close

Entenda o estresse financeiro da Raízen e a desvalorização de RAIZ4

Maior produtora de etanol do Brasil, Raízen foi rebaixada pelas agências de rating de crédito Fitch, S&P e Moody’s; confira a análise dos especialistas do Banco Safra

3 minutos
Raízen Raiz4

Venda de ativos tem potencial de adicionar até R$ 15 bilhões ao caixa, considerando as vendas já feitas de R$ 4,3 bilhões mais operação Argentina, trazendo fôlego para a Raízen | Foto: divulgação

Os títulos de crédito da Raízen (RAIZ4), maior fabricante de etanol do Brasil, sofreram forte desvalorização nos últimos dias, acompanhando notícias sobre possíveis ações de reestruturação da dívida da companhia.

A empresa confirmou a contratação de assessores para auxiliar em medidas estratégicas para aliviar a pressão da dívida. Na sequência, veio o rebaixamento de rating de crédito da companhia pelas agências Fitch, S&P e Moody’s, citando piora nas métricas de crédito e baixo suporte dos acionistas.

Qual a situação da Raízen (RAIZ4)?

A deterioração do perfil de crédito da Raízen ao longo de 2025–26 decorre de uma combinação de não entrega de desalavancagem, queima de caixa sequencial e piora nas margens do segmento açúcar e etanol, criando um descompasso entre uma recuperação almejada pela companhia e o que de fato aconteceu.

Embora a companhia mantenha um volume de liquidez relevante – R$18,6 bilhões em caixa e R$ 5,3 bilhões em linhas rotativas – essa posição funciona mais como um amortecedor temporário de curto prazo do que como um indicativo de melhora estrutural, dado que a operação segue consumindo caixa.

A Raízen tem um EBITDA anual de R$10,8 bilhões (-3% t/t), com margem de 4,2%. O resultado líquido nos últimos 12 meses ficou negativo em R$ 9,3 bilhões, com queima de caixa de R$ 10,6 bilhões.

Os impactados negativos vieram de uma combinação de menor rentabilidade na produção e queda nos volumes vendidos de etanol e açúcar, resultado financeiro negativo elevado – pressionado pelo custo e montante da dívida – e sazonalidade do
capital de giro com formação de estoques, o que reforçou a fragilidade da geração de caixa recorrente e acentuou os efeitos da alavancagem elevada – em 5,1x Dívida Líquida/EBITDA.

Os analistas do Banco Safra não esperam recuperação rápida nas margens, dado que o preço do açúcar está abaixo da média dos últimos dois anos e com tendência de queda; já o preço do etanol pode reduzir devido à queda no preço da gasolina.

Sintetizando, apesar da forte posição de caixa, situação da Raízen combina estrutura de capital alavancada, operacional pressionado no segmento açúcar e etanol e geração operacional de caixa insuficiente para arcar com o serviço da dívida e capex.

O Banco Safra estima que a venda de ativos tem potencial de adicionar até R$ 15 bilhões, considerando as vendas já feitas de R$ 4,3 bilhões mais operação Argentina, trazendo fôlego para a Raízen.

O Safra ressalta, no entanto, que não há confirmação de novas vendas ou aportes dos acionistas.

Fatores mitigantes da situação da RAIZ4

Os analistas do Banco Safra reforçam os fatores que suportam a operação no curto prazo: posição robusta de caixa, suficiente para cobrir amortização e juros no curto prazo, mais a entrada de R$ 4 bilhões em desinvestimentos; forte presença nos mercados de açúcar e etanol, garantindo escala operacional; e medidas já tomadas para alongamento do cronograma da
dívida, reduzindo pressão de amortização sobre o caixa.

Reação do mercado

No mercado de renda, os preços de alguns bonds (títulos de dívida) que negociavam acima de 80 centavos por dólar foram para cerca de 45 centavos, uma queda de quase 50% em uma semana. Isso elevou os yields (rendimentos) para patamares altíssimos (~18% ao ano), típicos de empresas em forte estresse financeiro.

Nas ações, a RAIZ4 chegou a operar abaixo de R$ 0,80, negociando na casa de R$ 0,77-0,85 em meio à turbulência. A empresa já é considerada uma penny stock pela B3 há meses.

Avaliação das agências de rating

As avaliações das agências Fitch, Moody’s e S&P convergem para um diagnóstico de estresse estrutural no crédito ressaltando a queima contínua de caixa, a ausência das entradas financeiras prometidas e um ônus de juros elevado (~R$ 9,5 bilhões) que continuará drenando liquidez.

Além disso, apontam um muro de vencimentos de cerca de R$ 10,5 bilhões nos próximos 18 meses, num contexto em que a geração operacional não cobre o serviço da dívida.

Abra sua conta