A imagem de lideranças de alta performance esteve durante muito tempo associada à resistência extrema: agendas lotadas, decisões rápidas, disponibilidade permanente e uma capacidade aparentemente inesgotável de suportar a pressão excessiva por resultados, além de se manterem informados sobretudo para lidar com o presente e planejar o futuro. A realidade mostra que essa fantasia está cobrando um preço amargo. Uma pesquisa realizada pela The School of Life, organização dedicada ao desenvolvimento da inteligência emocional, em parceria com a consultoria Robert Half, mostrou que 52% dos líderes do Brasil recorrem a medicamentos para lidar com estresse, ansiedade, depressão e burnout.
Executivos(as) vivem submetidos(as) a uma combinação de sobrecarga cognitiva, pressão por desempenho e um ambiente de mudanças constantes – do cenário político, econômico, tecnológico e concorrencial que pode impactar os negócios de sua organização até uma fusão ou aquisição; da chegada de um novo CEO ou alteração de pessoas na equipe até novidades nos sistemas de TI, para citar apenas alguns exemplos. É uma roda-viva intensa e contínua, que inclui também a preocupação de se manter relevante na empresa, no mercado, nas redes sociais, etc. A Dra. Dulce Pereira de Brito, gerente médica de Bem-Estar e Saúde Mental do Einstein, com ampla experiência no atendimento de pacientes do mundo corporativo, usa a metáfora de um hamster na esteira para traduzir essa sensação de viver numa corrida que não termina. Vale observar, ainda, que a tecnologia digital, apesar dos benefícios que traz, também ajudou a abolir as fronteiras do mundo profissional e pessoal. Ou seja, o escritório pode ir junto com o líder para sua casa na praia ou na montanha no fim de semana.
Em meio a essa “maratona”, cresce um fenômeno conhecido como “fadiga de decisão”, muitas vezes combinado com o overthinking. A primeira diz respeito ao volume de pequenas e grandes decisões que o(a) executivo(a) tem que tomar a cada dia – não apenas as inerentes à posição que ocupa, mas outras, como o que vai ler, o que vai estudar ou acompanhar em fóruns ou nas redes sociais. Já o overthinking é o excesso de pensamentos e preocupações, muitas vezes acompanhado da sensação constante de estar deixando escapar algo importante. O resultado é um estado contínuo de alerta mental, que suga a energia do cérebro, dificulta o descanso, prejudica o sono e alimenta sintomas como irritabilidade, ansiedade e esgotamento emocional. Estudos neurocientíficos apontam que essa fadiga mental resulta num acúmulo de toxinas no cérebro, como o glutamato, que acabam por reduzir a capacidade analítica, comprometer a clareza de julgamento e aumentar o risco de decisões equivocadas.
Muitas lideranças passam a funcionar em um estado de exaustão permanente, sem perceber o que está acontecendo e até normalizando os “encargos” estressantes como se fossem indissociáveis do cargo. Alguns começam a recorrer ao álcool, automedicação ou outros mecanismos compensatórios para aliviar a tensão cotidiana, como o jogo patológico. Aos poucos, a identidade profissional engole outras dimensões fundamentais da vida: relações afetivas, hobbies, vínculos familiares, lazer e propósito pessoal.
Entre mulheres executivas, desafios adicionais aparecem com frequência. Não são poucas as que reconhecem ter aberto mão do autocuidado e da saúde mental para crescer profissionalmente. Além disso, mais do que acontece com os homens, muitas vivem a chamada “liderança sanduíche”: precisam equilibrar simultaneamente demandas do trabalho e da carreira, cuidado dos filhos e suporte a pais idosos ou familiares adoecidos.
O que fazer?
Diante desse cenário, cresce a importância de programas especializados em saúde mental voltados para lideranças. Mas, para que eles funcionem efetivamente, precisam ser capazes de identificar sinais precoces de sofrimento emocional, mapear fatores de risco psicossociais e oferecer intervenções individualizadas.
O primeiro passo costuma ser uma escuta qualificada. Como explica a Dra. Dulce, mais do que avaliar sintomas isolados, busca-se compreender a história daquele profissional: como ele divide seu tempo, qual é sua relação com o trabalho, como estão seus vínculos familiares, seu sono, seu lazer e sua percepção sobre si mesmo.
Ferramentas validadas internacionalmente ajudam a rastrear sintomas de ansiedade, depressão, estresse e burnout. Também são avaliados fatores psicossociais relacionados ao ambiente corporativo, como excesso de demanda, conflitos relacionais, ausência de apoio, insegurança psicológica e pressão constante por resultados.
A partir desse diagnóstico, são traçados planos personalizados de cuidado.
No programa do Einstein, são contemplados quatro pilares: (1) promoção da saúde, considerando estilo de vida, questões comportamentais, funcionalidade familiar, relacionamentos, sono, etc.; (2) apoio especializado, que pode incluir psicólogo, psiquiatra, nutricionista, educador físico, entre outros, dependendo da necessidade; (3) melhoria das condições de trabalho, identificando os fatores psicossociais que impõem maior estresse e, paralelamente, os fatores de proteção; 4) desenvolvimento de competências socioemocionais, abordando aspectos como inteligência emocional, gestão do estresse, soft skills e a própria responsabilidade do líder para o bem-estar e a saúde mental de todos dentro da sua organização.
Também ganha destaque o apoio entre pares. Líderes frequentemente carregam a sensação de que precisam ser invulneráveis. Espaços seguros de troca com outros profissionais que enfrentam desafios semelhantes ajudam a reduzir o isolamento emocional e favorecem estratégias mais saudáveis de enfrentamento.
Cada vez mais empresas entendem que a saúde mental é um componente estratégico e deve ser foco da gestão de todas as pessoas da organização. No entanto, além das responsabilidades da função, líderes têm papel central na construção (ou deterioração) do ambiente emocional das equipes. Executivos(as) emocionalmente esgotados (as) tendem a tomar decisões piores, comunicar-se de forma mais agressiva, gerar insegurança psicológica e contaminar negativamente a cultura organizacional. Por outro lado, lideranças emocionalmente equilibradas fortalecem vínculos, ampliam confiança e favorecem ambientes mais produtivos, inovadores e saudáveis. Trata-se de desvestir a “capa” de super-heróis ou super-heroínas e olhar para os seres humanos que estão sob ela: seres humanos que podem ser brilhantes como líderes, mas que não têm o dom da invulnerabilidade frente às rotinas estressantes. Precisam cuidar da saúde mental para o seu bem-estar pessoal e para continuarem a brilhar como líderes.