Em 1816, o médico francês René Laennec, diante da dificuldade de auscultar o coração de uma paciente usando a técnica tradicional (colocando o ouvido diretamente sobre o tórax dela), improvisou um tubo de papel enrolado, dando origem ao que se tornaria um dos instrumentos mais icônicos da medicina: o estetoscópio. Essa solução, baseada em um problema real, é um exemplo clássico de como a experiência dos médicos à beira do leito pode ser transformada em fonte de inovações que tendem a ser eficazes, mais humanas e mais aderentes à realidade do cuidado em saúde.
Até tempos recentes, porém, os processos estruturados de inovação tecnológica em medicina ficaram relativamente afastados do ambiente clínico, concentrando-se em centros de engenharia, laboratórios industriais e empresas de tecnologia. Muitas vezes, esse distanciamento produziu um paradoxo: a criação de novidades sofisticadas, mas nem sempre alinhadas às necessidades reais de médicos e pacientes.
Esse cenário vem mudando. Instituições internacionais de excelência, como Sheba, de Telaviv, Mayo Clinic e Stanford, passaram a reconhecer que o envolvimento direto dos médicos é um elemento estratégico para a inovação em saúde, especialmente em um contexto marcado pela transformação digital, pela medicina personalizada e pelos desafios de avançar continuamente em eficiência, segurança e qualidade assistencial.
No Brasil, quem está acionando esse movimento é o Einstein. Com uma robusta estrutura de inovação consolidada ao longo da última década, incluindo laboratório de design, centro de inovação e tecnologia e uma aceleradora de startups (Eretz.bio), entre outros pontos, a organização desenvolveu um programa inédito para engajar e apoiar médicos na geração de soluções inovadoras. Como observa o Dr. Thiago Julio, gerente de Inovação, a iniciativa partiu de um princípio simples: o médico é um observador privilegiado dos desafios assistenciais – desafios que podem se transformar em oportunidades de inovação.
Os objetivos centrais são capacitar médicos para identificar, estruturar e desenvolver soluções inovadoras a partir da prática clínica; estimular a criação de produtos, processos e tecnologias com potencial de impacto assistencial e econômico; e promover uma cultura institucional de inovação baseada na colaboração interdisciplinar.
Para isso, como detalha a Dra. Mariana Naville, que atua no Relacionamento Médico de Inovação, o programa está estruturado em três pilares:
- Capacitação em inovação, que oferece aos médicos educação específica em temas como biodesign, desenvolvimento de tecnologias, empreendedorismo e propriedade intelectual.
- Engajamento, que promove a participação dos médicos em projetos, mentorias, avaliações de startups, testes e comunidades de inovação.
- Navegação, que funciona como uma espécie de serviço de “concierge de inovação”, orientando o médico do conceito à implementação. Soma-se a tudo isso o suporte institucional e jurídico, que inclui desde apoio para avaliação de viabilidade técnica até depósito de patentes e proteção da propriedade intelectual, reduzindo barreiras que tradicionalmente afastam médicos dos processos de desenvolvimento tecnológico.
Na prática, o programa acompanha o médico desde a identificação de um problema clínico até o desenvolvimento de uma solução concreta. Nesse processo, os médicos podem ser envolvidos como consultores ou como inventores. Neste caso, as ideias passam por etapas de validação, prototipagem, testes e avaliação de impacto. Quando demonstram potencial técnico e assistencial, podem ser levadas adiante por vários caminhos: pelo próprio Einstein, por indústrias ou via empreendedorismo. Esse modelo transforma o médico de usuário de tecnologias em cocriador de soluções, fortalecendo sua autonomia intelectual e ampliando o impacto do conhecimento clínico.
Criado em 2024, o programa já registra mais de 150 médicos inscritos e 11 projetos em andamento, abrangendo dispositivos médicos, soluções digitais e iniciativas em inteligência artificial. O programa também movimentou uma agenda de eventos, como o “Médicos Inovadores”, que reuniu centenas de participantes e apresentou casos reais.
Os resultados dessa abordagem já se materializam em soluções concretas para a prática assistencial. Um exemplo é o Ankle Board, um dispositivo patenteado desenvolvido para aprimorar a realização de exames dinâmicos do tornozelo. No Einstein, a avaliação dinâmica da instabilidade da sindesmose (um complexo ligamentar responsável pela estabilidade do tornozelo) já integra a prática clínica, realizada com adaptações dos recursos disponíveis. O Ankle Board representa um avanço ao oferecer uma solução que torna o exame mais padronizado, reprodutível e preciso, especialmente em entorses específicas nas quais não há fratura evidente, mas existe suspeita de instabilidade ligamentar relevante.
Nesses casos, muitos pacientes são tradicionalmente conduzidos com tratamento conservador, incluindo imobilização. Uma avaliação dinâmica mais acurada pode, no entanto, identificar instabilidade significativa e indicar a necessidade de abordagem cirúrgica, com impacto direto na recuperação funcional e na qualidade do cuidado ao paciente.
O Ankle Board é fruto de um ciclo completo de inovação em saúde. A partir de pesquisa científica desenvolvida no Einstein, o conhecimento gerado evoluiu para a criação de uma patente, seguiu para prototipagem e aprimoramento em parceria com a área de Inovação e, atualmente, encontra-se em validação clínica para uso interno, com perspectiva de incorporação à rotina da radiologia.
Outra inovação é o Hernia 3D Training Model, um modelo anatômico de hérnia impresso em 3D, desenvolvido para treinamento cirúrgico. A ferramenta permite que cirurgiões pratiquem técnicas em um ambiente controlado e realista, contribuindo para a segurança do paciente e para a qualificação da formação médica.
O programa representa uma mudança cultural para a medicina brasileira: médicos não apenas cuidam de pacientes, mas também inventam soluções para melhorar a saúde. Assim como
Laennec fez há mais de dois séculos, hoje os profissionais do corpo clínico do Einstein transformam desafios clínicos em inovação – agora com impacto global e tecnologia de ponta.
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