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Lina Nakata

Prós e contras do fim da escala 6×1

Eliminar a jornada 6×1 e reduzir as horas semanais trabalhadas não é apenas uma mudança de horas, mas uma mudança de modelo de trabalho

Escala 6x1

O relatório do IPEA aponta uma correlação direta entre mais tempo de descanso e redução do estresse e esgotamento profissional | Foto: Getty Images

A discussão sobre o fim da escala 6×1 – jornada de trabalho com apenas um dia de descanso semanal – está intensa e tem gerado muitas opiniões diferentes. São muitas as variáveis que podem influenciar para um resultado melhor, ou pior. De qualquer forma, há desafios importantes para as empresas e para os trabalhadores.

Em relação às empresas, pode-se iniciar o planejamento focando na análise técnica e no debate setorial, conforme sugestão do próprio IPEA (2026). A transição pode seguir modelos discutidos no Congresso, como a PEC 8/2025 (que propõe jornada de 36h em 4 dias) ou a PEC 148/2015, permitindo uma redução gradual das horas semanais.

O que importa mais são dois itens: a redistribuição de tarefas e a avaliação da produtividade por hora; e não analisar apenas horas presenciais.

Além das horas, é necessário que haja um redesenho da operação. Por exemplo, já existem empresas que operam em 44 horas semanais em 5×2, com compensação de horas.

A transição pode ser relativa à organização, não somente legal. Algumas estratégias possíveis para esse planejamento são: escalonamento de turnos, banco de horas, contratação parcial ou intermitente em horários mais críticos, e projeto piloto por setor.

Do ponto de vista de cultura organizacional, o maior desafio para o RH está na mudança de mentalidade sobre a gestão de uma forma geral, à medida que precisamos enxergar produtividade e bem-estar de uma nova forma.

Em vários experimentos, foi possível observar que jornadas menores melhoram a qualidade do sono e reduzem o estresse. Essa mudança cultural passa pela quebra do conceito de que a produtividade esteja relacionada ao número de horas presenciais.

Ainda há uma lógica nas empresas de que mais tempo significa mais trabalho. O RH deve liderar esse movimento ao mostrar que produtividade gera resultado, independentemente das horas trabalhadas.

Muitas vezes, os líderes não sabem gerenciar por metas, desconfiam sobre o desempenho do time, e criam resistências, ao acreditarem que o tempo representa resultados. Assim, é necessário que haja uma mudança estrutural no mercado de trabalho.

Um fator que pesa a favor da redução de jornada é que, em 1988, houve a redução de 48h para 44h, e isso não gerou efeitos negativos no emprego, e ainda aumentou o salário real por hora no curto prazo.

No entanto, vários especialistas alertam que o ganho de produtividade no Brasil é baixo (0,2% ao ano desde 2012), o que sugere que a redução de horas pode elevar o custo unitário do trabalho, se não houver inovação ou mudanças mais drásticas.

De uma forma mais direta, entendemos que a redução de jornada pode reduzir o crescimento do PIB per capita. E a perda econômica é esperada se as mudanças não acompanharem o processo.

Por sua vez, quanto mais tecnologias devidamente implementadas, menos horas de trabalho humano precisamos. A tecnologia permite a viabilização da escala 5×2 por meio de ferramentas de monitoramento de produtividade, transparência algorítmica e automação de processos repetitivos.

O uso de dados pode ajudar a identificar gargalos operacionais que compensariam a redução das horas trabalhadas. A tecnologia é o principal “compensador” da redução de horas.

Devemos notar, por um lado, que há um risco de até 10% no aumento do custo da mão-de-obra, mas por outro há possibilidades de ganhos por meio de mais produtividade, reorganização de turnos, redução de margens, repasse parcial nos preços dos produtos e serviços, e/ou até uma contratação mais eficiente, evitando horas extras.

Não existe uma solução única, cada empresa deverá se adaptar de acordo com seu setor de atuação e do seu nível de eficiência organizacional.

72% da população brasileira apoia o fim da escala 6×1

Diante deste cenário, manter o modelo atual pode ser desfavorável para a marca empregadora da empresa. Além disso, algumas já aderiram à escala 5×2 antes de se tornar lei, sendo uma grande tática para atração de talentos, além de mostrarem resultados positivos.

Os materiais que apontam pontos negativos para a nova proposta questionam o custo econômico, apenas. Os benefícios sociais e subjetivos são bem evidentes.

Jornadas longas são fatores de risco para doenças crônicas e agudas. O relatório do IPEA aponta uma correlação direta entre mais tempo de descanso e redução do estresse e esgotamento profissional, o que tende a trazer resultados mais animadores, como a diminuição do absenteísmo e dos custos com saúde ocupacional.

A média da jornada semanal de um trabalhador brasileiro é em torno de 39 a 40 horas (já uma das maiores cargas do G20), apesar de a média mundial ser de quase 43 horas. No entanto, os trabalhadores europeus já passaram por esses processos de redução há vários anos, e atualmente trabalham 36 horas por semana. A redução é uma tendência para o médio ou longo prazo.

Tanto a OMS quanto a OIT apontaram que jornadas longas, com mais de 55 horas semanais, estão correlacionadas com maior risco de doenças cardiovasculares. E semanas mais curtas geram menos burnout. Adicionalmente, a escala 6×1 é apontada como punitiva para as mulheres devido à dupla – ou tripla – jornada, que envolve o trabalho remunerado, as atividades domésticas e os cuidados com os familiares (além dos filhos, também dos pais, muitas vezes).

A mudança para a escala 5×2 (ou jornadas menores) permite uma distribuição mais equilibrada do tempo livre, funcionando como uma ferramenta de inclusão, ao reduzir a sobrecarga física e mental das mulheres, principalmente.

Nesse cenário incerto, para manter a equipe engajada, as empresas podem ser mais transparentes, ao mostrarem seus números e passarem a mensagem de que se todos estiverem comprometidos, haverá uma reversão para resultados melhores. Entender mais sobre os custos da empresa e buscar soluções de produtividade de forma conjunta podem transformar o receio em colaboração.

Finalmente, há ganhos sociais claros e riscos econômicos relevantes, mas o grande desafio é superar a adaptação cultural (sobre quantidade vs qualidade de trabalho), a qualidade da gestão, a produtividade e o uso de tecnologias. Reduzir a jornada não é apenas uma mudança de horas, é uma mudança de modelo de trabalho.


Professora e pesquisadora da FIA Business School, co-presidente da Professional Women Network (PWN SP), diretora de inovação da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração e diretora de carreiras da Sempre FEA. Leciona também no Insper e Mackenzie.

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