Raízen (RAIZ4) mostra resultados de reestruturação, mas dívida ainda preocupa
Banco Safra reforça recomendação de compra para a ação da Raízen (RAIZ4) com novo preço-alvo que aponta potencial de valorização de 49%
24/10/2025 4 minutos
O Banco Safra avalia que a Raízen esteja no caminho certo para atingir sua meta de eficiência | Foto: Getty Images
O Banco Safra estableceu um novo preço-alvo de R$ 1,40 por ação da Raízen (RAIZ4) no prazo de 12 meses. O preço anterior era de R$ 2,90 por ação.
O novo preço-alvo implica potencial de valorização de 49% da RAIZ4, e o Safra mantém a recomendação de Compra para o papel. O preço-alvo revisado reflete principalmente mudanças nas premissas sobre capacidade de moagem, margens no segmento de distribuição de combustíveis e investimentos.
Embora a Raízen tenha progredido em sua recuperação e pareça ter aprendido lições valiosas sobre disciplina na alocação de capital, o Safra destaca que preocupações permanecem, como a potencial diluição em caso de aumento de capital, pressão contínua da queda dos preços do açúcar e maior oferta de etanol devido ao etanol de milho.
Avaliação e projeções sobre a Raízen (RAIZ4)
O preço-alvo de R$ 1,40 por ação em 12 meses deriva de uma avaliação do fluxo de caixa descontado, com custo médio ponderado de capital de 11,8%, com base em um Ke de 16% e taxas de crescimento terminal (g) em termos nominais de 3% para distribuição de combustíveis e 5% para o segmento de etanol, açúcar e bioenergia.
O Safra estima que as ações sejam negociadas a 4,2x VF/EBITDA futuro – ligeiramente abaixo de sua média de 3 anos de 4,5x. Com base nas novas premissas operacionais, a Raízen deve apresentar EBITDA ajustado de BRL 12,163bi no ano-safra 2025/26, 16% abaixo da projeção anterior, e queima de caixa de BRL 2,797bi, equivalente a um rendimento de -29%.
Lição de casa está sendo feita pela Raízen
O Banco Safra avalia que a Raízen esteja no caminho certo para atingir sua meta de eficiência de R$ 500 milhões, principalmente por meio da redução das despesas com vendas, gerais e administrativas como parte de sua estratégia de reestruturação.
Esses ganhos decorrem da simplificação corporativa e da reciclagem do portfólio, visando uma estrutura mais sinérgica e menos intensiva em investimentos.
No 1T26, a companhia já reduziu as despesas consolidadas com vendas, gerais e administrativas em comparação aos trimestres anteriores. Em relação à reciclagem do portfólio, os desinvestimentos feitos desde o ano passado totalizaram cerca de R$ 4,3 bilhões, o que deve ajudar a reduzir a queima de caixa neste ano, com novas oportunidades pela frente.
Na unidade de Etanol, Açúcar e Bioenergia, as vendas potenciais incluem usinas de cana-de-açúcar menos eficientes que demandam alto investimento – de três a cinco das 25 usinas poderiam ser vendidas, na avaliação do Safra.
A operação argentina também permanece candidata a desinvestimento, embora o momento permaneça incerto. Solução pela diluição. Embora a Raízen esteja comprometida em reduzir a alavancagem, atingir uma desalavancagem orgânica significativa no curto prazo continua sendo um desafio.
A dívida líquida (ex IFRS 16) chegou a R$ 49,2 bilhões no 1T26, e os elevados investimentos e despesas financeiras continuam restringindo a geração de caixa.
Um aumento de capital seria a alternativa mais óbvia para acelerar a desalavancagem, embora as estimativas do Safra não incluam esse cenário. No entanto, o banco realiza uma análise de sensibilidade para avaliar seu impacto potencial no preço-alvo, na alavancagem e na diluição acionária.
O preço baixo das ações atualmente representa um risco de diluição não desprezível.
Riscos da tese de investimento
Os principais riscos para tese incluem: (i) diluição dos acionistas atuais; (ii) condições climáticas desfavoráveis; (iii) preços de commodities; (iv) descolamento dos preços domésticos de combustíveis das referências internacionais; (v) desalavancagem mais lenta do que o esperado; e (vi) redução nos impostos de importação.
O caminho para o alto endividamento
Um intenso programa de investimentos, aliado ao aumento das taxas de juros – de 10,5% em junho de 2024 para 15,0% em agosto de 2025 –,foi o principal impulsionador do forte crescimento do endividamento.
Os altos investimentos, principalmente relacionados a projetos de expansão, como a construção da usina de etanol de segunda geração e investimentos para restaurar a produtividade dos canaviais, além de uma estrutura corporativa complexa e da ausência de sinergia entre ativos não essenciais, restringiram significativamente a geração de caixa, levando a dívida para níveis elevados.
Consequentemente, a dívida líquida saltou de BRL 13,8bi no f im do ano-safra 2021/22 para BRL 49,2bi no 1T26. Do lado positivo, a Raízen não tem grandes volumes de dívida com vencimento no curto prazo e não possui cláusulas financeiras restritivas (covenants). No entanto, o alto endividamento limitou severamente a geração de caixa: no último ano-safra, as despesas com juros somaram BRL 3,2bi e os desembolsos de investimentos, BRL 11,5bi, em comparação a um EBITDA de BRL 10,8bi no período.
A redução da dívida depende de venda de ativos e injeção de capital
O Banco Safra reconhece o senso de urgência da Raízen em resolver seu alto endividamento. No entanto, uma redução significativa da dívida por meio da geração orgânica de caixa parece inviável no curto prazo. Desinvestimentos adicionais de ativos e um potencial aumento de capital parecem cada vez mais prováveis. Com base nas premissas operacionais revisadas e considerando os recursos provenientes da venda de ativos, o Safra espera que a Raízen continue queimando caixa no próximo ano (BRL 1,515bi), e a dívida líquida (ex IFRS16) deve atingir cerca de R$ 47,4 bilhões.
Aumento de capital: alto risco de diluição, mas com alívio no fluxo de caixa
Devido ao preço deprimido das ações– que recentemente atingiram a mínima de R$ 0,84/ação – um aumento de capital representaria um risco de diluição significativo para os atuais acionistas, considerando o valor de mercado da companhia de R$ 9,7bi e a dívida líquida (ex IFRS16) de R$ 49,2bi.
O Safra acredita que uma potencial injeção de capital poderia proporcionar o alívio tão necessário em um momento de taxas de juros elevadas, o que poderia restaurar a capacidade da Raízen de gerar fluxos de caixa positivos e avançar organicamente no processo de desalavancagem.
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