close

Rotativo do cartão como renda expõe distorção no crédito, diz Galípolo

O uso do rotativo do cartão como renda disponível revela uma distorção relevante na relação das famílias com o crédito no Brasil, afirmou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo

3 minutos
Galípolo

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, defende uma discussão que vá além do ciclo de juros e alcance problemas estruturais do endividamento | Foto: Divulgação

O presidente do Banco central, Gabriel Galípolo, comentou durante o J.Safra Macro Day, nesta segunda-feira, que parte relevante da população brasileira utiliza o sistema rotativo do cartão de crédito como uma extensão do orçamento mensal, o que agrava a fragilidade financeira das famílias, abalando o poder de compra.

Para Galípolo, o problema não se resume ao ambiente de juros elevados. Ele afirmou que o tema combina fatores conjunturais, como o aperto monetário, e fatores estruturais, ligados à forma como o brasileiro percebe dívida, renda e capacidade de pagamento.

Endividamento vai além do atraso nas contas

Na leitura do presidente do Banco Central, a percepção de endividamento no País é heterogênea. Em muitas situações, o consumidor não se considera endividado quando mantém parcelas e financiamentos em dia, ainda que o orçamento já esteja comprometido de forma relevante.

Esse diagnóstico, segundo ele, ajuda a explicar por que modalidades mais caras de crédito seguem presentes no cotidiano de milhões de brasileiros. O ponto mais sensível, contou, aparece quando o crédito deixa de ser instrumento pontual de gestão financeira e passa a ocupar espaço permanente na composição da renda familiar.

Crédito caro faz parte da transmissão dos juros

Galípolo afirmou que, em um cenário de aperto monetário, o encarecimento do crédito integra o mecanismo de transmissão da política monetária. Em outras palavras, juros mais altos restringem o acesso a recursos e aumentam o custo do endividamento, com efeitos sobre consumo, atividade e concessão de crédito.

Ao mesmo tempo, ele indicou que a pressão sobre o orçamento doméstico não decorre apenas da política monetária. Choques sucessivos de oferta também elevaram o custo de vida em etapas e reforçaram a sensação de perda de poder aquisitivo, inclusive em momentos de desemprego baixo e inflação mais comportada.

Rotativo reúne inadimplência elevada e juros pesados

No diagnóstico apresentado por Galípolo, o rotativo do cartão concentra sinais claros de desequilíbrio. Segundo ele, a modalidade registra cerca de 60% de inadimplência, o que a torna ruim tanto para quem concede quanto para quem toma o crédito.

Além disso, aproximadamente 40 milhões de pessoas físicas pagam juros de 15% ao mês nessa linha. Para o presidente do Banco Central, o dado se torna ainda mais preocupante quando parte desses consumidores incorpora o rotativo ao orçamento como se fosse renda disponível. Nesse ponto, disse que o país enfrenta um problema estrutural que exige solução.

Produtividade e renda entram em discussão

Ao tratar do quadro estrutural da economia brasileira, Galípolo afirmou que o crescimento recente tem sido impulsionado majoritariamente pela demanda, seja via crédito, seja por aumentos reais de renda acima da produtividade.

Segundo ele, o país precisa avançar em políticas que elevem a eficiência e tornem o ambiente mais atrativo ao investimento. Na visão do presidente do Banco Central, esse debate ajuda a explicar parte relevante das dificuldades enfrentadas tanto na política fiscal quanto na política monetária.

O que muda para investidores e consumidores

Para o investidor, a sinalização reforça que o Banco Central continua atento à qualidade do crédito e à forma como o endividamento das famílias afeta a economia. Para o consumidor, a mensagem é direta: tratar o rotativo do cartão como complemento permanente de renda amplia o risco financeiro e torna mais difícil recompor o orçamento ao longo do tempo.

A leitura de Galípolo indica que o desafio brasileiro não está apenas no nível dos juros, mas na estrutura do mercado de crédito e na educação financeira implícita no uso desses instrumentos. Por isso, o debate sobre endividamento tende a seguir relevante, tanto para a política econômica quanto para as decisões de consumo e investimento.

Leia também:

Abra sua conta