Juros caem, mas dívida e margens desafiam empresas brasileiras
Análise do Banco Safra aponta melhora operacional e redução da alavancagem em parte das empresas, mas destaca queda da margem líquida, aumento dos prejuízos e riscos setoriais relevantes
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A queda da Selic ainda não se traduziu integralmente em menor custo financeiro para as empresas; o alívio mais significativo deve aparecer em 2027, à medida que as dívidas sejam refinanciadas ou reprecificadas | Foto: Getty Images
O segundo trimestre de 2026 foi marcado pelo início do ciclo de queda da taxa básica de juros, mas o ambiente financeiro continuou desafiador para as empresas brasileiras. Segundo análise do Credit Research do Banco Safra, apesar do início da flexibilização monetária, os indicadores fiscais pioraram e as taxas reais de longo prazo subiram.
A taxa básica de juros (taxa Selic) recuou de 15,00% para 14,25% ao longo do trimestre, em três cortes de 25 pontos-base desde março. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) manteve uma postura cautelosa diante das incertezas relacionadas aos conflitos no Oriente Médio e da volatilidade dos mercados de ativos e commodities.
A piora do cenário fiscal contribuiu para a abertura da curva real de juros, que variou entre 33 e 95 pontos-base nos principais vencimentos, de 2027 a 2060. O movimento provocou desempenho desigual entre os ativos de renda fixa.
Após o encerramento do trimestre, em 5 de agosto, o Copom promoveu um quarto corte, levando a Selic para 14,00%. No relatório Focus de 21 de agosto, a mediana das projeções indicava taxa de 13,75% ao fim de 2026 e de 12,00% em 2027.
Na avaliação do Safra, o impacto positivo da queda dos juros sobre as companhias deve se tornar mais visível apenas no próximo ano, conforme os passivos sejam gradualmente reprecificados.
Cobertura de juros melhora, mas rentabilidade final recua
No universo de 58 grupos acompanhados pelo banco, o segundo trimestre combinou melhora operacional com deterioração do resultado líquido. As comparações consideram os últimos 12 meses encerrados no 2T26 em relação ao mesmo período de 2025.
Em um painel balanceado de 56 grupos com dados disponíveis nos dois períodos, o EBITDA — resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização — ajustado cresceu 9,0%. As despesas financeiras aumentaram 3,9%, levando a cobertura agregada de juros de 1,36 vez para 1,42 vez.
O avanço indica que, em média, a geração operacional de caixa passou a cobrir uma parcela maior das despesas financeiras. O resultado, no entanto, não foi suficiente para impedir a piora da rentabilidade final.
Entre os 58 grupos analisados:
- a margem líquida mediana caiu de 6,9% para 4,4%;
- a parcela de empresas com prejuízo subiu de 24% para 26%;
- o capex mediano como proporção da receita recuou de 8,0% para 6,0%;
- a alavancagem mediana caiu de 3,20 vezes para 2,99 vezes, medida pela relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado por impairment.
Também houve redução na proporção de empresas altamente alavancadas. Entre os grupos com dados disponíveis, a parcela com dívida líquida superior a 4,5 vezes o EBITDA recuou de 21% para 12%.
Por outro lado, aumentou o número de companhias com menor capacidade de cobertura dos encargos financeiros. Entre as empresas com dados comparáveis, a proporção com cobertura de juros inferior a uma vez subiu de 16% para 23%.
Disciplina de capital reduz pressão sobre o balanço
A queda do investimento em relação à receita e a redução da alavancagem mediana sugerem maior cautela na alocação de capital.
A estratégia pode contribuir para preservar liquidez em um cenário de custo financeiro ainda elevado e incerteza sobre o ritmo de recuperação da economia doméstica.
A melhora, contudo, é desigual. Empresas com menor cobertura de juros continuam mais vulneráveis a novas altas nas despesas financeiras, à necessidade de refinanciamento e à deterioração das condições de crédito.
Ativos regulados e commodities apresentam maior resiliência
Na base dos últimos 12 meses, os setores associados a ativos regulados, contratos de longo prazo e commodities apresentaram desempenho mais consistente.
O setor de óleo e gás foi um dos destaques, com crescimento de 31,7% na receita e de 37,1% no EBITDA. Em rodovias, a margem permaneceu elevada, em 52,1%, enquanto a alavancagem recuou de 4,10 vezes para 3,48 vezes.
O setor imobiliário também apresentou expansão de receita, de 25,2%, acompanhada de melhora de margem e manutenção de baixa alavancagem em parte das empresas. A demanda por imóveis de baixa renda permaneceu sustentada pela necessidade habitacional e pelos programas de financiamento.
Em contrapartida, setores mais expostos ao consumo doméstico e ao ciclo de investimentos enfrentaram maior pressão. No saneamento, a alavancagem mediana subiu para 4,11 vezes e a cobertura de juros caiu para 0,79 vez. A Aegea, a Águas do Rio e a Iguá registraram fluxo de caixa livre negativo.
A saúde também foi impactada pelos resultados de Hapvida e Oncoclínicas. No varejo alimentar, a margem permaneceu reduzida, em 7,5%. Já os segmentos de distribuição de energia e siderurgia apresentaram deterioração simultânea de cobertura, alavancagem e rentabilidade.
Setores combinam oportunidades e riscos específicos
Grãos e sucroalcooleiro
A melhora dos volumes comercializados e a recuperação pontual dos preços agrícolas, especialmente em culturas com maior demanda externa, favoreceram o desempenho do segmento. A disciplina na gestão de custos e os ganhos de produtividade no campo também contribuíram para a operação.
A perspectiva, contudo, permanece condicionada à evolução das margens. No segmento sucroalcooleiro, a melhora da safra de cana e um balanço global de açúcar mais equilibrado podem limitar a recuperação dos preços. Riscos climáticos, volatilidade cambial e aumento dos custos de insumos seguem no radar.
Energia elétrica
A expansão do mercado livre e o crescimento da demanda por energia sustentaram as perspectivas do setor. Reajustes tarifários, ganhos de eficiência e disciplina de custos ajudaram a preservar as margens.
O ambiente, porém, é menos favorável para ativos expostos a preços mais baixos de energia e à volatilidade da comercialização. Nas operações renováveis, o nível de curtailment — redução compulsória da geração — continua pressionando as margens.
Setor imobiliário
O segmento de baixa renda permanece favorecido pela demanda estrutural por moradia e pelos programas de financiamento. O cenário contribuiu para o crescimento de lançamentos, vendas e geração de caixa, com manutenção de margens operacionais saudáveis nas empresas de maior giro.
Para os segmentos de média e alta renda, os juros ainda elevados continuam restringindo o crédito imobiliário e pressionando a demanda. A inflação de materiais, mão de obra e transporte, além de distratos e do alongamento do ciclo de vendas, representa risco adicional.
Locação e veículos
O aumento da utilização das frotas e os ganhos de escala sustentaram a evolução operacional das empresas. A demanda por locação corporativa e de longo prazo também ampliou a previsibilidade das receitas.
Ainda assim, o custo de financiamento e a necessidade recorrente de renovação das frotas mantêm a estrutura de capital exigente. A rentabilidade da venda de seminovos e a maior competição no mercado secundário permanecem como pontos de atenção.
Proteína animal
A diversificação geográfica e de portfólio reduz a dependência de um único mercado, enquanto a demanda externa continua aquecida.
O setor, entretanto, permanece intensivo em ativos e capital de giro. A volatilidade dos preços de grãos, animais e demais insumos pressiona os custos de produção. Riscos sanitários, barreiras comerciais e mudanças nas condições de exportação podem afetar volumes e preços.
Saúde
Hospitais apresentaram crescimento consistente de volumes e tíquete médio. A integração com operações de seguros também pode contribuir para a melhora da sinistralidade e da eficiência dos serviços.
O quadro é mais complexo para operadoras e prestadores pressionados por sinistralidade elevada e inflação médica. Materiais, medicamentos, pessoal e serviços terceirizados continuam registrando aumentos superiores à inflação geral.
Raízen e Oncoclínicas concentram os maiores sinais de estresse
Dois casos se destacaram negativamente na análise, considerando os indicadores do segundo trimestre e os eventos posteriores ao encerramento do período.
A Raízen apresentou alavancagem de 4,8 vezes, queda de 70% no EBITDA e cobertura de juros de apenas 0,19 vez. O plano da companhia, envolvendo R$ 64,7 bilhões em créditos financeiros, foi homologado em 30 de julho.
A Oncoclínicas registrou EBITDA negativo de R$ 246 milhões e prejuízo de R$ 476 milhões no trimestre. Em 13 de julho, a companhia protocolou pedido de recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívida.
Os dois episódios evidenciam como a redução da Selic, embora positiva para o custo de capital no médio prazo, não elimina de imediato os riscos de liquidez, refinanciamento e deterioração operacional.
Alívio financeiro deve ser gradual e desigual
A análise do Safra indica que o ciclo de queda dos juros tende a melhorar as condições de crédito, mas o efeito sobre os resultados corporativos deve ocorrer com defasagem. Empresas com dívidas de curto prazo ou passivos indexados a taxas flutuantes podem capturar benefícios mais rapidamente, enquanto aquelas com vencimentos longos ou estruturas financeiras mais pressionadas dependerão de refinanciamentos e renegociações.
O desempenho no 2T26 reforça uma divisão importante entre as companhias. De um lado, empresas ligadas a commodities, concessões, contratos de longo prazo e segmentos regulados demonstraram maior resiliência. De outro, negócios dependentes do consumo doméstico, de investimentos intensivos ou de margens operacionais estreitas continuam mais expostos ao ambiente de juros elevados e à desaceleração da demanda.
Para 2027, a trajetória da Selic, a evolução fiscal e a capacidade de recuperação das margens serão determinantes para definir o ritmo de desalavancagem e a qualidade do crédito corporativo.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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