Setor imobiliário testa fôlego: Cyrela se destaca e Even inspira cautela
Prévias operacionais do 1T26 indicam resiliência da Cyrela no MCMV e desempenho mais fraco da Even, em cenário mais desafiador para ações das construtoras
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Em um trimestre sazonalmente mais fraco, prévias operacionais indicam demanda ainda sólida em segmentos ligados ao MCMV, mas revelam maior seletividade nas vendas de média e alta renda e menor apetite para lançamentos | Foto: Getty Images
A análise das prévias operacionais das construtoras brasileiras expõe a força seletiva nas vendas e cautela nos lançamentos. Segundo os especialistas do Banco Safra, a análise setorial mostra desempenho resiliente da Cyrela (CYRE3) no segmento de baixa renda, enquanto a Even (EVEN3) segue pressionada por ausência de lançamentos e giro mais lento de estoque no 1T26.
No primeiro trimestre de 2026, a Cyrela mostrou resiliência operacional, ainda que com lançamentos abaixo do esperado, enquanto a Even voltou a apresentar desempenho mais contido, refletindo a ausência de novos projetos e o giro mais fraco de estoque.
A leitura do Safra é de que o setor segue exigindo seletividade, com vantagem para companhias mais expostas à baixa renda e com valuation ainda descontado.
Cyrela entrega vendas resilientes, mas lança menos
A Cyrela apresentou resultados operacionais considerados razoáveis no primeiro trimestre de 2026, embora ligeiramente abaixo das estimativas dos analistas do Banco Safra. O principal ponto de atenção esteve na atividade de lançamentos, que ficou aquém do esperado, mas foi parcialmente compensada por uma boa velocidade de vendas dos novos projetos e por desempenho resiliente do estoque.
No período, a companhia lançou 12 empreendimentos, que somaram R$ 1,7 bilhão em PSV líquido, com queda de 47% na comparação trimestral e de 48% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume também ficou 20% abaixo da estimativa do Safra. Ainda assim, os lançamentos exibiram SoS de 45%, alta de 9 pontos porcentuais frente ao trimestre anterior e de 14 pontos ante um ano antes, sinalizando boa absorção da oferta nova.
As vendas líquidas totalizaram R$ 2,16 bilhões, recuo de 9% ante o 4T25 e avanço de 2% na comparação anual, em número 3% abaixo da projeção do banco. O desempenho foi sustentado por um crescimento de 17% trimestral e 28% anual nas vendas de estoque.
Baixa renda volta a se destacar
Na leitura segmentada, o braço de baixa renda permaneceu como principal vetor de desempenho da Cyrela. A velocidade de vendas desse segmento atingiu 28%, praticamente estável na base anual, com recuo de apenas 1 ponto porcentual.
Em contrapartida, houve desaceleração mais visível nos segmentos de média renda e alta renda. No primeiro, a velocidade de vendas caiu para 13,5%, com retração de 7,6 pontos porcentuais em relação ao mesmo período do ano anterior. Já nos projetos de alta renda, o indicador ficou em 11,5%, queda de 2,6 pontos.
O resultado consolidado foi um SoS trimestral de 15,7%, ligeiramente abaixo da estimativa do Safra, com recuo de 0,7 ponto porcentual frente ao trimestre anterior e de 2,8 pontos em base anual. O SoS de estoque ficou em 11,5%, refletindo patamar mais elevado de unidades disponíveis para venda.
Estoque mais saudável ameniza leitura mais cautelosa
Na avaliação do Safra, a Cyrela entregou um trimestre compatível com a sazonalidade mais fraca do período. Um dos sinais construtivos foi a melhora no nível de estoque, que atingiu 15 meses de vendas, ante 16 meses no 4T25, em grande parte beneficiado pelo desempenho do segmento atrelado ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Ainda assim, a combinação entre menor atividade de lançamentos e ritmo mais fraco de vendas em média e alta renda tende a limitar uma leitura mais positiva no curto prazo. Para o banco, esse quadro pode pesar sobre o sentimento do mercado, embora não comprometa a tese estrutural da companhia.
Recomendação segue positiva
O Safra mantém recomendação de Compra para CYRE3, apoiada na maior exposição ao MCMV e em uma avaliação considerada atrativa, de 6,0 vezes preço/lucro estimado para o fim de 2026. Em outras palavras, a leitura é de que, apesar de uma prévia sem brilho, a ação ainda oferece uma relação risco-retorno favorável.
Even tem trimestre fraco e reforça cautela em cenário mais difícil
A Even, por sua vez, reportou resultados operacionais mais fracos no primeiro trimestre, em linha com as estimativas do Safra. A ausência de lançamentos no período e o menor ritmo de vendas de estoque levaram a uma dinâmica operacional mais modesta, em um momento em que o ambiente macroeconômico segue mais desafiador para o setor.
Sem novos projetos desde o lançamento do empreendimento São Paulo Bay, no segundo semestre de 2025, a companhia encerrou o trimestre sem lançamentos. Com isso, as vendas líquidas somaram R$ 252 milhões, com queda de 52% na comparação trimestral e alta de 2% em relação ao primeiro trimestre de 2025. O número ficou 3% abaixo da estimativa do Safra.
O SoS de estoque foi de 7,2%, com recuo de 5,5 pontos porcentuais frente ao trimestre anterior e de 1,5 ponto na comparação anual. O indicador consolidado também ficou em 7,2%, praticamente em linha com a projeção do banco.
Estoque das construtoras continua elevado
Se, por um lado, a falta de lançamentos contribuiu para uma leve melhora na posição de estoque, por outro ela reforça a leitura de menor dinamismo comercial. O estoque da Even caiu para 19 meses de vendas, ante 20 meses no 4T25, mas ainda segue como o mais elevado entre as companhias sob cobertura do Safra.
Pressão sobre lançamentos futuros
Na prática, isso significa que a companhia entra nos próximos trimestres com menor flexibilidade operacional. Em um contexto de juros ainda restritivos e demanda mais seletiva, um volume elevado de estoque pode dificultar novos lançamentos e pressionar a evolução dos resultados.
Por essa razão, o Safra reforça sua recomendação Neutra para a ação, diante de uma combinação de giro mais lento, ausência de gatilhos de curto prazo e menor visibilidade operacional.
O que as prévias dizem sobre o setor
As prévias operacionais de Cyrela e Even sugerem um setor ainda funcional, mas com desempenho cada vez mais heterogêneo entre segmentos e companhias. A demanda segue mais resiliente onde há maior aderência ao MCMV e aos produtos de entrada, enquanto os nichos de média e alta renda mostram desaceleração mais evidente.
Ao mesmo tempo, a disciplina em lançamentos parece ganhar relevância em um ambiente macroeconômico menos benigno. Para o investidor, isso reforça a necessidade de distinguir empresas com melhor capacidade de execução, estoque mais equilibrado e exposição a faixas de demanda estruturalmente mais robustas.
Conclusão
No primeiro trimestre de 2026, a Cyrela mostrou resiliência operacional, ainda que com lançamentos abaixo do esperado, enquanto a Even voltou a apresentar desempenho mais contido, refletindo a ausência de novos projetos e o giro mais fraco de estoque. A leitura do Safra é de que o setor segue exigindo seletividade, com vantagem para companhias mais expostas à baixa renda e com valuation ainda descontado.
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