Câmbio segura inflação dos alimentos, mas petróleo preocupa
Inflação oficial medida pelo IPCA ficou em 0,70% em fevereiro, com aceleração de núcleos e serviços, elevando o grau de cautela para o cenário de juros
12/03/2026 3 minutos
A elevação dos preços do petróleo represente risco altista relevante para a inflação | Foto: Getty Images
A inflação oficial de fevereiro medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,70% na comparação mensal, superando tanto a projeção interna quanto o consenso de mercado, ambos em 0,64%.
O resultado confirmou uma leitura mais adversa já antecipada pelo IPCA‑15 do mês e reforçou a percepção de pressão inflacionária na margem. No acumulado de 12 meses, a inflação desacelerou para 3,81%, ainda dentro do intervalo da meta, mas com deterioração relevante na composição.
O principal ponto de atenção para investidores foi o comportamento dos núcleos de inflação. A média dos núcleos avançou 0,62% no mês, acima do esperado, mantendo trajetória de alta e evidenciando que a surpresa não se concentrou apenas em itens voláteis. Serviços tiveram papel central nesse movimento, sugerindo maior persistência inflacionária e menor folga no processo de desinflação subjacente.


Bens industriais e serviços lideram surpresa altista
Na decomposição do índice, a surpresa veio principalmente de bens industriais e serviços. Os preços administrados e os alimentos ficaram, em linhas gerais, alinhados às projeções. A alimentação no domicílio subiu 0,23%, com desempenho mais benigno do leite longa vida compensando parcialmente a forte aceleração do feijão‑carioca (rajado).
Nos bens industriais, a alta foi disseminada e acima do previsto, com destaque para itens de higiene pessoal, que avançaram 0,92% no mês e mantiveram pressão sobre produtos de maior peso na cesta de consumo. Esse comportamento indica repasse mais amplo de custos e menor alívio vindo do setor industrial.
Já os serviços avançaram 1,51% em fevereiro, ligeiramente acima das estimativas. O movimento foi impulsionado sobretudo pelo aumento em serviços bancários e por uma deflação mais suave do que a esperada em cinema, teatro e concertos. O resultado reforça a leitura de que a inflação de serviços segue resiliente, indo além de choques pontuais em passagens aéreas ou educação.
Implicações para política monetária e cenário de investimentos
As métricas estruturais reforçam o caráter adverso da leitura. Serviços subjacentes subiram 0,64%, também acima das projeções, sugerindo pressão mais persistente sobre o segmento mais sensível ao ciclo econômico e ao mercado de trabalho. Medidas suavizadas e com ajuste sazonal apontam nova aceleração na margem, ainda compatível com desinflação gradual, porém com menor margem de segurança em relação à meta.
Para os próximos meses, parte das pressões observadas em fevereiro tende a ser revertida, à medida que passagens aéreas e alguns serviços devolvam parte das altas recentes. A atividade econômica segue moderada e a política monetária permanece restritiva, fatores que atuam como contrapeso.
A apreciação recente do câmbio ajuda a conter pressões sobre alimentos e bens industriais no curto prazo, embora a elevação dos preços do petróleo represente risco altista relevante para a inflação.
Nesse contexto, o Banco Safra mantém a projeção de IPCA em 3,70% para 2026. A surpresa de fevereiro é negativa, inclusive nas métricas subjacentes, mas ainda consistente com um cenário de desinflação gradual ao longo do ano, exigindo atenção redobrada de investidores à trajetória dos juros e às decisões do Banco Central.
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