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Copa do Mundo 2026 tem torcida brasileira mais fria com a Seleção

Pesquisa Ipsos aponta desânimo com o torneio, queda de confiança no Brasil e migração da atenção para séries, música e consumo multitela; para o mercado, evento ainda deve ativar mídia, varejo e alimentação fora do lar

3 minutos

Canarinho pistola, mascote da Seleção brasileira: pesquisa Ipsos indica que a Copa de 2026 segue relevante como ocasião de consumo e convivência, embora com menor confiança do brasileiro na Seleção | Foto: Getty Images

Os brasileiros chegam à Copa do Mundo de 2026 menos confiantes na Seleção e mais seletivos na forma de acompanhar o torneio, segundo estudo do Instituto de Pesquisas Ipsos. Para o mercado, a leitura é de que o evento continua com potencial de mobilização em consumo, mídia e convivência social, mas já não opera com o mesmo grau de tração emocional automática sobre a marca Seleção Brasileira.

De acordo com o levantamento, 46% dos entrevistados se dizem desanimados com a Copa, enquanto apenas 18% acreditam piamente na vitória do Brasil no torneio. Ao mesmo tempo, 51% afirmam ainda ter interesse na competição e 41% dizem se sentir conectados à Seleção Brasileira.

O quadro sugere uma mudança de comportamento relevante para investidores e anunciantes: o brasileiro não abandonou a Copa, mas passou a consumi-la com mais pragmatismo, menos ufanismo e maior dependência de experiência, conveniência e contexto.

Copa 2026 segue forte como ocasião de consumo

Apesar da perda de confiança na equipe nacional, o evento continua preservando seu potencial de ativação de demanda. Segundo a Ipsos, 51% pretendem acompanhar os jogos em encontros com amigos e familiares, em ocasiões como churrascos, enquanto 47% devem assistir em casa ou na casa de amigos. Outros 31% planejam ir a bares com estrutura para a Copa.

Para setores expostos ao consumo por ocasião, os dados reforçam perspectiva positiva para categorias como:

  • bebidas
  • alimentos para consumo compartilhado
  • varejo alimentar
  • bares e restaurantes
  • eletrônicos e telas
  • serviços digitais e mídia

Na prática, a Copa segue relevante menos como vetor isolado de paixão esportiva e mais como motor de socialização e entretenimento coletivo.

Atenção do brasileiro está mais fragmentada

O estudo também mostra que o futebol divide espaço com outras paixões. No ranking da Ipsos, séries (10,9) e música (10,7) aparecem à frente da Copa do Mundo de futebol (8,2) e do futebol (7,3). A Seleção Brasileira de Futebol registra 5,8.

Para o mercado publicitário, a fragmentação da atenção tende a elevar a disputa por audiência e eficiência de campanhas durante o ciclo da Copa. Em vez de capturar engajamento por simples associação ao torneio, marcas e plataformas passam a depender mais de execução, segmentação e capacidade de inserir o evento em jornadas reais de consumo.

Consumo da Copa migra para experiência multitela

A Ipsos aponta ainda que a experiência de acompanhar futebol se tornou mais digital e personalizada. O consumo se estende para YouTube, Instagram e canais como a CazéTV, em um ambiente em que a conversa online passa a ter peso semelhante ao do jogo em si.

Para empresas de mídia e tecnologia, isso reforça a tese de valorização de:

  • ecossistemas digitais de transmissão
  • conteúdo derivado e tempo real
  • creator economy
  • formatos de patrocínio integrados
  • inventário publicitário multiplataforma

A tendência é de manutenção da audiência agregada, mas com redistribuição entre TV, redes sociais, vídeo digital e comunidades de creators.

Redes sociais mostram torcedor mais crítico

Na frente digital, o estudo da Ipsos Synthesio analisou 628 mil publicações entre 1º de novembro de 2025 e 20 de abril de 2026. O sentimento dos posts foi de 16% positivo, 46% neutro e 38% negativo.

Segundo a pesquisa, as discussões nas redes estão concentradas em temas como jogadores, rivais, técnico, sede dos jogos, transmissão, elenco e CBF, indicando foco maior em pragmatismo esportivo e menor presença de euforia patriótica.

O levantamento também mostra deterioração de reputação digital em ativos centrais do ecossistema do futebol brasileiro. O social reputation score reportado pela Ipsos foi de:

  • Entidade Social e reputation score:
  • Seleção: 35
  • CBF: 27
  • FIFA: 44
  • Ancelotti: 25
  • Neymar: 24

Para o mercado, esse desgaste reputacional pode afetar a eficiência de campanhas centradas em imagem institucional, exigindo maior cuidado de posicionamento e associação de marca.

Clubes locais ganham da Seleção em engajamento

Outro ponto do estudo é a prevalência do clubismo sobre a relação com a Seleção. A Ipsos identifica que os clubes locais mantêm vínculo mais forte e recorrente com o torcedor, enquanto a equipe nacional desperta hoje uma combinação de nostalgia, distanciamento e desconfiança.

Essa mudança é relevante para patrocinadores, detentores de direitos e plataformas esportivas, porque reforça a assimetria entre o futebol como hábito permanente e a Seleção como ativo episódico.

Novo formato amplia inventário, mas também incerteza

A edição de 2026 terá 48 seleções e 12 grupos, além de sedes distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá. No material da Ipsos, o novo formato aparece associado a dúvidas sobre qualidade técnica, equilíbrio competitivo e logística.

Para investidores, o desenho amplia o inventário comercial e a duração do evento, mas também pode aumentar dispersão de atenção e custo de retenção de audiência, especialmente em um ambiente já marcado por fragmentação de consumo de mídia.

Leitura para o mercado

A conclusão do estudo é que a Copa de 2026 continua sendo um ativo relevante para consumo e comunicação, mas em bases diferentes das observadas em ciclos anteriores. A potência comercial migra do entusiasmo automático com a Seleção para a combinação entre:

  • ritual social
  • experiência de consumo
  • multiplataforma
  • segmentação de audiência
  • execução de marca

Para empresas expostas ao evento, o desafio será capturar valor em um ambiente em que a emoção segue presente, mas menos concentrada no desempenho esperado do Brasil e mais distribuída entre convivência, entretenimento e repertórios culturais concorrentes.

Cley Scholz

Jornalista formado pela PUC-PR com pós em gestão de empresas jornalísticas na ESPM. Trabalhou como repórter e editor nos jornais O Estado de S.Paulo, Valor Econômico, O Globo, JT, Agência Estado, revista Veja e portal de Economia do Estadão. LinkedIn

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