Produção de veículos cresce, mas caminhões e exportações impõe cautela
Cenário do setor automotivo favorece Iochpe-Maxion e Marcopolo, mas mantém viés negativo para a Randoncorp, segundo a análise dos especialistas do Banco Safra
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Levantamento da Anfavea indica produção de 245 mil veículos em abril de 2026, com alta anual puxada por automóveis de passeio, enquanto caminhões e exportações ainda refletem demanda mais fraca, sobretudo na Argentina | Foto: Getty Images
A produção de veículos no Brasil somou 245 mil unidades em abril, alta de 5,4% em relação ao mesmo mês de 2025, mas queda de 7% frente a março, segundo dados divulgados pela Anfavea.
O resultado confirma uma leitura mista para a indústria automotiva: há expansão na comparação anual, mas com perda de fôlego na margem e desempenho desigual entre os segmentos.
O principal vetor positivo veio dos automóveis de passeio, cuja produção atingiu 190 mil unidades, avanço de 9,4% em 12 meses. O segmento de ônibus também mostrou resiliência, com 3,04 mil unidades produzidas, alta de 5,9% na mesma base de comparação.
Em sentido oposto, a produção de comerciais leves recuou 5,6% na comparação anual, para 42,8 mil unidades, enquanto caminhões registraram queda de 12,2%, para 9,7 mil unidades.
O dado reforça que a recuperação da cadeia automotiva permanece concentrada em veículos leves, com o segmento pesado ainda pressionado por uma demanda mais fraca.
Licenciamento segue forte, mas composição da oferta preocupa
Os licenciamentos totalizaram 248 mil unidades em abril, com expansão de 19% na comparação anual, embora tenham recuado 7,8% ante março. O número sugere que a demanda doméstica continua relativamente sustentada, em especial em veículos leves.
Nos automóveis de passeio, os emplacamentos cresceram 23% em relação a abril de 2025, para 187 mil unidades. Já os comerciais leves avançaram 11,9%, para 50 mil unidades. No entanto, os números de pesados seguem mais fracos: os licenciamentos de caminhões caíram 5,8% e os de ônibus recuaram 6,9%.
Programa Move Brasil ainda não reverte fraqueza em caminhões
Durante a teleconferência, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, afirmou que o Move Brasil ajudou a atenuar a queda dos registros de caminhões, mas ainda não foi suficiente para reverter a tendência negativa do segmento. A expectativa da entidade é que a segunda fase do programa ofereça suporte adicional à demanda ao longo do ano.
A leitura, porém, é de defasagem. Segundo a associação, existe um intervalo de até oito semanas entre a aprovação do crédito e o registro formal do veículo. Na prática, isso significa que eventual melhora provocada pelo programa deve aparecer de forma mais clara apenas nos próximos meses.
Exportações perdem força e Argentina volta ao centro do risco
Se a demanda doméstica ainda oferece algum suporte, o setor enfrenta deterioração mais visível no mercado externo. As exportações totais caíram 11,7% em abril, para 43 mil unidades, e acumulam baixa de 16,5% no ano.
A principal explicação está na perda de tração das vendas para a Argentina, destino relevante para a indústria automotiva brasileira. No acumulado de 2026 até abril, os embarques para o país vizinho tombaram 30%, segundo a Anfavea. Também houve enfraquecimento nas remessas ao Uruguai.
Mais do que uma oscilação conjuntural de demanda, a entidade apontou que os veículos brasileiros começam a perder participação de mercado na Argentina, sinal de que o ambiente externo pode seguir desafiador nos próximos trimestres. Para empresas mais expostas a mercados internacionais, essa inflexão eleva o risco sobre volumes e margens.
Veículos elétricos ganham espaço e ampliam oportunidades locais
Outro destaque do mês foi o avanço dos veículos eletrificados, cuja participação nas vendas atingiu 18,3%, ante 10,1% em abril de 2025. Desse total, 40% foram produzidos no Brasil, acima dos 25% registrados um ano antes.
Produção local de elétricos pode beneficiar fornecedores
O aumento da produção doméstica de elétricos, inclusive sob arranjos SKD/CKD, abre espaço para fornecedores locais de componentes. Nessa leitura, a tendência pode criar oportunidades adicionais para a cadeia de autopeças, especialmente em itens com maior conteúdo local, como rodas e componentes metálicos.
Para o mercado acionário, esse movimento ajuda a sustentar uma visão mais construtiva para companhias expostas a veículos leves e à nacionalização gradual da produção.
Leitura para as ações: Iochpe e Marcopolo se destacam, Randoncorp segue pressionada
A interpretação do relatório é ligeiramente positiva para Marcopolo e Iochpe-Maxion e negativa para a Randoncorp.
No caso da Marcopolo, a alta de 5,9% na produção de ônibus em abril reforça uma dinâmica doméstica ainda favorável. Em contrapartida, a queda de 25,3% nas exportações de ônibus sugere enfraquecimento da demanda internacional, especialmente na Argentina. Isso pode indicar, no segundo trimestre, um mercado interno relativamente mais forte do que o externo.
Para a Randoncorp, a leitura segue mais desafiadora. A retração de 12,2% na produção de caminhões em abril e a queda de 17,2% no acumulado do ano evidenciam um ambiente ainda fraco para o transporte pesado. Embora o Move Brasil possa mitigar parte dessa contração à frente, os sinais de inflexão ainda são incipientes.
Já a Iochpe-Maxion encontra suporte no desempenho de veículos leves. A alta de 9,4% na produção de automóveis de passeio tende a compensar, ao menos em parte, a continuidade da fraqueza em pesados. Além disso, o avanço da produção local de veículos eletrificados pode abrir novas avenidas de fornecimento à indústria.
Recomendações e preços-alvo monitorados pelo mercado
| Empresa | Ticker | Recomendação | Preço atual | Preço-alvo | Potencial de alta |
|---|---|---|---|---|---|
| Marcopolo | POMO4 | Outperform | R$ 6,44 | R$ 9,10 | 41% |
| Randoncorp | RAPT4 | Outperform | R$ 5,45 | R$ 9,00 | 65% |
| Iochpe-Maxion | MYPK3 | Neutral | R$ 9,74 | R$ 12,50 | 28% |
Embora o viés tático para Randoncorp seja mais negativo diante dos dados operacionais de abril, o preço-alvo ainda embute potencial de valorização relevante, o que indica uma visão de médio prazo mais favorável do que a fotografia corrente do setor de caminhões.
Guidance de 2026 segue factível, mas com execução desigual
A projeção da Anfavea para 2026 aponta:
- Licenciamentos: 2,762 milhões de unidades, alta de 2,7%
- Exportações: 536 mil unidades, avanço de 1,3%
- Produção: 2,741 milhões de unidades, crescimento de 3,7%
No acumulado até abril, o setor já atingiu cerca de 32% a 33% das metas anuais de produção, licenciamento e segmentos leves, o que sugere trajetória compatível com o guidance. O problema está na composição: os números de leves sustentam a execução, enquanto os pesados e as exportações ainda exigem recuperação mais consistente para que a meta se confirme com maior conforto.
O que o mercado deve acompanhar daqui para frente
Os próximos meses devem ser decisivos para testar três vetores centrais da tese setorial:
- Materialização do efeito do Move Brasil sobre caminhões, após a defasagem entre crédito e emplacamento;
- Evolução da demanda argentina, crucial para o desempenho das exportações brasileiras;
- Continuidade da nacionalização dos veículos eletrificados, com impactos sobre a cadeia local de autopeças.
Em resumo, abril trouxe um quadro melhor para a indústria de leves do que para a de pesados. Para investidores, isso reforça uma seleção mais criteriosa dentro do setor, privilegiando empresas com maior exposição a automóveis de passeio, ônibus domésticos e fornecedores capazes de capturar o avanço da eletrificação local.
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