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Liquidação do Banco Master complica a situação da Oncoclínicas

A Oncoclínicas tinha R$ 478 milhões em CDBs do Banco Master, dos quais R$ 216 milhões permanecem expostos a perda imediata após o vencimento antecipado dos títulos, segundo o Banco Safra.

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Oncoclínicas

Opções contratuais envolvendo ações detidas por FIPs ligados ao Master podem gerar desinvestimentos adicionais, segundo análise dos especialistas do Safra | Foto: Divulgação

A Oncoclínicas (ONCO3) atravessa um momento desafiador marcado por avanços importantes em seu plano de reestruturação e preservação de liquidez, ao mesmo tempo em que enfrenta eventos extraordinários que pressionam suas métricas de crédito, segundo análise dos especialistas do Banco Safra.

Entre os destaques positivos, a companhia anunciou a venda do Hospital Vila da Serra por R$130 milhões e encerrou contratos de built to suit que gerariam capex elevado nos próximos anos, convertendo multas em dívida incorporada ao aumento de capital.

O follow-on concluído em 14/nov levantou R$1,4 bilhão – valor relevante para a desalavancagem – e contribui para o cumprimento de cláusulas (covenants) ao final do exercício.

Operacionalmente, apesar da queda de receita, o trimestre mostrou melhora da rentabilidade recorrente e retomada da geração operacional de caixa, refletindo a efetividade das iniciativas de eficiência e do foco no core oncológico.

Liquidação do Banco Master afeta Oncoclínicas (ONCO3)

Por outro lado, a liquidação extrajudicial do Banco Master trouxe um choque negativo: a companhia possuía R$ 478 milhões em CDBs do banco, dos quais R$ 216 milhões permanecem expostos a perda imediata após o vencimento antecipado dos títulos.

O episódio também ativa opções contratuais envolvendo ações detidas por FIPs ligados ao Master, podendo gerar desinvestimentos adicionais.

Sem considerar potenciais efeitos da venda desses papéis, a alavancagem pró-forma sobe para cerca de 3,2x, reforçando a necessidade de uma gestão prudente de caixa até a completa normalização dos efeitos do evento.

Em conjunto, as medidas de desinvestimento, a melhora operacional e o aumento de capital formam um tripé essencial para estabilizar o crédito da companhia, enquanto o evento Master adiciona incerteza no curto prazo e exige monitoramento contínuo.

Atualizações relevantes para o crédito

Venda de ativo

Em 13 de novembro, a companhia comunicou duas alterações relevantes em seu portfólio. A primeira foi a venda do Hospital Vila da Serra (HVS), localizado em Nova Lima (MG), por R$130 milhões à Fundação Felice Rosso, com pagamento à vista no fechamento.

O acordo inclui um contrato de 25 anos para prestação de serviços oncológicos, garantindo manutenção da exposição da Oncoclínicas ao segmento.

Renegociação Cancer Center BH

Ainda no dia 13 de novembro, houve o distrato do contrato de built to suit com a Cedro para construção do Cancer Center de
Belo Horizonte. A rescisão implicou multa de R$ 210 milhões, inicialmente prevista para pagamento em caixa, mas posteriormente convertida em dívida e incluída no aumento de capital.

Além disso, a companhia obteve 12 meses de carência no aluguel do Cancer Center de Goiânia, único contrato remanescente com a Cedro. Essas medidas estão alinhadas ao guidance da companhia, reduzindo capex futuro com implantação de novos ativos e diminuindo exposição a hospitais gerais, ao mesmo tempo em que preserva receitas recorrentes do segmento oncológico, como no caso do HVS.

Aumento de capital

Na sexta-feira, 14 de novembro, a Oncoclínicas anunciou a conclusão do processo de subscrição de sobras relativo ao aumento de capital divulgado em outubro. O aumento totalizou R$ 1,4 bilhão, incluindo conversões de dívida e subscrição pelos acionistas atuais.

Do montante, R$ 210 milhões referem-se à renegociação dos contratos de built to suit com a Cedro. Embora abaixo do teto previsto de R$ 2,0 bilhões, a operação contribui para a mensuração do covenant de alavancagem ao final do exercício, cujo limite é de 3,5x.

Evento Master e impactos na Oncoclínicas

A liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, em 18 de novembro, gera impacto direto sobre a posição de caixa da Oncoclínicas.

A companhia mantinha R$ 478,2 milhões aplicados em CDBs do Master – dos quais R$ 217 milhões já haviam sido provisionados no 3T25.

Com o vencimento antecipado dos títulos após a liquidação, o saldo remanescente não provisionado, estimado em aproximadamente R$ 216 milhões, passa a representar perda potencial imediata.

O episódio também ativa as condições previstas no acordo de repactuação firmado em 22/10, permitindo à Oncoclínicas avançar na execução da opção de compra das ações detidas pelos FIPs vinculados ao Master, que somam cerca de 98,9 milhões de ações (aproximadamente R$ 190–203 milhões a mercado).

Desconsiderando eventuais impactos da venda dessas ações, o evento altera as métricas de crédito da companhia: a alavancagem pró-forma sobe para cerca de 3,2x, pressionando a flexibilidade financeira em um momento de reestruturação operacional.

A perda de parte relevante do caixa aplicado, somada ao aumento do risco de execução das medidas corretivas, reforça a relevância do aumento de capital em curso e de uma gestão de liquidez mais conservadora até que o cenário jurídico e financeiro relacionado aos créditos do Master seja definitivamente resolvido.

Resultado Operacional

A receita líquida atingiu R$1,4 bilhão no 3T25, recuo de 13,6% a/a, refletindo principalmente a interrupção do atendimento à Unimed FERJ a partir de agosto, movimento deliberado dentro do plano estratégico comercial que busca reduzir exposição a operadoras com baixa conversão de receita em caixa e elevada inadimplência. O número de procedimentos totalizou 151,6 mil no trimestre, também em retração, enquanto o ticket médio apresentou evolução positiva de 3,8% a/a e 5,7% t/t, atingindo R$10.076, refletindo tanto a inflação CMED quanto, principalmente, a política comercial mais seletiva da Companhia.

O faturamento líquido também foi impactado pela base de comparação distorcida devido a reversões de PCLD muito baixas no 3T24.

O EBITDA ajustado (excluindo efeito não caixa do PILP e operações hospitalares), apresentou boa evolução sequencial
no 3T25 (+30,4%), totalizando R$241,4 milhões. A margem EBITDA ajustada atingiu 17,1%, +4,5 p.p. t/t e redução de 1,8
p.p. a/a.

Esse resultado demonstra efetividade nas iniciativas de otimização operacional e comercial mesmo em contexto de desalavancagem operacional (menor base de receitas).

No acumulado dos nove meses, o EBITDA ajustado totalizou R$592,3 milhões, com margem de 13,6%, refletindo ainda o período inicial de implementação do plano estratégico de recuperação.

O resultado contábil do trimestre foi impactado por eventos não recorrentes e não caixa, totalizando aproximadamente R$1,8 bilhão. Os principais itens foram:

  • (i) provisão de R$864,9 milhões sobre a confissão de dívida com a Unimed FERJ, refletindo abordagem conservadora após a interrupção do atendimento;
  • (ii) baixas contábeis (write-offs) de R$466,2 milhões referentes aos hospitais HMM, UMC e HVS, cuja venda foi formalizada;
  • (iii) baixa de R$183,2 milhões em antecipações de aluguel relacionadas aos distratos de contratos BTS;
  • (iv) provisão (impairment) de R$67,0 milhões sobre contrato BTS de Belo Horizonte; e (v) provisão de R$217,0 milhões sobre CDBs mantidos junto ao Banco Master, devido ao rebaixamento de rating da instituição.

Esses eventos resultaram em prejuízo líquido contábil de R$1,9 bilhão no trimestre, embora sem reflexo significativo em caixa.

Fluxo de caixa

O fluxo de caixa operacional da Oncoclínicas apresentou recuperação no 3T25, atingindo R$246,4 milhões, em contraste com os R$196,1 milhões negativos do 2T25 e os R$198,3 milhões positivos do 3T24.

A geração operacional foi impulsionada por dois fatores principais:

(i) a melhora na rentabilidade recorrente, com expansão de 4,5 p.p. na margem EBITDA ajustada sequencialmente; e

(ii) a substancial melhora na dinâmica de capital de giro, com os dias de capital de giro reduzindo-se de 41 dias no 2T25 para 25 dias no 3T25, reflexo direto das iniciativas comerciais de melhora da carteira.

O prazo médio de contas a receber comprimiu-se de 96 dias no 2T25 para 88 dias no 3T25, enquanto o prazo de contas a pagar elevou-se de 75 para 79 dias, demonstrando melhor conversão de receitas em caixa e gestão mais eficiente do ciclo operacional.

No acumulado dos nove meses de 2025, o Fluxo de Caixa Operacional foi negativo em R$439,5 milhões, ainda refletindo o 1S25.

O fluxo de caixa livre (após capex, aluguel e pagamento de juros, mas antes de amortizações) foi positivo em R$62,4 milhões no 3T25, sinalizando que a operação voltou a gerar caixa após estratégias de desinvestimentos e ganhos de margem. O fluxo de caixa de financiamento apresentou saída líquida de R$193,3 milhões, incluindo pagamentos de juros de R$94,6 milhões e amortizações líquidas de dívida de R$133,3 milhões.

Perfil de endividamento

A dívida bruta ficou em R$4,4 bilhões, com a seguinte composição: debêntures R$ 2,3 bilhões (52,2% do total), CRIs R$ 1,5 bilhão (34,6%), CCB/Capital de Giro R$ 461,6 milhões (10,5%), e outros instrumentos totalizando R$ 114,7 milhões (2,7%).

O perfil de vencimentos apresenta concentração relevante no curto prazo, com R$ 910,1 milhões (20,8% do total), frente a um saldo de caixa de R$ 495 milhões; em 2027 há um pico de vencimento de R$1,2 bilhão. O custo da dívida permanece majoritariamente indexado ao CDI, com spreads variando entre CDI+1,16% a.a. até CDI+2,96% a.a..

Ainda não há informação disponível de como ficaria o cronograma de vencimento da dívida e o custo da dívida, mas espera-se menor pressão sobre o caixa nos anos seguintes.

A dívida líquida totalizou R$ 4,0 bilhões no 3T25, adicionando-se as Aquisições a Pagar de R$ 138,0 milhões, a Dívida Líquida Total atinge R$ 4,1 bilhões.

O Banco Safra destaca que esse montante está impactado pela provisão de R$ 217,0 milhões sobre CDBs mantidos junto ao Banco Master, evento não recorrente, mas que deteriorou a posição de liquidez no trimestre.

A alavancagem medida como (Dívida Líquida Financeira + Aquisições a Pagar) / EBITDA ajustado, atingiu 4,2x no 3T25, apresentando melhora de 0,2x na comparação sequencial (4,4x no 2T25), mas ainda em patamar elevado e acima do nível de 3,3x registrado no 1T25.

Considerando a capitalização recente, a dívida líquida pro-forma seria reduzida para R$ 2,9 bilhões, resultando em alavancagem pro-forma de 3,0x (considerando o EBITDA ajustado anualizado de R$ 965,4 milhões do 3T25), patamar mais confortável, mas ainda exigindo atenção contínua à geração de caixa e ao processo de desinvestimento dos ativos non-core para viabilizar a desalavancagem adicional.

A agenda “back to core” avançou substancialmente no trimestre, com vendas do HMM e UMC formalizadas, distrato de contratos BTS (São Paulo, Belo Horizonte e renegociação de Goiânia), e venda do HVS (evento subsequente), movimentos que devem liberar caixa e eliminar o arrasto de R$25,6 milhões de EBITDA negativo das operações hospitalares, contribuindo para a melhora do perfil de crédito nos próximos trimestres.

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