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Mercado de capitais bate recorde, mas debêntures desaceleram

Volume de emissões alcança R$ 181,2 bilhões entre abril e junho, sustentado por FIDCs, notas comerciais e instrumentos ligados ao agronegócio; retração das debêntures limita oferta de ativos tradicionalmente associados à geração de renda recorrente

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Mercado de capitais

Mercado de capitais brasileiro movimentou R$ 181,2 bilhões em emissões primárias no segundo trimestre de 2026, com avanço de FIDCs e notas comerciais compensando a retração das debêntures, segundo dados da Anbima compilados pelo Banco Safra | Foto: Getty Images

O mercado de capitais brasileiro encerrou o segundo trimestre de 2026 com um novo recorde de atividade, mas trouxe um sinal de alerta para investidores em busca de renda. Segundo levantamento da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), as emissões primárias somaram R$ 181,2 bilhões entre abril e junho, praticamente estáveis em relação aos R$ 180,6 bilhões do trimestre anterior, mas sustentadas por uma composição diferente da observada nos últimos anos.

Enquanto instrumentos como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), notas comerciais e CPR-Fs ampliaram participação, as emissões de debêntures — principal fonte de financiamento corporativo de longo prazo e importante veículo para geração de renda aos investidores — perderam força.

As debêntures incentivadas movimentaram R$ 21 bilhões no período, com queda de 29% na comparação anual e de 51% frente ao primeiro trimestre. Já as debêntures corporativas não incentivadas totalizaram R$ 20,1 bilhões, recuando 18% em relação ao mesmo período de 2025.

O movimento ocorre após dois anos de forte expansão desse mercado e reflete um ambiente ainda marcado por juros elevados, que tem alterado as decisões de captação das empresas e a dinâmica da renda fixa privada, segundo a análise dos especialistas em investimentos do Banco Safra.

FIDCs e notas comerciais lideram crescimento das emissões

Os dados mostram que a resiliência do mercado de capitais no trimestre foi sustentada por instrumentos alternativos de financiamento.

Os FIDCs registraram expansão de R$ 10,3 bilhões em relação ao trimestre anterior, enquanto as notas comerciais avançaram R$ 9 bilhões. As CPR-Fs, amplamente utilizadas pelo setor agropecuário, acrescentaram R$ 7,7 bilhões ao volume emitido.

Esses avanços compensaram a retração observada em segmentos tradicionalmente mais relevantes para investidores de alta renda, como as debêntures e as ofertas subsequentes de ações (follow-ons), que registraram redução de R$ 5 bilhões no período.

Como resultado, o mercado manteve um nível historicamente elevado de atividade, mesmo diante da mudança no perfil das emissões.

Debêntures entram em fase de acomodação

A desaceleração das debêntures marca uma inflexão após o ciclo de forte crescimento observado em 2024 e 2025.

No acumulado do primeiro semestre de 2026, as emissões desses papéis somaram R$ 170 bilhões, volume 12% inferior ao registrado no mesmo período de 2025 e 18% abaixo do observado em 2024.

Segundo a análise do Safra, o movimento não indica deterioração estrutural do mercado, mas sim um processo de acomodação após dois anos excepcionais de captação corporativa.

A elevada taxa de juros também reduz o incentivo para novas emissões de longo prazo, especialmente em operações de infraestrutura e expansão empresarial, ao mesmo tempo em que aumenta o custo de carregamento para os emissores.

Perfil das emissões mostra preferência por CDI

Entre as debêntures emitidas no trimestre, 59% estavam indexadas ao CDI mais spread, enquanto 24% utilizaram o IPCA como referência. Outros indexadores responderam por 17% das operações.

O perfil de garantias permaneceu conservador: 72% das emissões foram quirografárias e 28% contaram com garantias reais.

Nas debêntures corporativas, a principal destinação dos recursos foi gestão ordinária das empresas, com 29% do volume emitido. O pagamento de dívidas respondeu por 15%, enquanto projetos de infraestrutura representaram apenas 6%.

Impacto para investidores de alta renda

Para investidores com foco em geração de renda recorrente, a redução das emissões de debêntures tem implicações relevantes, destacam os especialistas do Banco Safra.

Além de diminuir a oferta de novos papéis no mercado primário, o movimento pode reduzir oportunidades de alocação em ativos que tradicionalmente oferecem prêmios atrativos sobre títulos públicos e instrumentos bancários.

As debêntures incentivadas, em particular, ocupam posição estratégica em carteiras de alta renda por combinarem potencial de retorno real com isenção de imposto de renda para pessoas físicas. A queda de 51% nas emissões trimestrais tende a aumentar a disputa por ativos de qualidade disponíveis no mercado.

Ao mesmo tempo, o crescimento dos FIDCs e de instrumentos estruturados amplia o leque de alternativas para investidores sofisticados, embora frequentemente com estruturas mais complexas e exigência maior de análise de risco.

Mercado segue robusto apesar da mudança de composição

Mesmo com a retração das debêntures, os números indicam que o mercado de capitais brasileiro permanece em patamar historicamente elevado.

A renda fixa continuou predominando, respondendo por cerca de 80% das emissões totais no trimestre. O segmento corporativo manteve liderança entre os setores emissores, representando mais da metade das operações realizadas.

Na avaliação do Safra, a combinação entre diversificação dos instrumentos de financiamento e crescimento do estoque de crédito corporativo sugere que empresas continuam encontrando alternativas para acessar recursos, ainda que em condições diferentes das observadas durante o ciclo mais intenso de emissões dos últimos anos.

Para o investidor, o cenário reforça a importância de olhar além do volume recorde de captações e acompanhar a qualidade e a composição das emissões, fatores que tendem a influenciar diretamente as oportunidades de retorno e geração de renda nos próximos trimestres.

Cley Scholz

Editor do portal O Especialista. LinkedIn

Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.

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