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Raízen: recuperação extrajudicial e dívida de R$ 65 bi afetam crédito privado

Raízen protocolou pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 65 bilhões em dívida financeira, em um movimento que afeta o mercado de crédito privado e investidores em renda fixa

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Raizen RAIZ4

Reestruturação de dívida da gigante de etanol causa impacto no mercado de crédito privado | Foto: Divulgação

A Raízen (RAIZ4) protocolou em 11 de março de 2026 o pedido de recuperação extrajudicial (RE) na Justiça, envolvendo nove empresas do grupo. A decisão foi aprovada de forma unânime pelo conselho de administração e tem como objetivo reestruturar integralmente os créditos financeiros quirografários, que somam R$ 65,14 bilhões. Obrigações com clientes, fornecedores, revendedores e parceiros comerciais ficam fora do processo.

A escolha pela recuperação extrajudicial sinaliza ao mercado uma renegociação considerada ordenada. Diferentemente da recuperação judicial tradicional, o modelo preserva a gestão nas mãos da administração, dispensa a nomeação de administrador judicial e mantém credores operacionais fora da reestruturação. Para investidores em crédito privado e renda fixa, o movimento reduz o risco de disrupção operacional e aumenta a previsibilidade do processo.

Adesão inicial supera exigência legal e define próximos prazos

O pedido foi protocolado com adesão inicial de cerca de 47% dos créditos financeiros, equivalente a aproximadamente R$ 30,8 bilhões, acima do mínimo legal de um terço. Para a homologação definitiva, a companhia precisará alcançar aprovação da maioria absoluta dos créditos — mais de 50% — no prazo de 90 dias contados a partir do protocolo.

O valor atribuído à causa é de R$ 98,6 bilhões, que inclui, além dos créditos perante terceiros, R$ 33,5 bilhões em obrigações intercompany. Esses valores também serão reestruturados, mas não entram no cálculo do quórum legal. A expectativa é que a Justiça homologue o pedido inicial nos próximos dias, abrindo formalmente a fase de negociação.

Stay period suspende execuções e protege caixa

No protocolo, a Raízen solicitou o chamado stay period, mecanismo previsto na Lei de Recuperação e Falências, que suspende por até 180 dias ações judiciais, execuções, vencimentos antecipados e pagamentos de principal e juros das dívidas incluídas no plano. A medida evita bloqueios bancários e a apropriação de até R$ 8,3 bilhões mantidos em contas das empresas do grupo. Ficam de fora obrigações ligadas a câmaras de compensação e operações de derivativos.

Possíveis medidas de reestruturação e impacto para investidores

Segundo fato relevante divulgado pela companhia, o plano definitivo ainda será detalhado e pode incluir uma combinação de capitalização pelos acionistas, conversão de parte da dívida em participação acionária, troca de créditos por novos instrumentos de dívida, reorganizações societárias e venda de ativos. Para investidores, essas alternativas indicam potencial diluição, extensão de prazos e mudanças no perfil de risco dos papéis.

Diagnóstico da crise e deterioração do crédito

O pedido ocorre após a empresa atingir o maior nível histórico de alavancagem, de 5,3 vezes a relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado. Entre os fatores estão um ciclo de expansão financiado por dívida, a deterioração do cenário macroeconômico com juros elevados por período prolongado, quebra de safra e pressão sobre margens no setor sucroenergético, além de volatilidade na Argentina.

A deterioração culminou em rebaixamentos sucessivos de rating para o nível especulativo, forte queda nos bonds e desvalorização das ações, que passaram a negociar como penny stock. Nesse contexto, a recuperação extrajudicial é vista como uma alternativa menos disruptiva para preservar valor e reorganizar o passivo financeiro.

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