Robótica e inteligência artificial entram em fase de investimentos bilionários
IPO recorde da chinesa Unitree e retomada da automação industrial nos Estados Unidos mostram como robôs mais flexíveis, conectados à IA e capazes de operar em diferentes ambientes começam a redesenhar a indústria global
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Robôs humanoides e sistemas industriais com inteligência artificial avançam de aplicações experimentais para fábricas, armazéns e setores pressionados pela escassez de mão de obra | Foto: Getty Images
A combinação entre robótica e inteligência artificial abriu uma nova etapa de desenvolvimento global em diversos setores, e o mercado financeiro já começa a precificar esse movimento. A chinesa Unitree, uma das maiores fabricantes de robôs humanoides do mundo em volume de vendas, estreia nesta quarta-feira (19) na bolsa de Xangai, na China, com uma oferta pública inicial de ações que se tornou recorde no mercado local de tecnologia.
A companhia levantou 6,1 bilhões de yuans, o equivalente a aproximadamente US$ 905 milhões, na operação. A demanda dos investidores de varejo superou em mais de 8.000 vezes a quantidade de ações oferecida.
Com a listagem, a Unitree se torna a primeira fabricante de robôs humanoides a negociar ações na bolsa continental chinesa. O movimento representa mais do que uma operação de mercado: sinaliza que empresas voltadas à automação física e à inteligência artificial começam a ocupar posição estratégica na agenda industrial e de investimentos da China.
A forte procura pelo IPO também evidencia a expectativa em torno de uma tecnologia ainda em fase de consolidação comercial. Embora os robôs humanoides estejam longe de uma adoção generalizada em residências e serviços, investidores apostam que avanços em inteligência artificial, sensores, baterias e componentes mecânicos podem reduzir custos e ampliar rapidamente o mercado.
Da automação programada aos robôs capazes de aprender
A principal mudança no setor de robótica está na transição entre máquinas especializadas e sistemas mais flexíveis. Durante décadas, a automação industrial foi baseada em robôs programados para executar tarefas específicas, repetitivas e previsíveis, como soldagem, pintura e montagem.
A inteligência artificial altera esse modelo ao permitir que os equipamentos processem informações do ambiente, reconheçam objetos, interpretem comandos e ajustem seu comportamento. Em vez de apenas repetir uma sequência previamente definida, o robô passa a lidar com variações e situações menos estruturadas.
Essa evolução é particularmente relevante para fábricas, centros de distribuição e armazéns, onde há grande diversidade de produtos e necessidade de adaptação constante. Também abre espaço para o uso de robôs em atividades que antes exigiam maior intervenção humana, como separação de mercadorias, inspeção visual, movimentação de materiais e abastecimento de linhas de produção.
O papel dos modelos de inteligência artificial
O avanço dos chamados modelos de inteligência artificial de uso geral amplia o potencial dos robôs. Esses sistemas podem combinar visão computacional, linguagem natural e planejamento de tarefas para transformar instruções humanas em ações físicas.
Na prática, uma empresa poderá definir objetivos operacionais sem precisar programar manualmente cada movimento do equipamento. A promessa é reduzir o tempo de implantação, facilitar a operação por funcionários não especializados e tornar economicamente viável a automação de processos em empresas menores.
O desafio é garantir que esses sistemas sejam confiáveis, seguros e capazes de operar em ambientes com imprevistos. A robótica física exige um grau de precisão e controle superior ao de aplicações puramente digitais, já que falhas podem gerar danos materiais, interrupções produtivas ou riscos para trabalhadores.
Mercado de humanoides pode chegar a US$ 200 bilhões
O potencial econômico dos robôs humanoides ajuda a explicar a valorização atribuída ao segmento. O banco britânico Barclays estima que esse mercado, atualmente avaliado entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões, poderá alcançar US$ 200 bilhões até 2035 em um cenário mais otimista.
A projeção depende de avanços em três áreas consideradas decisivas: capacidade de processamento e tomada de decisão, força e destreza física e autonomia das baterias.
Elon Musk, fundador da Tesla, apresenta uma visão ainda mais ambiciosa. Segundo sua estimativa, o robô humanoide Optimus poderá se tornar um dos maiores produtos da história da companhia, com vendas de longo prazo potencialmente avaliadas em US$ 10 trilhões.
Hoje, robôs humanoides podem custar cerca de US$ 100 mil por unidade. A expectativa é que a produção em escala reduza esse valor para uma faixa entre US$ 20 mil e US$ 30 mil. Nesse patamar, o equipamento poderia se tornar uma alternativa economicamente viável para fábricas, armazéns e, em uma etapa posterior, residências.
Considerando a estimativa de mercado do Barclays e essa faixa de preços, o setor poderia chegar à comercialização de aproximadamente 7 milhões a 10 milhões de robôs humanoides por ano até 2035. Trata-se de uma projeção de longo prazo, sujeita a avanços tecnológicos, restrições regulatórias e à capacidade de as empresas comprovarem retorno sobre o investimento.
A primeira onda será industrial
A adoção inicial tende a se concentrar em tarefas repetitivas, fisicamente exigentes ou realizadas em ambientes que apresentam dificuldades para a contratação de trabalhadores.
Fábricas e centros de distribuição aparecem como os mercados mais prováveis por três razões:
- possuem processos relativamente estruturados;
- demandam produtividade contínua;
- enfrentam escassez de mão de obra em diversas funções.
Em uma fase posterior, os humanoides poderão ser utilizados em saúde, assistência a idosos e serviços domésticos. Nesses segmentos, contudo, os requisitos de segurança, confiabilidade e interação com pessoas serão mais elevados.
Estados Unidos retomam crescimento de robôs industriais
O avanço dos humanoides ocorre em paralelo à expansão da robótica industrial tradicional. Dados preliminares da Federação Internacional de Robótica mostram que o número de instalações de robôs industriais nos Estados Unidos cresceu 11% em 2025, para 38 mil unidades.
O resultado representa uma recuperação significativa e foi impulsionado principalmente pelo setor de alimentos e por outras atividades não manufatureiras. A indústria automotiva continua sendo a maior usuária, com 13,5 mil instalações, apenas 1% abaixo do resultado do ano anterior.
“Os Estados Unidos estão de volta à trajetória de crescimento”, afirmou Takayuki Ito, presidente da Federação Internacional de Robótica.
A indústria de alimentos se destacou com alta de 30% na adoção de robôs. O setor passou a se aproximar, em número de instalações, das áreas de metal e máquinas e de elétrica e eletrônica, cada uma com aproximadamente 3 mil unidades instaladas em 2025.
O movimento mostra que a automação começa a se disseminar para além dos setores tradicionalmente associados à robótica. A flexibilidade proporcionada pela inteligência artificial é especialmente importante em atividades com maior variedade de produtos, ciclos de produção mais curtos e exigências sanitárias ou operacionais específicas.
Densidade robótica revela distância entre Estados Unidos e China
A densidade robótica dos Estados Unidos chegou a 307 robôs industriais em operação para cada 10 mil trabalhadores da indústria manufatureira. O país ocupa a oitava posição no ranking global, duas posições acima do ano anterior.
A liderança permanece com a Coreia do Sul, com 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores, seguida por Alemanha, com 449, e Japão, com 446. Os Estados Unidos aparecem à frente da China nesse indicador, que mede o grau de automação relativo ao tamanho da força de trabalho.
A comparação muda quando se observa o tamanho absoluto do mercado. A China instalou 295 mil robôs industriais em 2024, o equivalente a 54% das instalações globais. As estimativas da Federação Internacional de Robótica indicam que o volume chinês em 2025 foi aproximadamente dez vezes superior ao registrado nos Estados Unidos, embora os dados definitivos ainda não tenham sido publicados.
A diferença é resultado de uma política industrial coordenada. A estratégia nacional chinesa para a robótica foi lançada há uma década e passou a integrar o projeto de modernização produtiva do país. O 15º Plano Quinquenal, para o período de 2026 a 2030, coloca a robótica no centro do sistema industrial moderno e prevê direcionar a pesquisa em inteligência artificial para aplicações físicas.
China transforma robótica em política industrial
A estratégia chinesa combina incentivos públicos, pesquisa tecnológica, escala industrial e estímulo à demanda doméstica. Esse arranjo cria condições para que fabricantes desenvolvam componentes, coletem dados operacionais e reduzam custos por meio da produção em larga escala.
A ascensão da Unitree à bolsa de Xangai é um exemplo da convergência entre capital privado e prioridades nacionais. O mercado de capitais passa a financiar empresas que podem se tornar fornecedoras de uma infraestrutura tecnológica considerada estratégica para a produtividade e a competitividade industrial.
O avanço também aumenta a pressão sobre Estados Unidos, Europa e Japão. A disputa deixa de ser apenas pela liderança em inteligência artificial generativa e passa a envolver a capacidade de transformar algoritmos em máquinas capazes de atuar no mundo físico.
Estados Unidos discutem uma estratégia nacional
Nos Estados Unidos, a maior associação de automação da América do Norte, a A3, apresentou aos legisladores uma proposta de estratégia nacional para a robótica.
O plano defende a criação de um escritório federal dedicado ao tema e de uma comissão nacional responsável por coordenar políticas públicas, pesquisas e parcerias entre governo e empresas. Entre as medidas sugeridas estão:
- incentivos tributários orientados pelo mercado;
- ampliação de programas de requalificação profissional;
- atualização de normas de segurança;
- estímulo à pesquisa aplicada;
- exigência de aquisição de tecnologia robótica doméstica pelo governo federal.
A proposta reflete uma preocupação crescente com a competitividade industrial. A automação é vista como instrumento para trazer fábricas de volta aos Estados Unidos, reduzir a dependência de cadeias globais e compensar a falta de trabalhadores qualificados.
Escassez de mão de obra sustenta investimentos
O principal motor econômico da robótica não é apenas a busca por produtividade. Em diversos setores, as empresas enfrentam dificuldades estruturais para preencher vagas operacionais e técnicas.
Nesse contexto, a automação passa a ser tratada como uma forma de preservar a capacidade produtiva. O robô não substitui necessariamente um trabalhador disponível; em muitos casos, torna possível manter uma operação que não conseguiria contratar pessoas em número suficiente.
Essa dinâmica tende a favorecer investimentos em robótica nos próximos anos, sobretudo em países que adotam políticas de reindustrialização e retorno de fábricas. A Federação Internacional de Robótica projeta uma trajetória de crescimento de longo prazo para a automação na América do Norte.
A diversificação setorial será determinante. A indústria automotiva continuará relevante, mas alimentos, logística, eletrônicos, metalurgia e máquinas devem ampliar sua participação na demanda por robôs.
Investidores ainda precisam separar promessa de execução
Apesar do entusiasmo, o setor permanece sujeito a riscos tecnológicos e financeiros. A expectativa de um mercado de US$ 200 bilhões até 2035 depende de uma série de condições: queda significativa de preços, aumento da autonomia, segurança operacional, disponibilidade de componentes e demonstração de retorno sobre o investimento.
Também há desafios relacionados à integração dos robôs aos sistemas existentes. Uma máquina mais avançada não gera valor se não conseguir operar de forma coordenada com softwares industriais, redes de produção, equipamentos legados e protocolos de segurança.
Para os investidores, a diferença entre empresas vencedoras e perdedoras poderá estar menos na capacidade de apresentar protótipos e mais na habilidade de entregar robôs em escala, com manutenção previsível, software confiável e aplicações economicamente justificáveis.
A estreia da Unitree mostra que o mercado já está disposto a financiar essa visão. O desempenho operacional das companhias, entretanto, será o teste decisivo para confirmar se a robótica humanoide representa uma nova plataforma industrial ou apenas mais um ciclo de expectativas tecnológicas.
Uma mudança estrutural na indústria
A combinação entre robôs industriais, humanoides e inteligência artificial aponta para uma transformação gradual na organização da produção. A próxima geração de fábricas tende a ser mais automatizada, conectada e capaz de adaptar processos em tempo real.
O impacto não ficará restrito aos fabricantes de robôs. A cadeia inclui fornecedores de sensores, baterias, semicondutores, atuadores, softwares, serviços de integração e plataformas de inteligência artificial.
O avanço da robótica também poderá alterar a estrutura do mercado de trabalho. Funções repetitivas e fisicamente desgastantes tendem a ser as primeiras a sofrer pressão, enquanto cresce a demanda por profissionais capazes de instalar, supervisionar, treinar e manter sistemas automatizados.
A disputa tecnológica, portanto, não será definida apenas por quem produzirá o robô mais sofisticado. Vencerão os países e empresas que conseguirem combinar inovação, escala, qualificação profissional, segurança e aplicação comercial.
O IPO da Unitree e a retomada dos robôs industriais nos Estados Unidos são sinais de que essa transição já começou. A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta digital e passa a ganhar braços, pernas e presença física dentro da economia.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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