Três em cada dez brasileiras investem e buscam algo além da poupança
Dados da Anbima mostram crescimento da diversificação entre as investidoras, com maior busca por retorno, embora a reserva de emergência ainda seja um desafio estrutural
06/03/2026 3 minutos
Participação feminina no mercado financeiro cresce com a diversificação de produtos, segundo o Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima. | Foto: Getty Images
A presença da mulher no mercado de investimentos no Brasil vem ganhando densidade e sofisticação. Embora a caderneta de poupança ainda concentre aplicações de 69% das investidoras, sua relevância vem diminuindo de forma consistente.
Desde 2021, o produto perdeu 14 pontos percentuais de participação entre as mulheres, segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, estudo conduzido pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha.
O movimento reflete uma mudança gradual de comportamento, marcada pelo avanço da diversificação e pelo interesse crescente em ativos com maior potencial de retorno. Hoje, 31% das mulheres brasileiras são investidoras — um contingente que passa a explorar alternativas além da tradicional poupança.
Diversificação ganha espaço entre as investidoras
Entre as mulheres que investem, os títulos privados já alcançam 16% de participação, um crescimento de nove pontos percentuais nos últimos cinco anos. Os fundos de investimento aparecem em seguida, com 10% de adesão, quatro pontos percentuais acima do registrado em 2021.
Outros produtos também avançam, ainda que em patamares menores: moedas digitais são utilizadas por 7% das investidoras, enquanto previdência privada (5%), Tesouro Direto (4%), ações (3%) e moedas estrangeiras (3%) completam o portfólio mais comum.
Do medo de arriscar à busca por ganhos reais
Essa transição revela um equilíbrio cada vez mais consciente entre segurança e rentabilidade. De um lado, a poupança segue valorizada pela liquidez imediata e pela percepção de baixo risco. De outro, ativos como fundos, títulos e ações ganham espaço ao oferecer proteção contra a inflação e perspectivas de ganhos superiores no longo prazo.
De acordo com o estudo, 31% das investidoras apontam o retorno financeiro como a principal vantagem de investir, enquanto 27% priorizam a segurança. “O medo de arriscar está sendo substituído, aos poucos, por uma busca mais racional por proteção do poder de compra”, afirma Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima.
Segundo ele, a redução dos valores mínimos de aplicação, a expansão das plataformas digitais, a inclusão financeira promovida por bancos digitais e a maior circulação de informação contribuíram para democratizar o acesso aos investimentos.
Reserva de emergência ainda limita avanço
Apesar do progresso na diversificação, a construção da reserva de emergência permanece como o principal gargalo para a consolidação da educação financeira feminina. Hoje, 13% das mulheres investidoras não possuem qualquer reserva.
O custo de vida aparece como o maior obstáculo: 27% das investidoras afirmam gastar mais do que ganham mensalmente, enquanto 47% vivem no chamado “zero a zero”, com despesas equivalentes à renda. Esse desequilíbrio compromete a capacidade de poupança e restringe a entrada em produtos de maior prazo.
Baixa resiliência financeira preocupa
A pesquisa revela que apenas 36% das mulheres investidoras contam com uma reserva suficiente para seis meses ou mais. Quando consideradas também as mulheres que não investem, o cenário é ainda mais desafiador: apenas 20% possuem um colchão financeiro capaz de sustentar esse período.
O dado evidencia que, apesar dos avanços na diversificação e no acesso ao mercado financeiro, a resiliência financeira feminina ainda demanda políticas de educação, planejamento e estímulo à organização do orçamento.
Um retrato amplo do investidor brasileiro
Em sua 9ª edição, o Raio X do Investidor Brasileiro consolida-se como o maior estudo sobre comportamento financeiro no país. A pesquisa ouviu 5.832 pessoas com 16 anos ou mais, em todas as regiões do Brasil, entre 4 e 21 de novembro de 2025, com margem de erro de um ponto percentual.
Os dados reforçam que o avanço das mulheres no mundo dos investimentos é um processo em curso — mais informado, diversificado e estratégico, ainda que marcado por desafios estruturais que precisam ser superados para sustentar esse crescimento no longo prazo.
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