Como escolher os melhores fundos de investimentos do mercado?
O economista William Eid, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV/SP, explica os critérios para eleger anualmente os melhores fundos de investimentos do Brasil
30/10/2025 4 minutos
Safra Asset ficou em primeiro lugar entre as grandes gestoras do Brasil para o segmento de alta renda | Foto: Getty Images
Há três décadas o Guia de Fundos elege os melhores fundos de investimento do Brasil em diferentes segmentos. Na edição de 2025, a Safra Asset ficou em primeiro lugar entre as grandes gestoras do Brasil para o segmento de alta renda.
Para eleger os melhores fundos, o Centro de Estudos em Finanças da FGV/SP considera critérios como o risco e o retorno do investimento, mas outros fatores entram na equação. Na entrevista a seguir, o economista William Eid, da FGV, explica como é feita a avaliação dos fundos e a importância da divulgação.
“O investidor precisa de informação imparcial na hora de investir, e o Guia de Fundos fornece informações confiáveis para que os interessados possam fazer as melhores escolhas”, destaca o doutor em Administração de Empresas pela FGV e sócio fundador da Sociedade Brasileira de Finanças, que coordena o centro de estudos em finanças da FGV.
O especialista analisa o atual cenário para investimentos e prevê mudanças no perfil dos fundos quando os juros começarem a cair no Brasil.

Qual a importância da escolha dos melhores fundos de investimento realizado anualmente pela FGV/SP?
O Guia de Fundos da FVG é importante porque o investidor precisa de uma informação imparcial na hora de escolher seus produtos de investimento. E a Fundação Getúlio Vargas é imparcial. Ela não gerencia fundos e não tem nenhuma empresa financeira associada. Nós fazemos esse ranking há muitos anos. Ele começou há 30 anos, e a FVG é responsável pela avaliação e escolha há 26 anos, sempre com a preocupação de absoluta independência. Sempre procurando usar as melhores técnicas para avaliar os fundos de investimento, o que permite ao investidor ter acesso a uma informação bastante confiável.
Quais os critérios de escolha dos melhores fundos de investimento do Brasil?
Entre os critérios está a visão de longo prazo. Consideramos três anos de desempenho dos fundos para avaliá-los. Os critérios são basicamente três para o que nós chamamos fundos ativos, ou seja, aqueles que buscam mais retorno. Utilizamos uma ferramenta consagrada mundialmente que se chama índice de Sharpe, métrica criada pelo Nobel de Economia William Sharpe para avaliar a relação entre o risco e o retorno de um investimento.
Para os fundos indexados nós usamos uma medida que nós criamos, que se chama índice de aderência. Trata-se de uma composição entre tracking error e retorno. O tracking error é uma medida de quanto o fundo acompanha a sua referência, ou seja, o seu benchmarking (análise comparativa de concorrentes).
Para os fundos de money market (que investem em títulos de dívida de curto prazo, de alta liquidez e baixo risco), os antigos fundos DI, usamos na avaliação o retorno simples.
Como avalia o atual estágio da indústria de fundos de investimentos?
Estou na indústria de fundos há muitos anos, e considero que ela progrediu bastante. Mas, ainda acho que falta um caminho imenso. E o mais importante é conversar mais com investidor. A nomenclatura dos fundos ainda é complexa, e a maior parte dos investidores não entende o que está naqueles nomes, não sabe exatamente o que estão comprando. Então nós precisamos melhorar isso. Hoje os produtos são mais e mais sofisticados, e em grande parte atendem a demanda dos investidores. Tanto que nós temos milhões e milhões de cotistas nessa indústria.
E qual a situação no Brasil?
O mercado brasileiro tem evoluído pouco em termos de educação financeira. Tenho acompanhado isso desde o final dos anos 90, e sempre fui referência em finanças pessoais no Brasil. Não vejo grande evolução. Não há uma melhoria na educação financeira, e o brasileiro continua buscando ganho de curtíssimo prazo e quer ficar rico logo. O sonho da maioria é ganhar na loteria, não existe uma cultura de disciplina de investimento. As pessoas dificilmente conseguem separar uma parte do que ganham para investir. E não estou falando só daquela pessoa que tem dificuldades financeiras, mas de todo mundo eu conheço. Muita gente bem de vida, médicos e advogados, que chegam aos 65 anos e não têm dinheiro guardado. O brasileiro tem um consumismo exacerbado, ele precisa mostrar pro vizinho que ele tem mais.
Como estamos em comparação a outros países?
Já morei na França e hoje moro em Portugal e eu vejo uma diferença brutal nesse sentido. Isso é um problema de educação financeira típico. Mesmo os programas que foram desenvolvidos junto aos jovens não funcionam. Fizemos uma pesquisa nos 10 anos no Centro de Estudos de Finanças da FGV e o resultado mostrou que o jovem quer uma informação just in time e curtíssima, no padrão Twitter. Não adianta dar um livro pra ele ler porque ele não lê. Então isso é um grande problema que dificulta educar financeiramente a população.
Com a queda dos juros, esperada para 2026, o que deve mudar no mundo dos investimentos no Brasil?
Se os juros efetivamente vierem a cair, e se o Brasil conseguir resolver todos os problemas fiscais e a Selic cair bastante, voltaremos à mesma situação de alguns anos atrás: a indústria de fundos de investimentos vai ter que se virar nos 30 pra ganhar dinheiro para os clientes. Hoje, com a Selic a 15%, é muito ganhar dinheiro. Você aplica em renda fixa e vai dormir. Mas, quando os juros caem para 4% ou 5% ao ano com uma inflação de 3% ou 4%, fica mais difícil alcançar ganho real (acima da inflação).
Vamos ter uma corrida para maior risco como já temos hoje com esses fundos de crédito. Mas isso deve aumentar. Espero que não se inventem produtos muito complexos, pois o brasileiro tem dificuldade de entendê-los e muitas vezes perde dinheiro neles. Uma queda pequena dos juros não muda muita coisa, mas, se houver uma queda grande de juros, vamos ter uma mudança no perfil dos produtos ofertados ao cliente. Vamos ter de procurar mais fundos multimercados com estratégias mais consistentes que tragam um ganho para os investidores.
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