Ouro desperta interesse crescente, mas só 1% da população investe no metal
Ouro ganhou relevância simbólica e prática entre os brasileiros, num ambiente de maior sensibilidade a risco, juros e tensões geopolíticas, mostra pesquisa da Ambima
20/03/2026 3 minutos
Em um contexto de valorização expressiva do metal e de aumento das incertezas globais, o ouro volta a ocupar posição de destaque não apenas como ativo financeiro, mas também como símbolo de segurança | Foto: Getty Images
Cerca de 1,6 milhão de pessoas, o equivalente a 1% da população economicamente ativa, investem em ouro no Brasil, segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, levantamento realizado pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha. Mais do que a adesão efetiva, o dado que chama atenção é o alcance do metal no imaginário financeiro nacional: 67% da população reconhecem o ouro como um tipo de investimento.
O resultado sugere uma mudança relevante no perfil do investidor brasileiro. Tradicionalmente concentrado em produtos de renda fixa e em aplicações de menor complexidade, esse investidor passa a demonstrar maior familiaridade com ativos associados à proteção patrimonial, à diversificação e à leitura do cenário internacional.
Em um contexto de valorização expressiva do metal e de aumento das incertezas globais, o ouro volta a ocupar posição de destaque não apenas como ativo financeiro, mas também como símbolo de segurança.
Conhecimento sobre o ouro atravessa as faixas de renda
A pesquisa mostra que o reconhecimento do ouro como investimento independe da renda, ainda que seja mais elevado entre as classes de maior poder aquisitivo. O metal é conhecido por 81% da classe A/B, por 68% da classe C e por 52% da classe D/E.
Os números indicam que o ouro preserva um atributo raro no mercado financeiro brasileiro: a capacidade de ser percebido simultaneamente como um ativo sofisticado e como uma reserva de valor intuitiva. Seu caráter tangível e durável ajuda a sustentar essa leitura entre diferentes segmentos da população.
“Antigamente o ouro físico era usado como reserva de valor. Hoje, ele segue em evidência como uma forma de investir com liquidez, seja via mercado futuro, ETFs ou fundos que aplicam na commodity”, afirma Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima.
Investidor mais exposto à macroeconomia e ao debate digital
O avanço do interesse pelo ouro também revela um investidor mais atento ao ambiente macroeconômico. O noticiário recente sobre tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e sobre as tensões geopolíticas envolvendo Ucrânia e Oriente Médio tem contribuído para ampliar a visibilidade da commodity entre pessoas físicas.
Esse movimento aparece também nas redes sociais. A edição mais recente do FInfluence, relatório semestral da Anbima sobre influenciadores financeiros, apontou o ouro como o sétimo produto financeiro mais mencionado e o quinto tema com maior engajamento.
O dado reforça a percepção de que o investidor brasileiro passou a reagir com mais rapidez a temas globais e a incorporar, ainda que de forma inicial, discussões sobre proteção cambial, risco sistêmico e ativos defensivos.
Da reserva simbólica à alocação financeira
O novo perfil do investidor brasileiro não implica necessariamente migração em massa para o ouro, mas evidencia uma sofisticação gradual do repertório financeiro. O metal deixa de ser visto apenas como um bem físico associado à preservação de riqueza e passa a ser entendido também como instrumento acessível por meio do mercado de capitais, via ETFs, fundos e derivativos.
Essa transição é relevante porque mostra um mercado mais permeável a produtos que cumprem função tática na carteira, especialmente em períodos de maior volatilidade. Em vez de buscar apenas retorno, parte dos investidores passa a considerar com mais clareza o papel da proteção e da correlação entre ativos.
Valorização recorde reforça apelo do metal
O avanço do interesse ocorre em paralelo à forte valorização do ouro. No início de 2026, os contratos futuros do metal negociados em bolsa ultrapassaram US$ 5.200 por onça-troy, equivalente a cerca de 31,1 gramas.
Somente em fevereiro de 2026, o ouro acumulou alta de 10,9%, registrando o sétimo avanço mensal consecutivo, na maior sequência de ganhos desde 1973. No acumulado do ano, a valorização gira em torno de 12%, apesar de oscilações recentes. No mercado brasileiro, o ETF GOLD11 supera 20% de alta nos últimos seis meses, o que ajuda a explicar a ampliação do interesse pelo tema.
Para o investidor local, a combinação entre desempenho recente, liquidez e narrativa de proteção fortalece o papel do ouro como ativo de diversificação em um ambiente de maior instabilidade internacional.
O que a pesquisa revela sobre o novo investidor brasileiro
Mais do que mapear produtos financeiros, o estudo da Anbima ajuda a identificar uma inflexão comportamental. O investidor brasileiro segue conservador em muitos aspectos, mas já demonstra maior abertura a ativos que dialogam com o cenário externo, com a volatilidade dos mercados e com estratégias de preservação de patrimônio.
Nesse sentido, o ouro funciona como um indicador simbólico dessa transformação. Seu avanço no nível de conhecimento e de interesse sugere que o brasileiro começa a ampliar seu horizonte de decisão financeira, combinando referências tradicionais de segurança com instrumentos mais modernos de acesso ao mercado.
Sobre o estudo
A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro retrata a população com 16 anos ou mais, universo equivalente a mais de 168 milhões de pessoas. Segundo o levantamento, 48% são homens e 51% são mulheres economicamente ativas, com idade média de 44 anos. A pesquisa ouviu 5.832 pessoas em todas as regiões do país, entre 4 e 21 de novembro de 2025.
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