BC funciona mais como transatlântico do que como jet-ski, afirma Galípolo
Em debate no J.Safra Macro Day, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, defendeu a política monetária 'serena e parcimoniosa', que segundo ele deixa o Brasil em vantagem em relação a outros emergentes
30/03/2026 3 minutos
O Brasil, relativamente aos seus pares, está numa situação mais favorável diante da atual crise geopolítica no Oriente Médio, afirma Galípolo | Foto: Divulgação
“O Brasil, relativamente aos seus pares, está numa situação mais favorável diante da atual crise geopolítica no Oriente Médio”, afirmou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na abertura do J. Safra Macro Day, evento que reúne autoridades públicas, economistas, executivos e especialistas em política para uma série de discussões sobre os principais temas que influenciam o ambiente de investimentos.
Galípolo falou que o sistema de governança e decisão colegiada do Banco Central explica a “maneira serena e parcimoniosa” das decisões sobre juros para reagir à inflação interna e à conjuntura internacional. “O BC é sempre um pouco mais conservador, e funciona mais como um transatlântico do que como um jet-ski”.
Segundo ele, a “gordura” de juros acumulada por essa política parcimoniosa permitiu ganhar tempo para avaliar a situação e decidir sobre a trajetória da política monetária.
Parcimônia do Banco Central
Segundo o presidente do BC, ficou claro ao longo dos últimos meses que a política monetária vem fazendo efeito, mas com o atual nível de restrição, comparado a outros países, esperava-se um efeito mais agudo. O atual nível de juros deixa o Brasil em situação mais confortável hoje em comparação a outros emergentes, de acordo com Galípolo.
“Iniciamos o ciclo de corte com uma redução de 0,25. Estamos comunicando o tempo todo que essa gordura que foi acumulada com uma postura mais conservadora. Seguimos com nossa trajetória e iniciamos o ciclo de calibragem”.
Galípolo diz que a visão inicial era de que o atual choque externo poderia ter impacto positivo na economia brasileira, por causa do preço do petróleo, considerando o fato de que o país é exportador da commodity. Mas o choque atual é diferente, segundo ele, a visão do BC é de que a pressão eterna tende a elevar a inflação e prejudicar o crescimento.
Linha de parcimônia e responsablidade
“Temos preferido ganhar tempo para entender cada um desses eventos externos. Isso tem se mostrado mais interessante o ponto de vista de não amplificar e reverberar a volatilidade”, justificou o presidente do BC.
“Inicialmente avaliamos que o fechamento do estreito de Ormuz poderia agravar a oferta, mas a reabertura poderia provocar uma volta abrupta. Agora, existe a preocupação com o agravamento dos riscos logísticos”.
Galípolo comenta que o Brasil se beneficia de ser um exportador líquido de petróleo, e também no diferencial de juros, por estarmos numa posição mais contracionista.
Mercado de crédito
Sobre os recentes eventos no mercado de crédito, com pedidos de recuperação judicial de algumas grandes empresas, Galípolo disse que a causa é um conjunto de fatores, e não apensas a alta dos juros.
“Não é um fator isolado, mas envolve questões de governança, problemas estruturais e efeitos da política monetária. Não acho que a política monetária seja o problema principal. A pergunta essencial é se o paciente estaria melhor com ou sem o tratamento, ou seja, com o ciclo de juros altos para conter a inflação”.
O debate com Gabriel Galípolo teve moderação de Joaquim Levy, diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco J. Safra, e Eduardo Yuki, Economista-chefe, Banco Safra.
J. Safra Macro Day
Além do presidente do Banco Central, participam do J. Safra Macro Day, nesta segunda-feira, o professor do MIT e vencedor do Nobel de Economia de 2024, Daron Acemoglu; Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.
A exemplo de outros eventos do J.Safra, o encontro oferece ao público uma leitura abrangente do cenário econômico, em um momento de atenção redobrada dos investidores à trajetória dos juros, ao ambiente político doméstico e às condições externas.
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