OpenAI retoma a dianteira em IA e reforça a tese de investimento no setor
Nova rodada de lançamentos da OpenAI reduziu o desconto implícito aplicado pelo mercado ao setor de inteligência artificial, com efeitos potenciais sobre hyperscalers, semicondutores e a reprecificação de ativos
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Retomada da liderança da OpenAI em benchmarks de inteligência artificial ocorre em um momento de aceleração do consumo de tokens, expansão do capex dos hyperscalers e valorização disseminada da cadeia global de semicondutores | Foto: Getty Images
A avaliação do Banco Safra para o setor global de tecnologia e mídia indica que a OpenAI recuperou, ao menos neste momento, a posição de principal referência da corrida em inteligência artificial generativa.
No relatório Global TMT Weekly Journal, publicado em 27 de abril de 2026, os analistas Guilherme Bellizzi Motta e Silvio Dória argumentam que a sequência recente de lançamentos da companhia alterou a percepção do mercado sobre a monetização futura da infraestrutura de IA e sobre a qualidade do backlog associado ao ecossistema.
A tese central é que, nos últimos trimestres, investidores vinham aplicando um desconto implícito à parcela do backlog de hyperscalers e da Nvidia vinculada à OpenAI.
Em outras palavras, parte do mercado questionava se a trajetória de receitas da empresa seria suficiente para sustentar os compromissos de investimento em capacidade computacional que ajudaram a embasar o atual ciclo de gastos de capital em inteligência artificial.
Segundo o Safra, esse desconto se apoiava em três dúvidas principais: a aparente migração da liderança tecnológica para laboratórios rivais ao longo do primeiro trimestre de 2026, a acomodação do engajamento em produtos voltados ao consumidor e a percepção de menor velocidade de execução na segunda metade de 2025. A leitura do banco é que o ciclo de lançamentos de abril respondeu simultaneamente a esses três pontos.
GPT-5.5, Codex e Images 2.0 mudam a percepção sobre execução
O relatório destaca que o GPT-5.5 voltou ao topo do Artificial Analysis Intelligence Index, indicador agregado amplamente monitorado pelo mercado para comparar modelos de fronteira.
Mais relevante do que a liderança em si, na visão do Safra, é o fato de o modelo ter alcançado esse desempenho com custo por tarefa significativamente inferior ao do principal concorrente da Anthropic.
Eficiência e escala reforçam a tese de monetização
A leitura financeira por trás desse movimento é direta: se a OpenAI consegue combinar avanço de desempenho com maior eficiência econômica, reduz-se o risco de que o volume de investimento em infraestrutura fique desproporcional à geração de receita.
Isso tende a aliviar, ao menos em parte, a preocupação de que parte do backlog contratado junto a fornecedores de chips, nuvem e data centers venha a ser renegociada ou não integralmente capturada.
O Safra também chama atenção para o avanço do Codex, que teria superado 4 milhões de usuários ativos por semana, com adição de cerca de 1 milhão de usuários em apenas duas semanas. No segmento corporativo, o uso da ferramenta teria crescido aproximadamente seis vezes desde janeiro.
Para os analistas, esse dado importa porque geração de código é hoje um dos casos de uso com maior densidade de receita dentro da IA, além de contar com ciclos de compra corporativa mais curtos do que outras frentes de software.
No mercado consumidor, o destaque foi o ChatGPT Images 2.0, descrito como o primeiro modelo de imagem a incorporar raciocínio de forma nativa ao processo de geração.
O entendimento do banco é que esse tipo de avanço amplia a superfície de monetização da OpenAI para além dos casos de produtividade e tutoria, aumentando o potencial de retenção e expansão da base paga.
O mercado passou a reprecificar toda a cadeia de IA
A implicação mais ampla do relatório está menos na OpenAI isoladamente e mais na cadeia de valor que depende da continuidade do ciclo de investimento em inteligência artificial.
O Safra sustenta que o GPT-5.5 seria o primeiro modelo de fronteira da OpenAI treinado sobre a geração Blackwell, o que, na interpretação dos analistas, funciona como evidência empírica de que as chamadas scaling laws seguem válidas: mais capacidade computacional continua produzindo ganhos mensuráveis de capacidade.
Essa conclusão é particularmente relevante para a tese de investimento em semicondutores, memória, foundries, equipamentos e infraestrutura de data centers. Se o ganho marginal de desempenho continuar justificando novas ondas de treinamento e inferência, o mercado tende a preservar múltiplos elevados em empresas expostas ao ciclo de capex de IA.
Semicondutores seguem como principal vetor de valorização
Os dados consolidados no painel de desempenho do relatório reforçam esse diagnóstico. Em 12 meses até 24 de abril de 2026, o segmento global de semicondutores acumulava valorização de 152,2%, com destaque para memória, foundries, semicaps e fabricantes sul-coreanos. Já software, cibersegurança e diversos subsegmentos de SaaS continuavam pressionados, refletindo uma reprecificação mais dura do valor terminal em modelos de negócio sujeitos a risco de disrupção por IA.
Esse contraste é um dos pontos mais importantes para o investidor. O Safra mostra que a bolsa global de tecnologia segue separando vencedores e perdedores da inteligência artificial de forma cada vez mais clara: de um lado, a infraestrutura; de outro, aplicações de software cuja diferenciação competitiva parece mais vulnerável.
Capex dos hyperscalers avança, mas o fluxo de caixa livre sofre no curto prazo
A seção Safra AI Tracker dá sustentação quantitativa à tese. As estimativas compiladas pelo banco apontam que o capex agregado de hyperscalers, Oracle, CoreWeave e Nebius deve saltar de US$ 442,9 bilhões em 2025 para US$ 700,5 bilhões em 2026 e US$ 804,6 bilhões em 2027.
Ao mesmo tempo, a geração de caixa operacional combinada seguiria avançando, de US$ 606 bilhões em 2025 para US$ 750 bilhões em 2026 e US$ 949,8 bilhões em 2027.
A contrapartida desse movimento aparece no fluxo de caixa livre para a firma. O FCFF agregado projetado cairia de US$ 163,3 bilhões em 2025 para apenas US$ 49,5 bilhões em 2026, antes de se recuperar para US$ 145,2 bilhões em 2027.
Em termos de mercado, isso ajuda a explicar por que a narrativa da IA exige confiança elevada no retorno futuro do investimento: no curto prazo, o caixa é comprimido; no longo, a expectativa é de captura de produtividade, receita e dominância competitiva.
O ponto-chave para o investidor
A mensagem implícita é que o mercado aceitará essa compressão temporária de caixa enquanto acreditar que:
- os modelos continuam melhorando de forma material;
- a demanda por tokens segue acelerando;
- há monetização crescente em casos de uso corporativos e de consumo;
- o investimento atual não é excedente, mas estrutural.
É exatamente nesse ponto que a recuperação da OpenAI ganha peso. Se a empresa volta a sustentar liderança tecnológica, engajamento e velocidade de entrega, ela ajuda a validar a necessidade econômica da infraestrutura que vem sendo contratada e instalada em ritmo recorde.
Consumo de tokens e adoção corporativa indicam mercado ainda em expansão
Os indicadores reunidos pelo Safra também sugerem que a demanda final por IA continua em expansão acelerada. O banco mostra que o consumo semanal de tokens via OpenRouter chegou a 22,74 trilhões em março de 2026, com alta acumulada de mais de 300% no ano, movimento impulsionado sobretudo após o lançamento do Opus 4.5 da Anthropic no fim de novembro de 2025.
Ao mesmo tempo, a curva de adoção empresarial mostra avanço relevante das assinaturas pagas de ferramentas de IA nos Estados Unidos, com OpenAI liderando esse processo. Isso reforça a percepção de que o mercado ainda está em fase de penetração, e não de maturidade.
Concorrência permanece intensa
Apesar do tom favorável à OpenAI, o relatório não sugere um ambiente de vitória definitiva. Google, Anthropic e xAI seguem pressionando a fronteira tecnológica e disputando participação em consumo de tokens, preço e casos de uso.
A própria análise do Safra mostra ganho recente de participação da Anthropic em determinados canais e uma aceleração generalizada da capacidade dos modelos.
Assim, o ponto não é que a disputa terminou, mas que a OpenAI conseguiu recolocar-se no centro dela com força suficiente para aliviar a desconfiança do mercado em relação à captura de demanda.
Reprecificação favorece infraestrutura, enquanto software segue sob escrutínio
No plano setorial, a leitura do relatório é coerente com a performance recente dos ativos. O segmento de memória acumula valorização muito superior à média do setor de tecnologia em 12 meses, enquanto subgrupos ligados a CRM, ERP, dev tools e IT service management ainda exibem desempenho negativo no mesmo horizonte.
Essa divergência reflete uma mudança estrutural na forma como o mercado precifica tecnologia. Em vez de premiar indiscriminadamente empresas associadas à digitalização, os investidores passaram a exigir prova concreta de resiliência competitiva em um contexto em que a IA pode capturar valor em camadas antes consideradas defensáveis.
O que isso significa para alocação de investimentos
Para o investidor, o recado do Safra é que a inteligência artificial segue mais claramente otimista para a infraestrutura do que para todo o software.
Empresas posicionadas na oferta de capacidade computacional, memória, rede, equipamentos e data centers continuam no centro da captura de valor.
Já companhias de aplicação precisam demonstrar que conseguem transformar IA em expansão de receita, ganho de produtividade ou reforço de barreiras competitivas — e não apenas em pressão sobre precificação.
Conclusão
O relatório do Safra interpreta o retorno da OpenAI à liderança de percepção como um evento com alcance maior do que o desempenho de uma única empresa.
Trata-se, na prática, de uma peça importante na sustentação da tese macro de investimentos em inteligência artificial: a de que o ciclo de capex dos hyperscalers permanece racional porque ainda há avanço relevante de capacidade, demanda crescente e monetização em expansão.
Se essa leitura estiver correta, o desconto implícito aplicado ao backlog ligado à OpenAI tende a diminuir, beneficiando sobretudo os elos mais expostos à infraestrutura.
Ao mesmo tempo, a continuidade da reprecificação entre vencedores e perdedores da IA deve manter o mercado seletivo, premiando ativos com exposição direta e comprovável ao crescimento estrutural da demanda por compute.
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