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Mineração tem novo ciclo de investimentos puxado por minerais críticos

Com perspectiva de até US$ 80 bilhões em aportes nos próximos anos, setor combina potencial de expansão em cobre, níquel e terras raras com entraves regulatórios, dependência tecnológica da China e pressão sobre custos

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Mineração

Avanço dos projetos de cobre, níquel e terras raras recoloca a mineração brasileira no radar global, em meio à corrida por minerais estratégicos para a transição energética | Foto: Getty Images

O setor de mineração brasileiro ingressa em um novo ciclo de investimentos, sustentado sobretudo pelo avanço dos chamados minerais críticos, em um movimento que reforça o papel estratégico do país na cadeia global da transição energética.

A avaliação foi apresentada por Rinaldo Mancin, diretor de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), em videoconferência realizada na terça-feira (24) com especialistas em investimentos do Banco Safra.

A leitura é construtiva para o médio e longo prazos. A expectativa é de que a mineração atraia cerca de US$ 80 bilhões em investimentos nos próximos anos, dos quais entre US$ 13 bilhões e US$ 15 bilhões seriam destinados especificamente ao segmento de terras raras.

Embora o minério de ferro continue como principal eixo da produção nacional, o crescimento de projetos ligados a cobre, níquel e terras raras amplia a relevância do Brasil em um mercado cada vez mais orientado pelas demandas da eletrificação, da descarbonização e da segurança de suprimento industrial.

Minerais críticos ampliam relevância estratégica do Brasil

A nova rodada de investimentos reflete uma inflexão estrutural no setor. Se, historicamente, a mineração brasileira se apoiou majoritariamente no minério de ferro, agora a expansão de minerais associados à transição energética passa a ocupar posição mais central na tese de crescimento.

Cobre, níquel e terras raras ganham espaço

O avanço desses minerais decorre da reorganização das cadeias globais de produção, em especial nos setores de energia renovável, veículos elétricos, baterias e equipamentos de alta tecnologia. Nesse contexto, o Brasil reúne vantagens competitivas importantes por sua base geológica e pela possibilidade de ampliar oferta em segmentos considerados estratégicos pelas grandes economias.

Ainda assim, a captura de valor permanece limitada em alguns elos mais sofisticados da cadeia. No caso das terras raras, por exemplo, o refino e o processamento seguem amplamente concentrados na China, tanto em capacidade instalada quanto em propriedade intelectual.

Essa concentração cria uma dependência estrutural para países produtores de minério, como o Brasil, que ainda não consolidou uma resposta industrial capaz de reduzir essa vulnerabilidade.

Ambiente regulatório mistura incentivos e pressões sobre custos

O quadro doméstico combina avanços institucionais com incertezas regulatórias. De um lado, a agenda legislativa tem buscado criar instrumentos para estimular o desenvolvimento dos minerais críticos. De outro, propostas tributárias e ambientais seguem impondo dúvidas sobre a competitividade futura do setor.

Marco legal favorece investimentos

A Lei nº 2780, segundo a avaliação apresentada no encontro, estabelece um marco relevante de política nacional para minerais críticos. Entre os mecanismos de incentivo estão a depreciação acelerada e a isenção de imposto de importação para determinados equipamentos e insumos, medidas que tendem a melhorar a atratividade econômica de novos projetos e a facilitar a implantação de ativos intensivos em capital.

Tributação e regulação trabalhista seguem no radar

Em sentido oposto, novas taxas ambientais propostas e o chamado imposto seletivo permanecem como focos recorrentes de pressão sobre a estrutura de custos das mineradoras. Para um setor de alta intensidade de capital, em que prazos de maturação são longos e o retorno depende de previsibilidade regulatória, esse tipo de incerteza pode afetar o ritmo de decisão de investimento.

A regulação trabalhista também aparece como ponto de atenção, sobretudo nas operações de mineração subterrânea. Na visão do IBRAM, há espaço para evolução das regras em direção a referências internacionais observadas em mercados como Canadá e Austrália, o que poderia destravar eficiência e gerar valor adicional para a indústria.

Outro tema sensível é a modernização da chamada legislação de cavidades, considerada especialmente relevante para a Vale em Carajás. Segundo a avaliação compartilhada na videoconferência, o assunto permanece paralisado e a expectativa é de poucas novidades ao longo de 2026.

Geopolítica abre oportunidades, mas avanço deve ser gradual

A reorganização geopolítica das cadeias de minerais críticos cria uma janela de oportunidade para o Brasil, especialmente em um contexto de busca por diversificação de fornecedores fora da órbita chinesa. Ainda assim, a evolução dessa agenda depende de acordos comerciais, garantias de demanda e transferência tecnológica.

Brasil busca capturar mais valor na cadeia

Entre os modelos observados pelo setor, ganhou destaque o mecanismo de piso de preços entre Estados Unidos e Austrália, visto como uma referência para arranjos transfronteiriços em minerais críticos.

As conversas em andamento com os Estados Unidos indicam a possibilidade de um memorando de entendimento que poderia estender ao Brasil instrumentos semelhantes, incluindo pisos de preços e caminhos para cooperação tecnológica.

A posição brasileira é considerada favorável do ponto de vista geológico e estratégico. No entanto, o país adota uma postura cautelosa, buscando estruturar acordos de offtake e mecanismos que assegurem criação de valor doméstico, e não apenas a exportação de recursos em estágio primário.

Na prática, isso significa que, embora a oportunidade esteja aberta, a entrada de uma nova oferta relevante ainda deve se concentrar em torno de 2028, refletindo tanto a complexidade de implantação dos projetos quanto a necessidade de amadurecimento institucional e comercial.

M&A acelera e interesse chinês se destaca

O movimento de fusões e aquisições também começa a ganhar tração no setor, em especial com o avanço de grupos chineses sobre ativos já desenvolvidos ou em estágio mais maduro. Esse processo reforça a percepção de que a mineração brasileira volta a ocupar posição central no mapa global de recursos estratégicos.

As aquisições das operações de níquel da Anglo pela MMG e da CBA pela Chinalco foram citadas como exemplos desse movimento. No segmento de terras raras, porém, a entrada de grandes players ainda é limitada, o que reduz, por ora, o apetite por companhias menores e projetos menos escaláveis.

Além disso, foi discutida a possibilidade de consolidação no minério de ferro, incluindo aquisições de participações de controle ou posições minoritárias em empresas listadas sob cobertura do mercado. Para investidores, esse vetor adiciona uma camada relevante à tese do setor, ao combinar expansão orgânica com potencial de reorganização societária.

Perspectiva para investidores é positiva, mas execução será decisiva

A avaliação consolidada é que o setor de mineração no Brasil vive uma inflexão positiva, apoiada pela demanda global por minerais críticos e pela posição estratégica do país em reservas relevantes. Para o investidor, o quadro sugere uma oportunidade de exposição a um ciclo de longo prazo com fundamentos estruturais sólidos.

Ao mesmo tempo, a velocidade de captura desse potencial dependerá da capacidade de o Brasil reduzir gargalos regulatórios, ampliar instrumentos de financiamento, avançar em processamento industrial e negociar de forma eficiente sua inserção geopolítica nas cadeias globais. Em outras palavras, a tese é promissora, mas a execução seguirá como principal variável de diferenciação entre expectativa e entrega.

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