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Joaquim Levy

Cenários para a inteligência artificial

É preciso repensar organização e estatísticas econômicas com a IA, mesmo que ela vá além da gestão tecnológica e da substituição de empregos em escritórios

Inteligência artificial

Em países como o Brasil, a prioridade será criar a infraestrutura para operar a IA localmente, valendo-se da abundância de energia, água e da demanda por esses serviços | Foto: Getty Images

A bolsa americana surpreendeu esse ano, com a divergência entre o valor de empresas ditas IasS (Infrastructure as Service, que permitem rodar os modelos de Inteligência Artificial e o das SaaS (Software as a Service), cujo preço despencou. Essa “bifurcação” se dá porque as primeiras crescem com a Inteligência Artificial (IA), enquanto as outras sofrerão mais concorrência, agora que a IA sabe programar.

Em paralelo, a IA vem transformando atividades que vão da advocacia ao planejamento tributário, seguros e medicina, com chances de tornar redundantes muitos profissionais e suas habilidades adquiridas em décadas de estudo e prática.

Esse ano, a bolsa e os juros americanos vão depender das receitas das empresas de IA e do efeito deflacionário da adoção das suas ferramentas e seu impacto no desemprego e demanda agregada. O dólar refletirá pressões baixistas da política monetária, se o desemprego subir, e altistas, caso os ganhos de produtividade com a IA se traduzam em alívio fiscal e maior atratividade dos investimentos nos EUA.

Em países como o Brasil, a prioridade será criar a infraestrutura para operar a IA localmente, valendo-se da abundância de energia, água e da demanda por esses serviços. Não há tempo a perder, porque as transformações serão muito grandes.

Dario Amodei, fundador da empresa que criou o modelo Claude, diz que a IA será “a tecnologia mais transformadora da história”. O historiador Yuval Harari alerta que ela, antes mesmo de se tornar generalizada ou animar um exército de humanoides, pode criar uma “classe inútil”. Seriam bilhões de pessoas sem função econômica, possivelmente “abaixo” do proletariado do século XIX, o qual, ao menos, era essencial para a produção.

Essas ansiedades não são novas. Durante a recessão que seguiu o surto de produtividade nos anos 1920, os britânicos Bertrand Russel e Aldous Huxley lançaram obras clássicas sobre esses temas. Ambos apontavam para o provável aumento do tempo livre, mas cada um projetava uso distinto do potencial ócio. Russell vislumbrava o ócio emancipador, em que as pessoas se dedicariam às artes e ciências. Já no mundo de Huxley, haveria lazer, mas ele seria embrutecedor, passivo, promíscuo e talvez drogado.

Só pequeníssima elite concentraria o conhecimento e trabalharia “tempo integral” controlando o mundo.

Ideias de como distribuir trabalho e lazer são ainda mais antigas. Thomas More contrastava há 500 anos a Inglaterra de muitos ociosos e pobres com sua ilha imaginária, onde todos produziriam, obtendo o que precisassem com apenas algumas horas de trabalho diário. Como é comum nessas teses, a satisfação na Utopia não se apoiava tanto no crescimento da oferta pelo trabalho ou inovação, mas na pouca demanda por luxo ou status.

Nos últimos anos, Lorde Adair Turner tem mostrado que a tecnologia aumenta a produtividade média do trabalho e o padrão de vida geral se ela abranger novos setores e criar novas demandas, ao invés de apenas expulsar pessoas para setores com produtividade estagnada ou cuja atividade adversarial seja de soma zero.

Ou seja, será preciso repensar organização e estatísticas econômicas com a IA, mesmo que ela vá além da substituição de empregos em escritórios e da gestão tecnológica de uma economia de entregadores. Senão, seu efeito no PIB e salários será mitigado, mesmo considerando os benefícios dos já numerosos avanços da ciência obtidos com seu auxílio.

Busca de respostas aos desafios da IA

A IA é capaz de selecionar os compostos mais promissores entre milhões em cada classe, ajudando a criar antibióticos e moléculas ligantes, cujos sinais podem frear a expansão do câncer ou debelar a diabetes. Assim, ela encurtou o tempo para descobrir produtos cujas taxas de sucesso nos ensaios clínicos excedem as de produtos convencionais.

A IA também está ajudando a vencer uma grande barreira para a abundância na terra, aproximando-nos da fusão nuclear que aumentaria em centenas de vezes a oferta de energia, sem emissões. Mas esses caminhos exigirão muito investimento físico e capital humano aplicado, e poderão ser socialmente acidentados.

Na vida real, mudanças trazem custos. Thomas More advertiu para as “ovelhas que devoram homens”, ao ver os campos ingleses começarem a ser cercados para aumentar a produção de lã, levando agricultores expulsos à miséria. Cenários com a IA podem reproduzir o excedente de mão de obra formado nas cidades inglesas pela migração rural iniciada nos 1500s e ampliado no século XVIII com novas leis de cercamento e a redundância dos artesãos causada pela revolução industrial, assunto das pesquisas de Friedrich Engels e das teorias que elas estimularam, e que só se resolveu no século XX.

O impacto da IA também ultrapassa regras ligadas à ética e abuso de privacidade, podendo alcançar estruturas institucionais. A acumulação da riqueza e a troca de referenciais, por exemplo, impulsionaram a monarquia britânica a passar da forma ainda feudal da época de More, para a absoluta, racionalizada por Hobbes como resposta à insegurança advinda das transformações do século XVII. E daí algumas décadas, para uma apenas cerimonial, com um monarca estrangeiro escolhido pelo parlamento para atenuar os riscos de tensões ideológicas/religiosas à economia.

Respostas aos desafios da IA vêm sendo discutidas há mais de década, sem muito progresso. É pena, porque eles estão mais perto, não se resolvem só com a redução das horas de trabalho, e demandarão recursos fiscais quando governos estão mais endividados. Esses desafios podem ser maiores ainda em países caudatários da revolução tecnológica, que terão menos chance de controlar o comportamento das grandes empresas de IA ou de tributá-las.

Nesse mundo incerto, as empresas devem familiarizar o máximo de funcionários com as ferramentas e deontologia da IA; monitorar o ganho de produtividade que surja daí; entender as mudanças de mercado que a IA pode trazer para seu setor e calibrar investimentos e produtos de acordo. Para os cidadãos, o melhor é trabalhar para que eventuais mudanças institucionais reforcem as normas democráticas, como ocorreu, apesar de sobressaltos, na Grã-Bretanha.

  • Publicado originalmente no Valor Econômico.


Joaquim Levy é diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados no Banco Safra. Ex-Ministro da Fazenda, Levy é engenheiro naval pela UFRJ, mestre pela FGV e PhD em economia pela Universidade de Chicago. Tendo sido CFO e Diretor Gerente do Banco Mundial e Vice-Presidente de Finanças do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ele foi Presidente do BNDES e Secretário do Tesouro Nacional do Brasil, além de ter trabalhado no mercado financeiro, tendo sido responsável por uma das principais gestoras de ativos do país.

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