Meta avança na IA, mas mercado cobra novas receitas
Apesar do crescimento robusto de receita e rentabilidade, investidores reagiram negativamente à ausência de evidências mais tangíveis de geração de receitas nas novas frentes de inteligência artificial
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Sede da Meta: companhia acelerou investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, mas o mercado segue aguardando provas concretas de monetização das novas iniciativas | Foto: Getty Images
A Meta (META) apresentou resultados sólidos no segundo trimestre de 2026, mas a reação do mercado foi negativa. As ações da companhia recuaram cerca de 8% no after-market após a divulgação do balanço, refletindo preocupações dos investidores com o aumento dos investimentos em inteligência artificial (IA), a elevação das despesas projetadas para o ano e a ausência de novas evidências concretas de monetização das iniciativas ligadas à tecnologia.
Na avaliação de Guilherme Bellizzi, analista do Banco Safra, o movimento das ações parece exagerado diante da qualidade operacional dos números reportados. Ainda assim, o resultado reforçou uma das principais teses dos investidores mais céticos: a de que a companhia continua acelerando investimentos antes de comprovar retornos financeiros proporcionais.
A receita da Meta alcançou US$ 60,8 bilhões no período, alta de 28% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, enquanto o EBIT ajustado avançou 9%, para US$ 22,4 bilhões. Os números ficaram próximos das estimativas do Safra e superaram as expectativas do mercado em rentabilidade.
Mercado reage ao aumento de despesas e ao guidance conservador
O principal fator por trás da queda das ações foi a combinação entre um guidance de receita para o terceiro trimestre abaixo das expectativas no ponto médio da faixa e uma revisão para cima dos gastos previstos para 2026.
A companhia projetou receita entre US$ 61 bilhões e US$ 64 bilhões para o terceiro trimestre, enquanto elevou sua estimativa de despesas anuais para uma faixa entre US$ 165 bilhões e US$ 169 bilhões.
Embora a administração tenha apresentado diversas avenidas potenciais de monetização da IA — incluindo APIs corporativas, agentes de negócios, modelos de precificação baseados em resultados e venda de capacidade computacional —, não foram divulgados contratos relevantes, receitas geradas ou cronogramas claros de implementação.
Para Bellizzi, a ausência desses elementos manteve parte dos investidores em compasso de espera.
Crescimento segue forte no negócio principal
O desempenho operacional, por outro lado, continua demonstrando força.
A receita publicitária atingiu US$ 59,4 bilhões, crescimento de 27% na comparação anual. O avanço foi impulsionado tanto pelo aumento de volume quanto pela melhora de preços.
As impressões de anúncios cresceram 14% em todas as regiões geográficas, enquanto o preço médio por anúncio avançou 12%.
Outro destaque foi a aceleração do crescimento na América do Norte, considerada uma das regiões mais importantes para a rentabilidade da empresa. A receita local cresceu 31,6% no trimestre, acima dos 29,4% registrados no primeiro trimestre de 2026.
Além disso:
- O Instagram superou a marca de 2 bilhões de usuários ativos diários.
- O Threads ultrapassou 500 milhões de usuários ativos mensais.
- A base de usuários ativos diários dos aplicativos da companhia alcançou 3,6 bilhões de pessoas.
IA já melhora engajamento e publicidade
Se a monetização das novas frentes ainda é limitada, os impactos da IA sobre o negócio principal já são visíveis.
A Meta informou que seus sistemas de recomendação baseados em modelos de linguagem continuam elevando o engajamento dos usuários e melhorando a eficiência dos anúncios.
O tempo gasto no Instagram cresceu em ritmo de dois dígitos globalmente, impulsionado pelas melhorias em Feed e Reels. No Facebook, o tempo de visualização de vídeos avançou 9%.
A empresa também revelou resultados relevantes de seus novos modelos de recomendação publicitária.
O Meta Generative Recommender, combinado ao modelo GEM, aumentou:
- Os cliques em anúncios em 8,3%.
- As conversões em 15,7%.
O Advantage+, principal plataforma automatizada de publicidade da companhia, já opera em um ritmo anualizado superior a US$ 75 bilhões em receita.
Além disso, cerca de 9 milhões de pequenas e médias empresas utilizam pelo menos uma ferramenta de criação baseada em IA generativa dentro do ecossistema da Meta.
As quatro apostas para monetizar inteligência artificial
Um dos principais pontos destacados pelo Safra foi a maior clareza estratégica apresentada pela administração durante a teleconferência de resultados.
Segundo a análise, a Meta estruturou sua estratégia de monetização da IA em quatro pilares principais.
1. Publicidade impulsionada por IA
Trata-se da frente mais madura e aquela que já gera resultados financeiros concretos.
A empresa continua utilizando IA para melhorar recomendações, segmentação e eficiência dos anúncios, ampliando a monetização da base de usuários existente.
2. IA para consumidores
A adoção do Meta AI segue acelerando.
As interações diárias cresceram 60% após a integração do Muse Spark. A companhia também lançou o Meta One e prepara novos modelos de assinatura para consumidores.
Os óculos inteligentes com recursos de IA também vêm registrando desempenho superior às expectativas iniciais da administração.
3. Software corporativo
A Meta vem ampliando sua atuação junto a empresas por meio de APIs, agentes inteligentes e soluções corporativas.
A Model API já está disponível comercialmente, enquanto os agentes de negócios foram lançados globalmente no WhatsApp e Messenger.
Mais de 1 milhão de empresas utilizam essas ferramentas semanalmente.
Um dos exemplos citados foi a Movida, no Brasil. Segundo a companhia, a integração de agentes de IA ao WhatsApp permitiu realizar todo o processo de locação de veículos dentro do aplicativo, elevando as reservas diárias em 44%, com 85% dos atendimentos resolvidos integralmente pela inteligência artificial.
4. Infraestrutura computacional
A venda de capacidade computacional é vista como a maior oportunidade potencial de longo prazo, mas também a menos desenvolvida comercialmente.
A administração afirmou já ter recebido propostas para aquisição de capacidade computacional acima de seus custos internos de produção. No entanto, não divulgou clientes, contratos ou projeções de receita associadas a essa atividade.
A visão da empresa é que monetizar aplicações construídas sobre essa infraestrutura — como publicidade, APIs e software corporativo — tende a gerar retornos superiores à simples venda de capacidade computacional.
Investimentos seguem acelerados
Outro tema central da discussão foi a estratégia de infraestrutura.
A Meta reiterou que continua limitada pela disponibilidade de capacidade computacional e que essa restrição deverá persistir nos próximos anos.
O capex do trimestre atingiu US$ 31,1 bilhões, enquanto o guidance para 2026 foi ajustado para uma faixa entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões.
A companhia informou que segue priorizando investimentos em terrenos, energia e conectividade de rede, preservando flexibilidade para adaptar a expansão de servidores conforme a evolução da demanda por IA.
O fluxo de caixa livre caiu para US$ 784 milhões, reflexo direto do ciclo de investimentos mais intenso. Os programas de recompra de ações permaneceram suspensos pelo segundo trimestre consecutivo.
O que muda para os investidores
A principal conclusão do Safra é que o trimestre não trouxe novas evidências concretas de monetização das iniciativas de IA fora do negócio publicitário, justificando parte da cautela do mercado.
Por outro lado, a empresa apresentou um roteiro muito mais estruturado para transformar seus investimentos em novas fontes de receita ao longo dos próximos anos.
A avaliação do banco é que o mercado continua excessivamente focado no aumento dos gastos e subestimando o potencial de retorno da estratégia. O crescimento acelerado das receitas na América do Norte, a evolução dos produtos de IA e o fortalecimento do negócio principal sugerem que a tese de investimento permanece intacta.
Com recomendação de “Outperform”, o Safra mantém preço-alvo de US$ 835 para as ações da Meta, o que implica potencial de valorização de aproximadamente 42,6% em relação ao preço de mercado considerado no relatório.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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