Após valorização de 51% em 12 meses, ação da Sabesp é rebaixada
O Banco Safra rebaixou a recomendação da ação de compra para neutra, após alta superior ao Ibovespa em 2025 e baixo nível dos reservatórios
28/01/2026 5 minutos
Devido à seca severa, a Sabesp está adotando medidas para compensar a menor oferta, como a transferência de água da usina hidrelétrica de Jaguari | Foto: Getty Images
Em 2025, as ações da Sabesp (SBSP3) superaram o Ibovespa (+51% vs. 34%) graças a todas as melhorias implementadas pela nova gestão após a privatização e da redução de riscos proporcionada pela revisão tarifária final (que estabeleceu uma nova base de ativos regulatórios para a companhia e diminuiu as incertezas sobre a metodologia tarifária).
O Banco Safra rebaixou a recomendação da ação de compra para neutra, com novo preço-alvo em 12 meses de R$ 146 para SBSP3 (o preço anterior era de R$ 144,10). Isso implica potencial de valorização de cerca de 18%, justificando o rebaixamento da recomendação.
No modelo revisado do Safra, o banco estima uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de aproximadamente 10,5% e vê a companhia sendo negociada a 1,2xVF/RAB em 2026 e 6,9x VF/EBITDA em 2026, o que parece razoável, mas limitado neste momento.
O Safra acredita que a companhia poderá encontrar novas vias de crescimento e surpreender positivamente com novas medidas de eficiência.

Ventos favoráveis de eficiência e regulamentação
A nova gestão da Sabesp implementou importantes iniciativas de eficiência em 2025 que possibilitaram à companhia reduzir os custos administráveis ajustados em 25%.
Assim, o EBITDA ajustado dos primeiros nove meses de 2025 aumentou 21% a/a. A companhia já anunciou um novo programa de demissão voluntária que, segundo as estimativas do Safra, pode reduzir os custos trabalhistas em cerca de 30%.
Além disso, na avaliação do Safra, a conclusão da primeira revisão tarifária pós-privatização, no fim de 2025, foi positiva, visto
que os principais elementos da revisão (despesas operacionais e EBITDA ajustado) ficaram próximos das estimativas, o que sustenta um bom EBITDA regulatório a longo prazo e reduz a percepção de risco.
Hidrologia desfavorável para SBSP3
Janeiro mostrou-se desafiador para afluência de água (até agora, cerca de 40% da média de longo prazo), especialmente após um 2025 já seco (afluência média em torno de 50% da média de longo prazo, segundo a Agência Nacional das Águas).
Consequentemente, o Safra recisou o modelo para o Cantareira e, embora a afluência ainda possa melhorar em fevereiro e março (historicamente 25% da afluência anual), o banco vê um cenário desafiador que pode exigir medidas adicionais para melhorar o abastecimento de água até o fim de 2026.
Alteração nas estimativas
O Banco Safra atualizou o modelo de análise da Sabesp (SBSP3) para incluir:
- (i) a revisão tarifária atualizada;
- (ii) estimativas atualizadas para custos, incluindo o novo programa de demissão voluntária;
- (iii) os resultados financeiros mais recentes;
- (iv) um novo cenário macroeconômico;
- (v) uma nova taxa de desconto;
- (vi) uma nova curva de volume (crescimento de 2,3% em 2026–2027 vs. 4,5% anteriormente).
Essas alterações combinadas implicam uma queda de 2,4% nas estimativas de EBITDA para 2026–2028.
O Banco Safra tem o preço-alvo em 12 meses, baseado no FCD, de R$ 146,00 por ação, utilizando um custo médio ponderado de capital de 10,4%.
O banco vê a companhia negociada a 6,9x VF/EBITDA em 2026, 17% acima do nível histórico, mas ligeiramente abaixo da média do setor.
O balanço tem espaço para um rendimento de dividendos de 5,0%, considerando o limite de distribuição estabelecido quando a Sabesp foi privatizada.
Riscos. (i) Decisões regulatórias desfavoráveis; (ii) falha em atingir as metas de universalização; (iii) eficiência operacional pior do que a esperada; (iv) afluência pior do que a esperada, o que pode implicar escassez de água; e (vi) decisões ruins de alocação de capital.
Eficiência de custos é o principal motor do crescimento da Sabesp
Liderada por novos gestores, que estabeleceram metas consistentes para aprimorar as operações da companhia, em 2025 a Sabesp implementou diversas novas medidas para aumentar a eficiência. Essas medidas sustentaram níveis de EBITDA mais elevados, surpreendendo o mercado e confirmando as estimativas mais otimistas do Banco Safra – a margem EBITDA atingiu cerca de 59%, em comparação com a margem ajustada de 54% observada em 2024 e 48% em 2023.
Entre as principais mudanças, o Safra destaca novos programas de demissão voluntária, novas estratégias comerciais para recuperar a taxa de cobrança e reduzir as provisões para inadimplência, negociações para reduzir os descontos concedidos a grandes clientes e renegociação de dívidas.
Como resultado, nos primeiros nove meses de 2025 o EBITDA ajustado apresentou aumento de 21% em relação ao ano anterior, apesar do crescimento moderado de 1,8% no volume.

Gravidade da situação dos reservatórios da Sabesp
O Cantareira é um sistema de reservatórios (composto por cinco barragens diferentes, que recebem água não só da chuva, mas também de sete rios importantes), que representa cerca de 50% da capacidade total de produção de água da Sabesp.
Devido à seca observada desde agosto de 2025, a afluência total de água atingiu aproximadamente 50% da média histórica em 2025, segundo a ANA.
Em janeiro, a afluência começou abaixo de 25% da média de longo prazo, mas recentemente melhorou para cerca de 40% (devido às chuvas significativas dos últimos dias).
Consequentemente, o reservatório está atualmente com 20,8% da sua capacidade máxima, um nível considerado muito baixo.
Devido à seca severa, a companhia já está adotando medidas para compensar a menor oferta, como a transferência de água da usina hidrelétrica de Jaguari, a antecipação de investimentos para poder captar água adicional de reservatórios alternativos, o aumento da flexibilidade para atender à demanda e a redução da pressão nas tubulações das 19h às 5h (o que reduz perdas). Mesmo assim, os níveis dos reservatórios continuam baixos.
Situação realmente crítica
Em 2014, a afluência atingiu 28% da média histórica, e a companhia precisou utilizar a reserva técnica dos reservatórios durante o verão e implementar diversas medidas, incluindo racionamento de água, bônus para incentivar a redução do consumo e penalidades para controlar a demanda.
Em 2017, devido aos grandes impactos da crise hídrica, o governo decidiu implementar regras específicas para economizar água caso os reservatórios atingissem níveis críticos (Resolução nº 925/2017).
A companhia também investiu em novos sistemas de produção e aumentou sua flexibilidade para atender à demanda utilizando diferentes reservatórios. Assim, o cenário para 2025 era melhor do que o observado em 2014, embora os reservatórios estivessem em níveis semelhantes.
Contudo, embora todos esses fatores tenham contribuído para evitar um cenário ainda mais severo, a situação combinada de todos os reservatórios da Sabesp ainda indica níveis muito baixos – cerca de 31% na região metropolitana, já abaixo dos 40% registrados em janeiro de 2014.
Todas essas medidas e investimentos poderiam compensar temporariamente a limitação da vazão do Cantareira (pelo menos até o inverno e enquanto aguardamos as chuvas), mas poderiam, em última análise, ter um impacto negativo nos volumes em
2026, caso a hidrologia não melhore.
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