aquisições pode levar mais tempo, após a empresa adotar uma postura mais conservadora em valuation.

Mesmo assim, a tese permanece positiva no médio prazo, sustentada por melhora de rentabilidade em operações específicas, redução gradual de custos de mão de obra e potencial expansão do mercado com a reforma tributária.

Randoncorp: melhora operacional deve ganhar corpo ao longo do ano

A Randoncorp (RAPT4) também figura entre as recomendações de compra do Safra, embora a leitura após o evento tenha sido neutra no curto prazo. O banco espera melhora sequencial no primeiro trimestre em praticamente todas as linhas operacionais, excluindo itens não recorrentes.

Na divisão OEM, as receitas ainda devem sentir sazonalidade, mas as margens tendem a voltar a níveis mais normalizados, estimados entre 4% e 5%. Em autopeças, a recuperação deve ser mais evidente, com retomada da produção após férias coletivas e margens convergindo para patamar de dois dígitos baixos.

Geração de caixa pode voltar a partir do 3º trimestre

Segundo o Safra, a entrada de pedidos permanece saudável, com destaque para o segmento do agronegócio. O banco ressalta, porém, que a visibilidade sobre uma melhora sustentada ainda é limitada, em linha com um guidance corporativo mais cauteloso, que incorpora incerteza geopolítica e ritmo mais lento de queda de juros.

Os analistas esperam melhora mais perceptível a partir do segundo trimestre, com contribuição crescente de contratos como o da Hercules com a South Carolina Port Authorities e das entregas de vagões para a Arauco. O impacto mais relevante, porém, deve aparecer a partir do terceiro trimestre de 2026, quando essas frentes ganharem escala.

Frasle: aftermarket menos acelerado, mas tese segue favorecida

A Frasle (FRAS3) saiu do encontro com uma das leituras mais construtivas do Safra. Embora o aftermarket cresça em ritmo mais moderado do que nos últimos anos, o banco vê espaço para avanço da companhia por meio de ganhos de participação de mercado no Brasil e no México.

No mercado doméstico, a atividade de oficinas cresce cerca de 2% na comparação anual, e a Nakata deve continuar contribuindo para expansão de receita. Parte da fraqueza observada no início do ano, segundo o banco, decorre de fatores não recorrentes, como a migração de ERP e a transição do centro de distribuição de Extrema.

Concorrência mais fraca abre espaço para avanço no México

O Safra também destaca a estratégia da companhia para capturar participação de mercado diante do posicionamento mais fraco da First Brands no México. Nos Estados Unidos, o início do ano foi melhor do que o esperado, com apoio adicional da retirada de tarifas recíprocas.

A combinação entre ganhos de share, melhora operacional e efeitos não recorrentes já mapeados levou o banco a manter recomendação de compra e uma leitura levemente positiva para o papel.

Intelbras: rentabilidade melhora, mas receita ainda deve sentir ajuste de portfólio

A leitura do Safra para a Intelbras (INTB3) é mista. A companhia deve continuar enfrentando pressão de receita em 2026, à medida que reduz a contribuição de produtos solares e de GPON, ao mesmo tempo em que lida com competição intensa em controle de acesso.

Por outro lado, esse redirecionamento do portfólio tende a produzir um mix mais saudável e favorecer a rentabilidade. O Safra considera mais realista uma margem entre 13% e 13,5%, abaixo dos 14% recentes, mas ainda em trajetória de melhora operacional.

Estratégia privilegia ROIC, ainda que recuperação possa ser gradual

No segmento de energia, a expectativa segue sendo de queda de receita, mesmo com base de comparação mais fraca. Já em TIC, a administração mantém a estratégia de priorizar margem em detrimento de crescimento, reduzindo gradualmente a exposição a produtos de menor rentabilidade.

Para o banco, a tese continua dependente da execução dessa transição e da intensidade dos investimentos em Manaus, que podem postergar a recuperação mais visível do retorno sobre o capital investido.

Iochpe-Maxion: curto prazo pressionado e risco jurídico no radar

Na Iochpe-Maxion (MYPK3), o Safra mantém recomendação neutra e destaca um ambiente ainda pressionado no curto prazo, especialmente pela fraqueza do mercado doméstico e do segmento de veículos pesados nos Estados Unidos.

A companhia vê sinais mais favoráveis em veículos leves na América do Norte, com potencial de ganhos de participação em rodas de alumínio, além de alguma melhora de volumes em relação ao quarto trimestre de 2025. Ainda assim, a instituição considera que a visibilidade permanece limitada.

Multa antitruste na Alemanha adiciona incerteza

Um dos principais pontos de atenção para o Safra é a notificação antitruste na Alemanha relacionada ao negócio de rodas de alumínio. Embora ainda haja pouca clareza sobre o estágio do processo e o eventual tamanho da multa, o banco entende que esse risco pode pesar sobre resultado, fluxo de caixa e desalavancagem ao longo do ano.

Em contrapartida, a operação na Turquia e a aquisição recente na Argentina podem reforçar a posição competitiva da companhia no médio prazo.

Leitura final: setor exige mais seleção do que aposta direcional

A conclusão do Safra é que o setor de bens de capital entra em 2026 sem um vetor único capaz de beneficiar todas as empresas de forma homogênea. Em vez disso, o ambiente exige seleção mais criteriosa, com preferência por companhias capazes de combinar execução operacional, captura de market share, disciplina financeira e exposição a nichos menos voláteis.

Nesse recorte, GPS, Randoncorp e Frasle aparecem como os nomes com melhor assimetria na cobertura do banco, enquanto WEG, Intelbras e Iochpe-Maxion seguem exigindo maior evidência de melhora operacional ou de redução de riscos para destravar uma visão mais construtiva.

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