Petróleo caro melhora contas externas, mas pesa na inflação e nos juros
Choque decorrende da crise no Oriente Médio deve elevar o superávit comercial do Brasil para US$ 81 bilhões, e o IPCA para 4,3% no ano
01/04/2026 5 minutos
A alta do Brent para a faixa de US$ 110 reforça o saldo comercial brasileiro e a arrecadação ligada ao petróleo, mas amplia pressões inflacionárias de curto prazo e reduz o espaço para afrouxamento monetári | Foto: Getty Images
A escalada do conflito no Oriente Médio passou a impor uma revisão relevante sobre o cenário macroeconômico brasileiro em 2026. Em relatório semanal, o Banco Safra incorporou ao cenário-base parte importante da alta recente do petróleo, com o Brent saindo de US$ 72 no fim de fevereiro para cerca de US$ 110 no início de abril, e com expectativa de recuo para perto de US$ 80 a US$ 85 até o fim do ano.
Na leitura do banco, o choque tem efeito ambíguo sobre a economia brasileira. De um lado, melhora os termos de troca, fortalece o real em relação a outras moedas emergentes, eleva a projeção de superávit comercial para US$ 81 bilhões e reduz a estimativa de déficit em conta corrente para 2,4% do PIB. De outro, encarece insumos, pressiona a inflação ao consumidor, dificulta o processo de desinflação e reduz o espaço para cortes mais intensos da Selic.
O Safra revisou a projeção para o crescimento do PIB em 2026 de forma mais conservadora. A estimativa passou a 1,6%, abaixo do ritmo potencial, refletindo perda de poder de compra das famílias, manutenção de comprometimento elevado da renda com o serviço da dívida e piora da confiança em meio ao aumento da incerteza geopolítica.
Inflação volta a preocupar no curto prazo
A avaliação do banco é que a inflação deve sofrer nova pressão nos próximos meses, sobretudo por meio dos custos de produção. O petróleo mais alto afeta cadeias relevantes da economia, como fertilizantes e químicos, com impacto indireto sobre alimentos. Segundo o relatório, os preços dos fertilizantes subiram cerca de 25% em março, movimento que tende a contaminar a inflação alimentar adiante.
O Safra afirma que o IPCA-15 de março voltou a surpreender para cima, com alta de 0,44% na margem, acima da expectativa da instituição e do consenso de mercado.
Embora a leitura tenha sido pressionada por componentes mais voláteis, como passagens aéreas e alimentos, o banco destaca que os primeiros sinais do choque do petróleo já começaram a aparecer também nos preços administrados, especialmente combustíveis.
Núcleos seguem mais comportados, mas risco aumentou
Apesar da surpresa no índice cheio, as medidas de núcleo mostraram comportamento menos deteriorado do que o observado no resultado principal. Isso sugere, na avaliação do Safra, que parte relevante da pressão recente ainda está concentrada em itens voláteis e menos correlacionados ao ciclo econômico.
Ainda assim, o banco revisou sua projeção para o IPCA de 2026 para 4,3%. A expectativa é de inflação mais alta no curto prazo, seguida de desaceleração adiante, caso o petróleo recue conforme embutido na curva futura internacional.
Copom deve manter cautela e Selic terminal segue em 12,25%
Com inflação corrente mais pressionada e incerteza elevada, o Safra avalia que o Banco Central deve preservar uma postura cautelosa na calibragem dos juros. A leitura é que o Copom tende a manter o ritmo de redução da Selic em 0,25 ponto percentual na reunião do fim de abril.
O banco sustenta que há espaço cíclico para alguma flexibilização monetária, dado o enfraquecimento da absorção doméstica na segunda metade de 2025. Ainda assim, o novo choque de oferta limita movimentos mais agressivos. Com isso, a projeção é de Selic em 12,25% ao ano no fim de 2026.
Setor externo melhora com exportações e commodities
No setor externo, o Safra destaca que o Brasil registrou em fevereiro um déficit em conta corrente de US$ 5,6 bilhões, equivalente a 2,4% do PIB com ajuste sazonal.
Em 12 meses, o déficit caiu para 2,7% do PIB, melhora expressiva em relação aos 3,7% observados em fevereiro do ano anterior, segundo o sumário executivo do relatório.
A melhora decorre da combinação entre exportações mais fortes — com destaque para energia e commodities agrícolas — e importações mais moderadas, em linha com a desaceleração da demanda doméstica. O banco observa ainda que os ingressos líquidos de capital alcançaram 3,3% do PIB em 12 meses, nível suficiente para financiar o déficit externo e permitir aumento das reservas.
Fluxo de capitais segue suficiente para financiar o déficit
Em fevereiro, os ingressos de investimento direto e em carteira permaneceram acima da necessidade de financiamento externo. O destaque foi a entrada líquida em investimentos de portfólio, sustentada principalmente por títulos de dívida. Para o Safra, esse quadro reforça a avaliação de que a posição externa brasileira permanece administrável, mesmo em ambiente global mais volátil.
Fiscal ganha alívio, mas relatório bimestral expõe fragilidades
No front fiscal, o relatório de receitas e despesas de janeiro e fevereiro apontou necessidade de um bloqueio relativamente pequeno de R$ 1,6 bilhão para cumprimento do limite de gastos, sem indicar, por ora, necessidade de contingenciamento adicional para o cumprimento da meta de resultado primário.
Ainda assim, o documento mostrou deterioração relevante nas projeções oficiais em relação à Lei Orçamentária. A receita líquida foi revisada para baixo e as despesas primárias, para cima, levando a uma piora de R$ 37 bilhões no resultado primário efetivo do governo central. O déficit projetado passou de cerca de R$ 23 bilhões para quase R$ 60 bilhões.
O Safra pondera, porém, que a alta do petróleo tende a compensar parte dessa deterioração via royalties e participações especiais. Com isso, a projeção do banco para o déficit primário do governo central foi melhorada para 0,3% do PIB, ante 0,5% do PIB antes. A instituição mantém a avaliação de que a meta fiscal pode ser atingida, descontadas despesas fora da meta.
Despesas obrigatórias seguem como foco de risco
Apesar da convergência parcial entre as contas do governo e as estimativas do banco, o relatório aponta discrepâncias relevantes, sobretudo em despesas obrigatórias. O Safra vê risco de novas revisões em gastos previdenciários, BPC e pessoal nos próximos relatórios bimestrais.
Acordo Mercosul-União Europeia entra em vigor e deve ter efeito positivo, embora modesto
O relatório também destaca a entrada em vigor provisória, a partir de 1º de maio de 2026, do acordo entre Mercosul e União Europeia, após mais de duas décadas de negociação. A avaliação do Safra é que o impacto macroeconômico para o Brasil tende a ser positivo, porém moderado.
O principal canal de transmissão será o aumento da oferta e a redução de preços de importados europeus, especialmente bens de capital e produtos industriais de maior valor agregado, ao lado de maior demanda por exportações brasileiras, com destaque para o agronegócio.
Ainda assim, o banco ressalta que o efeito sobre a balança comercial tende a ser negativo, já que as importações brasileiras devem crescer mais do que as exportações no horizonte mais longo. Em contrapartida, o ganho potencial de produtividade e de diversificação da oferta é visto como positivo para a economia.
Para investidores, cenário combina melhora externa e piora inflacionária
A síntese do Safra é que o choque do petróleo melhora o quadro externo e oferece algum alívio fiscal, mas cobra preço em inflação e atividade. Para o mercado, isso significa um ambiente em que ativos ligados a exportação e commodities podem se beneficiar, enquanto a curva de juros tende a incorporar maior cautela com o ritmo de flexibilização monetária.
Em outras palavras, o Brasil aparece relativamente protegido no setor externo diante da alta do petróleo, mas menos favorecido no ciclo doméstico. O resultado é um cenário de crescimento mais fraco, inflação mais resistente no curto prazo e política monetária mais conservadora ao longo de 2026.
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