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Patricia Artoni

Assistente virtual: novo personal shopper do varejo global

O que antes dependia de segmentações rígidas de CRM passa a ser um diálogo contínuo, em que o algoritmo aprende a cada interação do consumidor com o assistente virtual

assistente virtual

Para instituições financeiras, desafio é entender o impacto dos assistentes virtais sobre o varejo e, ao mesmo tempo, contribuir para que eles sejam usados de forma responsável, transparente e alinhada ao bem-estar financeiro das pessoas | Foto: Getty Images

Nos Estados Unidos, gigantes do varejo como Target, Walmart e marcas como Ralph Lauren começam a disputar um novo território o de personal stylists ou personal shoppers. Assistentes virtuais baseados em inteligência artificial vêm se tornando os consultores e influenciadores do que, como e onde compramos.

Trata-se de uma mudança estrutural na forma como o varejo se organiza. Investidores, gestores de empresas e consumidores que acompanham o mercado agora conversam com um assistente para decidir compras. O contexto é análogo ao de compra pós consultas no google com palavras chave, mas agora, escrevemos: “preciso de um presente para um adolescente, até 90 reais, que gosta de basquete e tecnologia”. O resultado são recomendações filtradas, comparadas e justificadas, influenciadas por um algoritmo que não conhecemos o funcionamento ou regras de recomendação.

Varejistas como Target e Walmart já testam, em maior ou menor escala, agentes de IA integrados a aplicativos, sites e programas de fidelidade. Marcas de lifestyle, como Ralph Lauren, exploram o uso de assistentes para sugerir combinações de peças, tamanhos, looks para diferentes ocasiões e até listas de presentes. A lógica é simples: em um ambiente de excesso de informação e opções, quem ajuda o consumidor a decidir ganha vantagem competitiva.

Do ponto de vista das empresas, a aposta nesses assistentes é de que, bem treinado, ele consegue reduzir o ruído da jornada: filtra o catálogo, considera histórico, preferências, promoções ativas e situação de estoque. Isso tende a elevar a taxa de conversão e o valor médio por compra, porque o consumidor recebe sugestões mais aderentes ao que realmente precisa (ou deseja).

Ao mesmo tempo, programas de fidelidade, histórico de navegação, geolocalização, clima, datas comemorativas e uma série de outras variáveis como sua personalidade identificada em poucos cliques, podem ser usadas para personalizar recomendações de produtos e serviços. Com a IA, isso acontece em tempo real e de forma conversacional.

O que antes dependia de segmentações rígidas de CRM (customer relationship management) passa a ser um diálogo contínuo, em que o algoritmo aprende a cada interação.

Há ainda ganhos importante de eficiência operacional e de marketing. Assistentes virtuais ajudam a desafogar centrais de atendimento, reduzir devoluções e alinhar demanda com estoque. Ao sugerir produtos com maior margem ou com estoque represado, por exemplo, a IA passa a ser um instrumento de gestão de portfólio tanto quanto de relacionamento.

Do lado do consumidor, um dos fatores que explica a crescente adoção é o ganho de eficiência de não mais navegar por dezenas de páginas de produtos, já que pode expor seu problema e receber recomendações mais diretas. É a experiência de ter um consultor de compras sempre disponível, 24 horas por dia, sem custo adicional.

Bons assistentes conseguem combinar preferências com limites financeiros, promoções e até alternativas mais sustentáveis ou duráveis. Para quem tem pouco tempo e precisa otimizar recursos, essa curadoria é especialmente valiosa.

Em marcas de moda e lifestyle, os assistentes podem propor combinações, simular looks em diferentes contextos, sugerir alterações de tamanho, cor, estilo. Em supermercados, podem ajudar a montar listas de compras equilibradas, reaproveitar itens e reduzir desperdício. A experiência deixa de ser apenas transacional e passa a ser mais rica, integrada e, muitas vezes, até lúdica.

Por trás da interface amigável, Assistente Virtual tem infraestrutura complexa

Por trás da interface amigável, porém, há uma infraestrutura complexa que nem sempre aparece. Para que o assistente funcione bem, é necessário integrar dados de estoque, preços, logística, histórico de compras, CRM e, muitas vezes, fontes externas.

Sistemas legados, dados fragmentados e baixa qualidade de informação podem comprometer a eficácia das recomendações. Além disso, modelos de IA precisam ser constantemente revisados, treinados e avaliados.

O comportamento do consumidor muda, as coleções mudam, as políticas mudam. Isso exige equipes especializadas, investimento contínuo e governança clara. Mesmo com todo esse esforço, permanecem riscos de erro e viés: assistentes podem recomendar produtos inadequados, privilegiar marcas ou linhas específicas de forma pouco transparente ou simplesmente não entender o contexto cultural do consumidor, algo particularmente sensível para marcas globais que atuam em mercados diversos.

O avanço dos assistentes de compras também levanta questões morais importantes. Para personalizar, o sistema precisa saber muito sobre nós: o que pesquisamos, o que compramos, o que devolvemos, quanto gastamos, com que frequência. A fronteira entre personalização útil e invasão de privacidade é tênue.

Até que ponto o consumidor tem controle real sobre seus dados e sobre o uso que é feito deles?

Há também o tema da transparência. Quando um assistente sugere um produto, o consumidor sabe se aquilo é resultado de um algoritmo neutro, de uma parceria comercial ou de um esforço para desovar estoque? A opacidade dos modelos pode gerar desconfiança e, em último caso, prejudicar a relação de longo prazo com a marca.

Outra preocupação é o estímulo ao consumo e ao endividamento. Assistentes muito persuasivos, combinados com crédito fácil e compras em “um clique”, podem incentivar decisões por impulso, especialmente em públicos mais vulneráveis. Em cenários assim, a discussão sobre uso responsável da IA e educação financeira se torna ainda mais urgente.

Há, ainda, o risco de exclusão e reforço de desigualdades. Algoritmos treinados com dados históricos podem reforçar vieses: privilegiar bairros, perfis de renda ou grupos que já eram mais bem atendidos, deixando pequenos varejistas ou determinadas regiões ainda mais invisíveis.

O movimento que vemos hoje no varejo americano, com Target, Walmart, Ralph Lauren e outros testando e ampliando o uso de assistentes de compras, tende a se espalhar. Há uma oportunidade: unir tecnologia, dados e inteligência de mercado para construir experiências de consumo mais inteligentes, alinhadas aos objetivos e limites do consumidor, e não apenas orientadas ao volume de vendas.

Para instituições financeiras e para o ecossistema de negócios em geral, o desafio é duplo: entender o impacto desses assistentes sobre o varejo e, ao mesmo tempo, contribuir para que eles sejam usados de forma responsável, transparente e alinhada ao bem-estar financeiro das pessoas.

No fim, a questão central não é se os assistentes virtuais vão transformar o varejo, mas como escolhemos que essa transformação aconteça: a favor de um consumo automático, guiado por algoritmos pouco explicados, ou de escolhas mais conscientes, informadas e alinhadas à vida que cada consumidor deseja construir.


Patricia Artoni é professora convidada e coordenadora de Marketing do LabMKT da FIA Business School. Acumula mais de 15 anos de experiência em pesquisa, ensino e extensão em áreas distintas do campo de Marketing tais como: branding, desenvolvimento de produtos e serviços, pesquisa de mercado, UX / CX e estratégia de negócios. Bacharel e mestre em Administração com ênfase em Marketing pela FEA-USP. Doutora em Estratégias de Marketing pela EAESP-FGV. Experiência em setores como telecomunicações e educação

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