Expansão acima do potencial justifica cautela, afirma diretor do BC
Diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, explica estratégia contra a nflação durante a a J. Safra Investment Conference
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Nilton David, do Banco Central, paricipou a J. Safra Investment Conference ao lado de Eduardo Yuki, economista-chefe do Banco Safra | Foto: Divulgação
A cautela do Banco Central diante de um cenário ainda marcado por elevada incerteza foi tema da apresentação do diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, durante a J. Safra Investment Conference 2026, no Hyatt Horal, em São Paulo. O debate foi mediado por Eduardo Yuki, economista-chefe do Banco Safra.
Na avaliação de Nilton David, a economia brasileira passou nos últimos anos por sucessivas ondas de estímulo, maior bancarização e acesso ao crédito, expansão fiscal durante a pandemia, pagamento de precatórios e expansão do crédito consignado, que ajudaram a sustentar uma atividade mais forte.
Como esse desempenho não veio acompanhado por ganhos equivalentes de produtividade ou por um impulso demográfico, a leitura é de que a taxa de juros neutra está temporariamente mais elevada, e não necessariamente que tenha ocorrido uma mudança estrutural de seu nível.
David destacou que a condução da política monetária precisa levar em consideração um ambiente de incertezas excepcionalmente elevado, incluindo questões fiscais, juros internacionais, tarifas comerciais e conflitos geopolíticos.
Nesse contexto, o BC entende que movimentos mais suaves contribuem para reduzir volatilidade e preservar a política monetária como um elemento de estabilidade. Essa lógica ajuda a explicar a manutenção de uma postura restritiva por mais tempo e, mais recentemente, a opção por um processo de calibração por meio de cortes de 25 pontos-base, em vez de movimentos mais agressivos.
A avaliação é de que já existem sinais de transmissão da política monetária, especialmente pela desaceleração da inflação dos componentes mais cíclicos. A economia ainda estaria operando acima de seu crescimento potencial e os salários continuam avançando acima da inflação e da produtividade, embora já apresentem desaceleração.
A combinação de menor atividade e manutenção de uma política restritiva deve contribuir para aproximar gradualmente a inflação da meta e a economia de seu potencial.
Defasagem da política monetária e mercado de crédito
Um dos pontos enfatizados pelo diretor do BC foi que a transmissão da política monetária no Brasil pode ser mais lenta em razão da elevada indexação de ativos e passivos à Selic. David citou como exemplo o comportamento do mercado de crédito em 2025: apesar da elevação dos juros, houve fechamento relevante dos spreads de debêntures, permitindo que tomadores acessassem financiamento relativamente mais barato e por prazos mais longos.
Segundo ele, essa dinâmica prolongou a defasagem da política monetária e é justamente um dos motivos para o BC calibrar os próximos movimentos, evitando um aperto excessivo quando os efeitos defasados começarem a aparecer com maior intensidade.
Juros americanos e câmbio
Sobre o ambiente externo, David argumentou que o atual nível dos juros americanos é bastante diferente daquele observado no período entre a crise financeira de 2008 e na pandemia. Após anos de taxas reais muito baixas ou negativas, a redução do balanço do Fed representa uma normalização das condições monetárias e contribui para manter os juros de longo prazo em níveis mais altos.
Taxas americanas elevadas funcionam naturalmente como um “ímã” de capital. Ainda assim, dada a posição relativa da política monetária brasileira, David avaliou que o real está mais resiliente e que não seria esperado, neste cenário, um movimento abrupto da moeda.
Atividade, inflação e choques de oferta
A desaceleração da economia apareceu como parte importante do debate. David ressaltou, contudo, que o Banco Central não possui uma meta para o nível de atividade, mas para a preservação do poder de compra da moeda.
Ao discutir riscos como o conflito no Oriente Médio e o El Niño, reconheceu a possibilidade de novos choques de oferta e de um repique temporário da inflação. A postura do BC, porém,é de avaliar seus efeitos primários e secundários e impedir que aumentos temporários de preços se transformem em inflação persistente.
Nesse sentido, mesmo diante de projeções de inflação mais elevadas, o BC manteve a estratégia de cortes de 25 pontos-base. A leitura transmitida foi de que choques temporários podem elevar a inflação no curto prazo, mas a política monetária continuará restritiva o suficiente para buscar a convergência dentro do horizonte relevante de aproximadamente 18 meses.
Mercado versus Focus
Sobre a diferença entre as expectativas implícitas nos mercados e as projeções do Focus, David observou que as taxas implícitas normalmente carregam um prêmio de risco e, por isso, podem operar acima das expectativas dos economistas.
Além disso, o mercado reage muito mais rapidamente a novos acontecimentos — como conflitos geopolíticos — enquanto as projeções do Focus tendem a se ajustar de maneira mais gradual. Na avaliação apresentada, parte da discrepância atual também reflete uma diferença entre a percepção sobre inflação e aquilo que os dados efetivamente mostram.
Crédito às famílias e medidas macroprudenciais
Questionado sobre o elevado comprometimento da renda das famílias, David diferenciou explicitamente medidas de política monetária de instrumentos macroprudenciais. Ele destacou iniciativas ligadas à transparência, à mensuração de riscos e ao alinhamento de incentivos, com desenho baseado também na experiência internacional.
Fiscal e função de reação do BC
Sobre a política fiscal, David afirmou que o fiscal é monitorado pelo Banco Central, mas não entra diretamente nos modelos utilizados pela instituição. A justificativa é que os modelos já incorporam diversas variáveis probabilísticas, enquanto as expectativas capturadas pelo Focus também carregam informações sobre o cenário fiscal.
A assimetria dos riscos serve para explicitar fatores que podem alterar o cenário-base caso venham a se materializar.
Inteligência artificial: impacto sobre inflação e juros
A inteligência artificial também apareceu na discussão. David avaliou que os efeitos macroeconômicos ainda são complexos: no curto prazo, o forte ciclo de investimento dos hyperscalers pode representar um impulso inflacionário pela magnitude do capex.
Por outro lado, caso esses investimentos se traduzam em aumentos relevantes de produtividade, o efeito posterior pode ser desinflacionário. Ao mesmo tempo, uma economia estruturalmente mais produtiva também poderia conviver com uma taxa de juros neutra mais elevada.
Por fim, David destacou como surpresa positiva de sua experiência na diretoria a qualidade e a velocidade da resposta técnica das equipes do Banco Central, além de uma cultura interna que permite contraditório mesmo diante da hierarquia.
Em contrapartida, ressaltou o grau elevado de escrutínio sobre a comunicação da autoridade monetária e a assimetria existente entre mercado e Banco Central: enquanto no mercado erros de projeção fazem parte do processo, decisões equivocadas de política monetária podem gerar consequências econômicas relevantes.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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