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PIB mostra resiliência da demanda, mas não muda cenário de desaceleração

PIB revela demanda doméstica acima do previsto, em contraste com a contribuição negativa do setor externo e sob a sombra de uma política monetária ainda restritiva

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A economia brasileira avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026, com recuperação do investimento e consumo das famílias resiliente, embora exportações tenham recuado e importações acelerado no período Foto: Getty Images

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 ante o trimestre anterior, com ajuste sazonal, em linha com a projeção do Banco Safra e ligeiramente acima do consenso de mercado, de 1,0%. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a atividade avançou 1,8%, também dentro das expectativas.

Embora o dado cheio tenha confirmado o cenário já esperado para a abertura do ano, a leitura qualitativa do resultado foi mais relevante para o mercado.

O principal destaque esteve na demanda doméstica, que mostrou desempenho mais robusto do que o antecipado, indicando uma economia ainda sustentada por vetores de consumo e investimento, mesmo em ambiente de juros elevados.

A avaliação do Safra, contudo, permanece cautelosa. Para os economistas do banco, o resultado do trimestre não elimina a expectativa de arrefecimento da atividade ao longo dos próximos meses, à medida que os efeitos defasados da política monetária contracionista continuem pressionando crédito, renda disponível e custos financeiros.

Demanda doméstica lidera o avanço da atividade

Sob a ótica da demanda, os três principais componentes internos apresentaram surpresa positiva no trimestre. A absorção doméstica cresceu 1,3%, após três trimestres de relativa estagnação, sugerindo retomada mais disseminada do dinamismo interno.

Consumo das famílias ganha apoio de renda e medidas tributárias

O consumo das famílias avançou 1,0% no trimestre, beneficiado por fatores que reforçaram a renda disponível, como o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física e a elevação do salário mínimo. Em um contexto de mercado de trabalho ainda resiliente, esses estímulos ajudaram a sustentar a demanda, apesar das condições monetárias restritivas.

Também o consumo do governo veio acima do esperado, reforçando o impulso doméstico no período, ainda que com peso menor que o do consumo privado na estrutura do PIB.

Investimento reage, mas com efeito pontual relevante

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresceu 3,5% no trimestre, após três períodos de fraqueza. O número sinaliza melhora do investimento, mas sua leitura requer cautela. Parte relevante da alta foi explicada pela importação de uma plataforma de petróleo, fator que inflou o dado do trimestre e reduz a interpretação de uma retomada estrutural mais ampla do ciclo de investimento.

Ainda assim, o resultado sugere que, ao menos no início de 2026, houve algum alívio na fraqueza observada anteriormente na formação de capital.

Setor externo pesa contra o crescimento

Se a demanda doméstica foi o principal vetor de sustentação do PIB, o setor externo operou na direção oposta. A contribuição líquida foi mais negativa do que o previsto, refletindo a combinação de forte alta das importações, de 4,4%, com queda de 1,7% das exportações no trimestre.

Esse movimento tende a ser acompanhado de perto pelo mercado por duas razões. Primeiro, porque reforça a percepção de que o crescimento no início do ano esteve concentrado no mercado interno. Segundo, porque a perda de fôlego das exportações, combinada à expansão das compras externas, reduz a qualidade do crescimento do ponto de vista das contas externas.

Indústria compensa agropecuária mais fraca

Pela ótica da oferta, a abertura setorial também trouxe sinais mistos. A agropecuária cresceu 2,0%, abaixo do esperado, frustrando parte das expectativas de contribuição mais intensa do setor no trimestre.

Em contrapartida, a indústria avançou 1,0%, superando as estimativas e compensando a decepção vinda do campo.

Extrativa e construção civil se destacam

Dentro da indústria, o melhor desempenho veio da extrativa mineral, com alta de 3,6%, e da construção civil, que cresceu 2,9%. Ambos os segmentos ajudaram a sustentar o resultado agregado da produção.

A construção, em especial, chama atenção por reagir após um histórico recente mais volátil, ainda que siga exposta ao encarecimento do crédito e ao custo de capital elevado.

Transformação segue como elo frágil da produção

A indústria de transformação voltou a mostrar fraqueza relativa. O segmento cresceu apenas 0,1%, após recuo de 0,6% no trimestre anterior. O dado sugere recuperação marginal, mas ainda insuficiente para caracterizar uma inflexão mais consistente do setor manufatureiro.

Do ponto de vista macroeconômico, esse comportamento reforça a leitura de que a atividade industrial segue heterogênea, com melhor desempenho dos segmentos ligados a commodities e infraestrutura do que dos ramos mais sensíveis ao crédito e à demanda cíclica.

Serviços mantêm expansão moderada

O setor de serviços, que responde pela maior fatia do PIB, cresceu 0,5% no trimestre, em linha com o esperado. O número confirma expansão moderada, sem aceleração relevante.

O principal destaque positivo veio dos serviços de informação, com alta de 2,4%, refletindo resiliência em segmentos de maior intensidade tecnológica e digital. Na ponta negativa, transportes, armazenagem e correio recuaram 0,7%, sendo o principal fator de fraqueza entre as atividades de serviços.

A composição reforça a percepção de desempenho setorial desigual, com nichos mais modernos e menos dependentes do ciclo tradicional da economia mostrando mais tração do que áreas ligadas à circulação física de bens.

Leitura para o mercado: dado forte no curto prazo, mas sem mudança de tendência

Para investidores e agentes de mercado, o resultado do PIB do primeiro trimestre traz uma mensagem dupla. De um lado, mostra que a economia brasileira entrou em 2026 com mais resistência do que o esperado, especialmente no mercado doméstico. De outro, não invalida o cenário-base de desaceleração ao longo do ano.

Essa interpretação decorre do fato de que parte da surpresa positiva teve componentes pontuais, enquanto os elementos estruturais que limitam a expansão seguem presentes. Entre eles estão a política monetária em terreno contracionista, a restrição das condições de crédito, o elevado endividamento e a maior pressão de custos para famílias e empresas.

Safra mantém expectativa de perda de fôlego no 2T26

Segundo a avaliação do Banco Safra, os indicadores mais recentes já apontam para uma desaceleração da atividade no segundo trimestre de 2026. A instituição entende que os efeitos dos juros elevados devem se intensificar adiante, reduzindo gradualmente o ímpeto observado na abertura do ano.

Nesse ambiente, a projeção segue sendo de crescimento contido ao longo de 2026, com menor dinamismo da demanda doméstica e avanço mais moderado dos principais setores produtivos.

Para o mercado financeiro, a leitura central é que o PIB do 1T26 foi positivo na margem, mas insuficiente para alterar de forma substancial o pano de fundo macroeconômico. A surpresa esteve menos no número cheio e mais na sua composição — forte o bastante para chamar atenção, mas não para reverter a expectativa de moderação da economia nos próximos trimestres.

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