Caminhos para reformar o Estado brasileiro
Painel sobre o desenvolvimento do Brasil reuniu o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung e o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda
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O ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung falou sobre os caminhos para o desenvolvimento sustentável | Foto: Divulgação
O Brasil não sofre por falta de diagnósticos nem por ausência de exemplos de sucesso. O país já demonstrou inúmeras vezes capacidade de realizar reformas e construir setores competitivos. O principal desafio é criar condições políticas e institucionais para sustentar essas mudanças ao longo do tempo.
Essas foram algumas das conclusões do painel “Reformando o Brasil”, na J. Safra Investment Conference 2026, com a participação do ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung e do economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Enquanto Marcos Lisboa enfatizou a importância de instituições fortes, segurança jurídica, ciência e produtividade, Paulo Hartung destacou o papel da liderança política, da construção de maiorias e da mobilização da sociedade. Os dois concordaram que, sem uma agenda consistente de reforma do Estado e de modernização da economia, o Brasil continuará preso ao ciclo de avanços e retrocessos que marcou sua história recente.
Desafios para o desenvolvimento
O painel discutiu os principais desafios para o desenvolvimento do Brasil, com foco em qualidade das instituições, governança, responsabilidade fiscal, produtividade e liderança política. Marcos Lisboa e Paulo Hartung defenderam que o país já conhece muitos dos caminhos para avançar, mas enfrenta dificuldades para sustentar reformas ao longo do tempo, frequentemente alternando períodos de ajuste e desorganização.
Marcos Lisboa abriu o debate destacando que estudos econômicos das últimas décadas mostram que o desenvolvimento sustentável depende menos de políticas pontuais e mais da qualidade das instituições. Segundo ele, países que crescem de forma consistente possuem regras estáveis, respeito aos contratos, agências reguladoras independentes e equilíbrio entre os Poderes.
Paulo Hartung complementou afirmando que, no presidencialismo brasileiro, a governabilidade depende da construção de maioria política no Congresso. Para ele, quando o Executivo não consegue formar uma base sólida, outras instituições passam a ocupar espaços que não são originalmente seus.
Hartung relatou sua experiência à frente do Espírito Santo, que assumiu em um contexto de crise fiscal, institucional e de segurança pública. Segundo ele, a recuperação do estado foi possível por meio da combinação entre liderança política, construção de maioria legislativa, planejamento e mobilização da sociedade.
Marcos Lisboa utilizou o Espírito Santo como exemplo de que reformas difíceis são viáveis quando existe coordenação política e clareza de objetivos.
Dívida pública e o pós-eleições
Os participantes analisaram a deterioração fiscal recente e a trajetória crescente da dívida pública. Marcos Lisboa argumentou que as mudanças institucionais ocorridas nos últimos anos tornaram mais difícil controlar os gastos e estabilizar a dívida.
Hartung afirmou que, independentemente de quem vença as eleições, haverá a necessidade de enfrentar a agenda fiscal, pois o modelo atual não é sustentável no longo prazo.
Um dos temas centrais do painel foi a recorrência histórica do Brasil em avançar durante crises e retroceder após os períodos de recuperação.
Marcos Lisboa citou exemplos como reformas institucionais, legislação de crédito, Lei de Falências e marcos regulatórios que produziram avanços relevantes, mas que posteriormente foram enfraquecidos.
Hartung resumiu essa dinâmica afirmando que o país vive preso a um ciclo repetitivo de crise, reforma, melhora e nova deterioração.
Crescimento sustentável e capital humano
Grande parte da conversa foi dedicada ao tema produtividade. Marcos Lisboa argumentou que o crescimento econômico sustentável depende da criação de um ambiente favorável à inovação, competição e empreendedorismo. Ele criticou políticas de proteção excessiva a setores específicos e o uso recorrente de subsídios para empresas pouco competitivas.
Hartung concordou e destacou que produtividade está diretamente ligada à qualidade do capital humano, da gestão e da capacidade de inovação.
Ambos defenderam que o país deveria aprender mais com suas próprias experiências bem-sucedidas. Paulo Hartung citou os exemplos do Pré-sal e exploração de petróleo em águas profundas, Embraer, WEG e o setor florestal, além do agronegócio. Marcos Lisboa citou a Embrapa, crédito consignado, alienação fiduciária, as reformas da década de 1990 e os avanços institucionais do período pós-crise fiscal.
Valorização da ciência e empreendedorismo
A conclusão foi a de que o Brasil já demonstrou capacidade de criar setores altamente competitivos e que os casos de sucesso tiveram em comum ciência, inovação, empreendedorismo e ambiente institucional adequado.
Para que o país saia de uma economia de crescimento medíocre, o diagnóstico é claro: o sucesso depende intrinsecamente da união entre ciência aplicada e empreendedorismo privado.
Hartung argumentou que o Brasil conseguiu ampliar o acesso à educação nas últimas décadas, mas que o próximo desafio é melhorar a qualidade do ensino. Segundo ele, o avanço da produtividade brasileira depende diretamente da formação de capital humano e da melhoria da aprendizagem.
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