Inflação da construção segue comportada e favorece ações de construtoras
Com preços de materiais sob controle e INCC-M abaixo das premissas mais conservadoras, cenário reforça expectativa positiva para ações das construtoras
27/03/2026 3 minutos
Estabilidade dos custos de materiais e inflação ainda administrável na construção civil ajudam a preservar margens das incorporadoras e construtoras listadas | Foto: Getty Images
A inflação da construção civil permaneceu majoritariamente estável em março, em um sinal favorável para as empresas do setor imobiliário listadas na Bolsa. O INCC-M avançou 0,36% na comparação mensal, ligeiramente acima do observado em fevereiro, mas o acumulado em 12 meses recuou para 5,81%, segundo os dados analisados pelo Banco Safra com base nos números da FGV Ibre.
Para o mercado, a leitura central do indicador é construtiva: apesar da leve aceleração dos custos de mão de obra, a dinâmica de materiais continua comportada, o que reduz o risco de pressão relevante sobre os orçamentos das companhias.
Em um setor intensivo em custos de construção, esse movimento tende a preservar margens e dar maior previsibilidade à rentabilidade operacional, sobretudo no curto prazo.
Materiais seguem estáveis e mão de obra acelera
A composição do índice mostra uma desaceleração marginal da inflação de materiais e equipamentos, que ficou em 0,27% em março, abaixo do ritmo observado no mês anterior.
O movimento foi influenciado pela desinflação em dois dos quatro subgrupos monitorados, com destaque para materiais de instalação, cuja alta desacelerou para 0,66%, de 0,87% em fevereiro.
Na direção oposta, os custos de mão de obra — que respondem por cerca de 40% do índice e seguem como principal vetor da inflação acumulada em 12 meses — avançaram 0,47% em março, acima dos 0,39% registrados no mês anterior. Com isso, a inflação dessa componente atingiu 9% em 12 meses.
Itens com maior variação no mês
Entre os principais aumentos de preços observados em março, os fios elétricos voltaram a liderar, com alta de 2,6%, repetindo o posto de maior elevação mensal pelo segundo mês consecutivo. Também avançaram os custos de bombeiros hidráulicos, com alta de 0,79%, e de eletricistas, com 0,67%.
Do lado das quedas, os destaques foram os revestimentos cerâmicos de parede, com recuo de 0,8%, além de conduítes de PVC, com baixa de 0,27%, e tubos de concreto, que caíram 0,23%.
Difusão regional mostra inflação mais elevada em São Paulo
No recorte regional, Salvador apresentou a maior inflação mensal entre as capitais acompanhadas, com avanço de 0,94% em março, ante 0,47% em fevereiro, em movimento associado a reajustes salariais sazonais. Belo Horizonte apareceu na sequência, com alta de 0,42% no mês.
Na janela de 12 meses, porém, o quadro regional é mais heterogêneo. Rio de Janeiro e Belo Horizonte registraram as menores taxas acumuladas, de 4,46% e 4,71%, respectivamente. São Paulo, por sua vez, permaneceu com a inflação mais elevada no período, em 6,65%, seguida por Salvador, com 5,87%.
Cenário para as ações das construtoras
A avaliação do Safra é que o resultado de março reforça a tendência de desinflação nos custos de materiais, amparada por um câmbio mais favorável e por uma dinâmica geral de custos ainda estável.
Ainda que a mão de obra tenha mostrado aceleração pontual, o índice acumulado em 12 meses segue em torno de 5,8%, abaixo das hipóteses mais conservadoras incorporadas aos orçamentos das construtoras.
Esse descompasso entre inflação efetiva e premissas orçamentárias tende a favorecer a rentabilidade do setor, ao reduzir o risco de revisões negativas de margem no curto prazo.
Para investidores, isso ajuda a sustentar uma visão mais construtiva sobre companhias expostas aos segmentos de média e baixa renda, especialmente em um contexto em que previsibilidade de custos é um diferencial relevante para a execução operacional.
Tensões externas ainda exigem monitoramento
O Safra pondera que tensões geopolíticas recentes podem voltar a pressionar os custos de materiais nos próximos meses, sobretudo em cadeias mais sensíveis a commodities e logística internacional. Ainda assim, a leitura é que os orçamentos das empresas já embutem premissas prudentes de inflação, o que deve limitar impactos mais agudos no curto prazo.
Além disso, os ajustes recentes no programa Minha Casa, Minha Vida tendem a melhorar a acessibilidade para compradores de imóveis, o que pode fortalecer a demanda e oferecer suporte adicional às vendas do segmento.
Tenda segue como preferência no setor
Nesse contexto, o Safra reiterou visão positiva para as ações de construtoras e manteve a Tenda como sua principal escolha dentro da cobertura. O banco destaca a valuation considerada atrativa, com múltiplo de 4,5 vezes preço sobre lucro estimado para o fim de 2027.
A combinação entre custos mais comportados, orçamento conservador e possível melhora na acessibilidade do crédito habitacional sustenta a tese de investimento para o setor, ainda que o ambiente macroeconômico e os riscos externos continuem no radar.
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