close

Mônica Kruglianskas

Saúde do planeta e o papel do setor financeiro e das PPPs

O setor financeiro tem um papel vital na transição para um mundo mais sustentável e equitativo, e as PPPs são uma ferramenta essencial para financiar essa transformação

Setor financeiro e o clima

O conceito de justiça dos sistemas terrestres aponta para a necessidade de uma abordagem mais equitativa às mudanças climáticas | Foto: Getty Images

O planeta e sua população enfrentam ameaças sem precedentes com a deterioração dos bens comuns globais — os sistemas naturais que sustentam a vida. Essa deterioração está intensificando crises relacionadas à insegurança energética, alimentar e hídrica, além de aumentar o risco de doenças, desastres, deslocamentos e conflitos.

No Brasil, vivemos uma grave crise ambiental. Em 2024, incêndios florestais devastam a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e o estado de São Paulo (1), com 60% do país encoberto por densa fumaça. Foram registrados 205.815 focos de incêndios até o momento, um aumento de 144% em relação a 2023. A seca extrema e o aumento das temperaturas agravam a situação, e a maioria desses incêndios é de origem criminosa. A fumaça tem causado níveis perigosos de poluição do ar em milhares de cidades, incluindo São Paulo, que recentemente foi classificada como a cidade mais poluída do mundo.

Diante disso, além da necessária intervenção governamental para prevenir crimes ambientais, é fundamental engajar diversos atores-chave, como o setor financeiro, para garantir o equilíbrio socioambiental e econômico do país.

Esses desafios ambientais estão diretamente ligados à economia global, representando tanto riscos quanto oportunidades para o setor financeiro.

Limites seguros e justos: o conceito de um novo corredor econômico

Para entender melhor esses desafios, a Comissão de Saúde Planetária da The Lancet introduziu o conceito de “limites seguros e justos” dos sistemas terrestres (Earth-System Boundaries – ESBs). Esses limites indicam o acesso mínimo a recursos naturais necessários para garantir a dignidade humana e possibilitar a superação da pobreza, ao mesmo tempo em que se evita a degradação dos sistemas naturais.

Esse conceito baseia-se nos trabalhos de reconhecidos cientistas como Johan Rockstrom e Kate Raworth (2), e conecta-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ele propõe um “corredor seguro e justo”, que equilibra a necessidade de proteção dos sistemas naturais com o bem-estar humano.

Para o setor financeiro, operar dentro desse corredor é essencial não apenas para a saúde do planeta, mas também para a estabilidade econômica global. Ultrapassar esses limites pode resultar em desastres naturais, crises alimentares e conflitos que impactam diretamente os mercados. No entanto, respeitar esses limites pode gerar oportunidades de investimento sustentável e fomentar novos modelos de negócios.

Nesse cenário, as Parcerias Público-Privadas (PPPs) surgem como um instrumento fundamental para promover soluções sustentáveis em larga escala.

PPPs: um caminho para financiar a transição sustentável

As PPPs são essenciais para viabilizar grandes projetos de infraestrutura sustentável, alinhando interesses públicos e privados. Com base no conceito de ESBs, as PPPs desempenham um papel crucial ao direcionar recursos para setores críticos que enfrentam desafios sócio ambientais. Elas oferecem uma estrutura eficiente para o compartilhamento de riscos e benefícios, promovendo entre outros:

  • Investimentos em energia limpa: As PPPs permitem que governos e empresas compartilhem o custo e o risco de construir infraestrutura de energias renováveis, como usinas solares e eólicas, atendendo metas climáticas e gerando oportunidades financeiras atraentes para investidores privados.
  • Infraestrutura resiliente e sustentável: Esses projetos podem financiar cidades inteligentes e infraestruturas resistentes a eventos climáticos extremos. Países em desenvolvimento, com grande demanda por infraestrutura moderna, podem se beneficiar enormemente.
  • Gestão de recursos hídricos e saneamento: Com o aumento da escassez hídrica, PPPs podem garantir a construção e manutenção de sistemas de água potável e tratamento de esgoto, gerando retornos financeiros estáveis para investidores.

Riscos financeiros da inação

Os riscos de ignorar os ESBs são profundos. Sete dos oito limites já foram transgredidos, incluindo áreas críticas como o clima, água e ciclos de nutrientes (fósforo e nitrogênio). A inação pode desencadear consequências econômicas devastadoras, como:

  • Perdas relacionadas a desastres naturais: Inundações, secas e incêndios florestais mais frequentes e severos podem impactar diretamente a produção agrícola, cadeias de suprimento e o valor de ativos financeiros.
  • Crescimento da desigualdade econômica: A degradação ambiental afeta de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, especialmente em países em desenvolvimento, exacerbando a desigualdade e criando tensões sociais que podem prejudicar a estabilidade de mercados e nações. PPPs podem financiar projetos que melhorem a infraestrutura básica em áreas necessitadas, ajudando a minimizar essas desigualdades.
  • Aumento dos custos operacionais: Empresas dependentes de recursos naturais enfrentarão maiores custos à medida que esses recursos se tornem escassos e mais regulamentados. Investidores precisam avaliar o risco em empresas com práticas insustentáveis. As PPPs podem modernizar setores críticos, reduzindo seu impacto ambiental e promovendo maior eficiência.

Justiça climática, PPPs e o papel do setor financeiro

O conceito de justiça dos sistemas terrestres aponta para a necessidade de uma abordagem mais equitativa às mudanças climáticas, que envolva a redistribuição de recursos e a responsabilidade diferenciada pelas transformações no sistema terrestre. Nesse contexto, as PPPs podem ser ferramentas poderosas para promover a justiça climática, ao mobilizar recursos públicos e privados para financiar projetos que melhorem o acesso a recursos essenciais nas comunidades mais vulneráveis.

Para o setor financeiro, incorporar critérios de justiça climática nas decisões de investimento é crucial. Isso pode ser feito através de:

  • Financiamento de projetos inclusivos via PPPs: As PPPs podem financiar projetos que promovam o acesso a recursos como água, energia e saneamento em áreas carentes, gerando impacto positivo e retornos financeiros.
  • Transparência e relatórios ESG em PPPs: A adoção de padrões ESG (ambientais, sociais e de governança) é fundamental para garantir que os projetos de PPPs estejam alinhados com as metas globais de justiça climática e sustentabilidade. Relatórios ESG ajudam investidores a monitorar a execução transparente e justa das PPPs.

O futuro financeiro em um planeta seguro

O setor financeiro tem um papel vital na transição para um mundo mais sustentável e equitativo, e as PPPs são uma ferramenta essencial para financiar essa transformação. Investir em soluções sustentáveis e resilientes através de parcerias público-privadas não é apenas uma resposta aos desafios ambientais, mas também uma estratégia inteligente para proteger ativos e garantir retornos no longo prazo.

Ao reconhecer os limites seguros e justos do planeta e promover colaborações público-privadas, o setor financeiro pode liderar a transformação necessária para um futuro mais próspero, equitativo e sustentável. O momento para agir é agora — o futuro do planeta e das finanças globais depende de decisões estratégicas que envolvam o público e o privado na criação de soluções inovadoras e inclusivas.

  1. O Brasil está sendo queimado – https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/editorial-o-brasil-esta-sendo-queimado/
  2. A just world on a safe planet: a Lancet Planetary Health–Earth Commission report on Earth-system boundaries, translations, and transformations – https://www.thelancet.com/journals/lanplh/article/PIIS2542-5196(24)00042-1/fulltext#fig15


Coordenadora Adjunta do Programa de Gestão Estratégica da Sustentabilidade da FIA Business School. Conselheira e Diretora Não Executiva em diversas organizações no Brasil e Europa.

Abra sua conta