Oncoclínicas pede recuperação extrajudicial: impacto nos investimentos
Companhia especializada em tratamento oncológico tenta reorganizar perfil financeiro após deterioração de liquidez, prejuízo bilionário e quebra de covenants. Plano depende de adesão mínima de credores em até 90 dias
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Fundada em 2010, a Oncoclínicas&Co reúne mais de 140 unidades em 49 cidades e mantém uma das maiores operações de oncologia da América Latina | Foto: Getty Images
A Oncoclínicas&Co (ONCO3) protocolou pedido de recuperação extrajudicial (RE) para reestruturar R$ 5,1 bilhões em créditos sujeitos ao processo, em mais um movimento de reorganização financeira de uma das maiores redes dedicadas ao tratamento do câncer no Brasil. O pedido foi ajuizado em 13 de julho e divulgado ao mercado nesta terça-feira (14).
A companhia informou que já conta com adesão de 37% dos credores abrangidos pelo plano. Pela legislação, a empresa terá prazo de 90 dias para atingir o quórum mínimo de 50% mais um dos créditos sujeitos, condição necessária para a homologação judicial definitiva da recuperação extrajudicial.
A dívida com fornecedores ficou fora do escopo inicial da negociação, preservando parte relevante da operação assistencial da companhia.
A Oncoclínicas atua em oncologia, hematologia e radioterapia, com mais de 140 unidades distribuídas em 49 cidades brasileiras e um corpo clínico superior a 1,7 mil médicos especializados.
Recuperação amplia pressão sobre debêntures e CRIs
Com o avanço do processo de reestruturação, permanecem suspensos os pagamentos de juros e amortizações de debêntures e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), medida que já havia sido adotada após o pedido de standstill apresentado pela companhia em abril de 2025.
No caso dos CRIs, a securitizadora Opea contratou a Journey Capital como assessora financeira e o escritório Mattos Filho para representação jurídica dos credores nas negociações.
Já entre os debenturistas, assembleias realizadas no início de julho não alcançaram quórum suficiente para deliberação. A expectativa do mercado é que novas convocações ocorram nas próximas semanas, à medida que a companhia apresente propostas formais de reestruturação.
Conversão de dívida em ações está entre alternativas
Segundo o relatório do Safra, a companhia avalia diferentes mecanismos para reorganizar sua estrutura de capital. Entre as alternativas consideradas estão:
- Conversão parcial da dívida em participação acionária;
- Emissão de novos títulos;
- Alongamento do cronograma de amortização das obrigações financeiras.
Por se tratar de recuperação extrajudicial, as negociações ocorrem diretamente entre empresa e credores, sem interferência inicial do Judiciário. O plano somente será submetido à homologação após atingir o apoio mínimo previsto em lei.
Deterioração financeira se agravou entre 2024 e 2026
A deterioração do perfil de crédito da Oncoclínicas ocorreu de forma gradual nos últimos dois anos, em meio à combinação de pressão operacional, inadimplência de fontes pagadoras e aumento do endividamento.
De acordo com a análise do Safra, a redução de receita em 2025 refletiu atrasos relevantes de operadoras e convênios médicos. O cenário foi agravado pelo evento de crédito envolvendo o Banco Master e pela crise financeira da Unimed FERJ, fatores que provocaram provisões adicionais e retração no faturamento.
Apesar de uma capitalização realizada em novembro de 2025 por meio da conversão de dívida em ações, a companhia encerrou o exercício com prejuízo de R$ 1,5 bilhão, impairment de R$ 711 milhões e quebra de covenants financeiros.
O banco avalia que a retomada da geração operacional de caixa dependerá diretamente do sucesso da renegociação do passivo e da recomposição da liquidez no curto prazo.
Passivo supera R$ 6 bilhões
No fechamento do primeiro trimestre de 2026, a Oncoclínicas registrava passivo total de R$ 6,1 bilhões. A estrutura da dívida incluía:
- R$ 1,9 bilhão em empréstimos e financiamentos;
- R$ 1,4 bilhão em debêntures;
- R$ 509 milhões em arrendamentos;
- R$ 218 milhões em aquisições a pagar;
- R$ 1,2 bilhão em fornecedores;
- R$ 257 milhões em obrigações fiscais;
- R$ 447 milhões em outras obrigações.
A companhia também anunciou a rescisão de dois contratos built-to-suit — modalidade em que imóveis são construídos sob medida para o locatário. Um dos contratos gerou multa de R$ 76 milhões, já incorporada aos créditos abrangidos pela recuperação extrajudicial.
Reestruturação ocorre em meio à consolidação do setor de saúde
Segundo a análise dos especialistas do Banco Safra, a recuperação extrajudicial da Oncoclínicas ocorre em um momento de maior seletividade de crédito no setor de saúde suplementar, especialmente entre grupos expostos à inadimplência de operadoras regionais e ao aumento do custo financeiro.
Nos últimos anos, a companhia expandiu sua atuação por meio de aquisições e consolidação de clínicas especializadas, estratégia que elevou a escala operacional, mas também ampliou a alavancagem financeira em um ambiente de juros elevados e pressão sobre margens.
Para investidores de crédito privado, o caso tende a se tornar uma referência relevante sobre reestruturações no segmento hospitalar e oncológico, especialmente em operações envolvendo debêntures e CRIs distribuídos ao mercado institucional e de alta renda.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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