Mercado de capitais tem B3 em destaque no 1T26, BTG resiliente e XP sob pressão
Análise prévia dos balanços do mercado de capitais no primeiro trimestre de 2026 indica desempenho misto entre os principais nomes ligados ao mercado de capitais
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Movimento de capitais no início de 2026 foi sustentado sobretudo por fluxo estrangeiro para renda variável, enquanto o mercado de dívida desacelerou e reduziu a visibilidade para bancos de investimento e plataformas de investimentos | Foto: Getty Images
A prévia do Banco Safra para os resultados do primeiro trimestre de 2026 sugere um cenário heterogêneo para as instituições expostas ao mercado de capitais. De um lado, a atividade em renda variável voltou a mostrar alguma recuperação no período. De outro, a retomada ocorreu de forma concentrada no investidor estrangeiro, sem participação equivalente de pessoas físicas e investidores institucionais locais, o que limita a qualidade e a sustentabilidade desse movimento.
Ao mesmo tempo, a escalada recente das tensões geopolíticas interrompeu o ritmo das emissões no mercado de dívida corporativa. Março, tradicionalmente o mês mais relevante do trimestre para DCM (Debt Capital Markets), entrou em compasso de espera. A mesma deterioração de ambiente também fechou a curta janela de emissões em ECM (Equity Capital Markets) observada no começo do ano.
Nesse contexto, a B3 (B3SA3) tende a surgir como o principal destaque do trimestre, beneficiada por uma composição de receitas mais defensiva diante da desaceleração em segmentos específicos de mercado. Entre os bancos e plataformas cobertos, o quadro projetado é de maior resiliência para o BTG Pactual (BPAC11) e de desempenho mais pressionado para a XP (XPBR31).
BTG deve combinar crescimento anual forte com melhora de eficiência
Para o BTG Pactual, cuja divulgação está prevista para 12 de maio de 2026, antes da abertura do mercado, o Safra estima um trimestre ainda sólido, apesar de alguma perda de fôlego na comparação sequencial.
A projeção é de crescimento de 29% na receita total em base anual, com queda de 3% frente ao trimestre anterior. O desempenho deve ser sustentado principalmente pelas áreas de investment banking (IB) e sales and trading (S&T), ainda que a desaceleração do pipeline de ofertas em março tenha reduzido a intensidade da atividade no fim do período.
Segundo a leitura do banco, os dois primeiros meses do trimestre foram suficientemente fortes para preservar um bom resultado em IB, especialmente diante de uma base de comparação fraca no primeiro trimestre de 2025. A expectativa é de alta de 42% em IB na comparação anual, embora com recuo de 22% em relação ao trimestre imediatamente anterior.
Diversificação segue como principal amortecedor
A diversificação do BTG deve continuar funcionando como elemento central de proteção operacional. O Safra projeta que Corporate Lending mantenha crescimento de 20% ano contra ano, enquanto Wealth Management e Consumer Finance devem entregar contribuições consistentes.
Esse desenho ajuda a compensar eventuais sinais de enfraquecimento em linhas mais sensíveis ao humor de mercado. Também deve favorecer a dinâmica de custos: a expectativa é de queda de 5% nas despesas operacionais na comparação trimestral, em razão da sazonalidade e do menor peso relativo de áreas mais voláteis como IB (Investment Banking) e S&T (Sales and Trading) no mix de receitas.
Com isso, o banco projeta melhora de 60 pontos-base no índice de eficiência, além de lucro líquido de R$ 4,392 bilhões, o que representaria alta de 30% na comparação anual, com ROE de 24,5%.
XP deve sentir mais a desaceleração em DCM e o efeito do crédito
Para a XP, cuja data de divulgação ainda estava indefinida no material, o cenário traçado pelo Safra é menos favorável. A instituição deve apresentar crescimento de 8% na receita líquida em base anual, abaixo do ritmo observado em trimestres anteriores e acompanhado por pressões relevantes em diferentes linhas de negócio.
A avaliação do banco é que a XP foi mais exposta à desaceleração do mercado de dívida, segundo dados da Anbima, o que atingiu principalmente as receitas ligadas a investment banking, corporate e renda fixa. Além disso, a abertura recente dos spreads de crédito deve ter gerado impactos negativos de marcação a mercado ao longo do trimestre.
Varejo ajuda, mas não compensa fraqueza nas linhas mais sensíveis ao mercado
No varejo, a expectativa é de crescimento de 10% em base anual, puxado sobretudo por receitas de investimentos não core, como cartões, previdência e seguros, além do efeito positivo relacionado ao desmonte da estrutura de fundos offshore conhecida como Coliseu.
Ainda assim, esse suporte não deve ser suficiente para neutralizar a piora em renda fixa e mercado de capitais. O Safra projeta para a XP queda de 5% na receita de renda fixa em relação ao trimestre anterior e recuo de 12% na comparação anual, reflexo de um mix menos favorável e da abertura dos spreads de crédito.
Nas linhas de corporate e serviços a emissores, o impacto combinado da menor atividade em DCM e do ambiente de crédito mais desafiador deve resultar em queda de 27% frente ao trimestre anterior.
A estimativa de captação líquida de varejo (NNM) é de R$ 19,5 bilhões, desconsiderando entradas extraordinárias associadas aos pagamentos do FGC registrados no período.
Lucro da XP deve ficar estável, mas rentabilidade perde tração
Do lado das despesas, a expectativa é de algum alívio. O Safra projeta queda de 11% nas despesas operacionais na comparação trimestral, em linha com a desaceleração dos investimentos diante de um crescimento de receita mais fraco.
Mesmo assim, o resultado operacional deve mostrar perda de dinamismo. A projeção é de queda de 8% no EBT frente ao trimestre anterior, para R$ 1,425 bilhão. Já o lucro líquido deve ficar praticamente estável em R$ 1,344 bilhão, beneficiado por uma alíquota efetiva menor. O movimento implicaria ROE de 22,2%.
Leitura para o investidor: trimestre reforça diferença entre modelos de negócio
A prévia do Safra reforça uma distinção importante entre os modelos de negócio expostos ao mercado de capitais no Brasil. Em um trimestre marcado por recuperação parcial em ações, retração em dívida corporativa e piora nas condições de crédito, instituições mais diversificadas tendem a atravessar melhor a volatilidade.
Esse é o caso do BTG, cuja combinação entre franquias de mercado, crédito, gestão de fortunas e varejo bancário deve sustentar resultados ainda robustos. Já a XP, mais sensível à atividade de distribuição, renda fixa e serviços associados ao mercado primário, parece mais vulnerável a uma desaceleração sincronizada em várias frentes.
Para o investidor, o pano de fundo do 1T26 sugere que a direção dos resultados não dependerá apenas do nível de atividade em mercado de capitais, mas da capacidade de cada instituição de equilibrar receitas voláteis com fontes mais recorrentes e menos expostas à janela de mercado.
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