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Leilão da Rota das Gerais destrava valor de ações de concessionárias

Marcado para 31 de março, o leilão da concessão federal de 735 km em Minas Gerais combina escala, potencial de retorno e sinergias operacionais, favorecendo grupos já posicionados no corredor logístico e ampliando o apelo do ativo para investidores

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Rota das Gerais

Concessão federal abrange 735 quilômetros das BRs 116 e 251, em um corredor logístico estratégico que conecta o norte de Minas Gerais à Bahia | Foto: Getty Images

O leilão da rodovia Rota das Gerais, agendado para 31 de março, com entrega de propostas prevista para 26 de março, deve recolocar o setor de concessões rodoviárias no centro da atenção do mercado.

A avaliação de especialistas em investimentos do Banco Safra indica que o projeto reúne características capazes de favorecer a geração de valor para companhias listadas, em especial aquelas com presença operacional já consolidada em Minas Gerais.

A concessão federal abrange 735 quilômetros das BRs 116 e 251, em um corredor logístico estratégico que conecta o norte de Minas Gerais à Bahia.

O projeto foi desenhado para elevar padrões de segurança, capacidade e nível de serviço em uma região historicamente marcada por subinvestimento em infraestrutura, em um contexto de expectativa de crescimento de tráfego a uma taxa composta anual de 2,1%.

Com prazo de 30 anos, a concessão prevê R$ 7,3 bilhões em capex e R$ 5,8 bilhões em opex, em valores de abril de 2023. Entre as intervenções planejadas estão 187 quilômetros de duplicações, 160 quilômetros de faixas adicionais e 11 quilômetros de vias marginais. Pelo critério do certame, vencerá o licitante que apresentar o maior desconto tarifário.

Retorno projetado sustenta interesse do mercado

Na avaliação do Safra, o projeto apresenta uma equação econômica atrativa. Considerando as projeções operacionais do governo e a hipótese de ausência de desconto tarifário, a estimativa é de valor presente líquido (VPL) de R$ 1,1 bilhão e taxa interna de retorno (TIR) real alavancada de 22,1%.

Premissas financeiras elevam a atratividade do ativo

O cálculo considera custo da dívida de IPCA + 8,5%, financiamento de 80% do capex por meio de dívida ao longo do ciclo de investimentos e custo de capital próprio de 11% em termos reais. Sob a modelagem oficial, a concessão tem TIR real desalavancada de 13,76%, assumindo também ausência de desconto tarifário.

Esse desenho reforça a percepção de que a Rota das Gerais pode se tornar um ativo relevante não apenas do ponto de vista operacional, mas também sob a ótica de alocação de capital. Em um ambiente em que investidores seguem atentos à disciplina financeira e à capacidade de execução das concessionárias, projetos com retorno potencial robusto tendem a ganhar protagonismo.

EcoRodovias aparece como candidata natural ao ativo

A leitura do Safra é que a EcoRodovias (ECOR3) deve disputar o projeto com apetite, principalmente pela conexão geográfica da Rota das Gerais com ativos já operados pela companhia. A concessão se articula diretamente com a Ecovias Norte Minas, em Montes Claros, e com a Ecovias Rio Minas, em Governador Valadares.

Sinergias podem ampliar competitividade no leilão

Essa proximidade pode gerar vantagens relevantes, como estimativas mais precisas de capex e tráfego, além de capturar sinergias operacionais. Em leilões cujo critério é o maior desconto tarifário, esse tipo de conhecimento prévio do corredor pode ser decisivo para calibrar propostas mais agressivas sem comprometer a rentabilidade esperada.

Segundo a estimativa do banco, o VPL de R$ 1,1 bilhão representaria adição de 13% ao valor de mercado da EcoRodovias, equivalente a R$ 1,61 por ação. Pelas premissas adotadas, o projeto seguiria sendo acretivo para a companhia com desconto tarifário máximo de 14,6%, patamar que levaria a uma TIR real alavancada de 13,2%, em linha geral com a taxa de desconto assumida para a empresa.

Motiva também pode capturar valor, embora com impacto mais limitado

Para a Motiva (MOTV3), a mesma estimativa de VPL implicaria acréscimo de 3,8% ao valor de mercado, ou R$ 0,60 por ação. Embora o efeito potencial seja proporcionalmente menor do que no caso da EcoRodovias, o Safra avalia que a concessão também pode ser positiva para a companhia.

Pelas contas do banco, o projeto seria acretivo para a Motiva com desconto tarifário máximo de 17,5%, sugerindo espaço competitivo relevante no certame. Esse intervalo indica que, a depender da estratégia comercial e da leitura de risco de cada participante, o leilão pode comportar disputa mais intensa sem necessariamente destruir valor para os grupos mais bem posicionados.

Leilão reforça tese de investimento em concessões rodoviárias

Para o mercado, o leilão da Rota das Gerais funciona como mais um teste da profundidade de apetite por ativos de infraestrutura no Brasil em 2026. O projeto reúne atributos que costumam ser bem recebidos por investidores: prazo longo, previsibilidade de receita, volume expressivo de investimentos e possibilidade de captura de eficiência operacional.

Ao mesmo tempo, o certame deve servir como termômetro para medir até que ponto operadores estratégicos estão dispostos a sacrificar tarifa em troca de escala, integração logística e expansão regional. Nesse sentido, a concessão favorece especialmente companhias com presença prévia no traçado ou em áreas adjacentes, capazes de extrair ganhos adicionais que não aparecem de forma homogênea para todos os concorrentes.

Se confirmada uma disputa racional, a Rota das Gerais pode reforçar a percepção de que o ciclo de concessões segue oferecendo oportunidades relevantes de criação de valor no mercado brasileiro de infraestrutura, com efeitos potenciais sobre a precificação de empresas expostas ao segmento.

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