Inadimplência em crédito sem garantia pressiona ações de bancos
Dados de maio divulgados pelo Banco Central mostram desaceleração gradual da expansão do crédito, aumento da inadimplência em linhas de varejo sem garantia e deterioração do segmento agro, cenário que eleva a cautela para os resultados bancários do segundo trimestre
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Crescimento do crédito segue positivo no sistema financeiro brasileiro, mas avanço da inadimplência em cartões, crédito pessoal e consignado privado reforça preocupação com qualidade dos ativos | Foto: Getty Images
Os dados de crédito de maio divulgados pelo Banco Central reforçaram uma mudança gradual no ciclo do sistema bancário brasileiro: embora o crédito ainda avance em termos anuais, a velocidade de expansão perdeu tração, enquanto os indicadores de inadimplência seguem em deterioração, sobretudo nas linhas de varejo sem garantia.
O estoque total de crédito cresceu 0,5% em maio na comparação mensal e 8,2% em 12 meses, abaixo dos 8,3% registrados em abril. A desaceleração foi acompanhada por um movimento mais intenso de piora na qualidade dos ativos, principalmente em cartões de crédito, empréstimos pessoais e consignado privado.
A taxa de inadimplência acima de 90 dias do sistema financeiro subiu para 4,7%, avanço de 10 pontos-base em relação a abril e de 100 pontos-base frente ao mesmo período de 2025.
O movimento reforça uma percepção mais cautelosa para o setor bancário em meio a juros elevados, renda pressionada e maior fragilidade nas linhas de crédito de maior risco, segundo análise dos especialistas do Banco Safra.
Consignado privado perde força após forte expansão
O principal destaque negativo do mês foi a desaceleração nas concessões de crédito consignado privado e consignado vinculado ao INSS.
As originações de consignado privado recuaram 22,8% em maio frente a abril, após um período de crescimento acelerado. No acumulado de 12 meses, porém, a modalidade ainda registra alta expressiva de 148,8%.
Já as concessões de crédito consignado ligado ao INSS caíram 25,4% no mês.
Apesar da desaceleração recente nas concessões, o estoque da carteira de consignado privado ainda cresceu 140,3% em relação a maio de 2025, evidenciando o forte avanço observado ao longo dos últimos trimestres.
Analistas avaliam que parte desse movimento reflete uma normalização após forte expansão recente, mas também sinaliza maior seletividade dos bancos diante do aumento da inadimplência.
Cartões e crédito pessoal concentram deterioração
Linhas sem garantia seguem como principal foco de risco
Os números mostram que a piora da inadimplência continua concentrada nas operações de varejo sem garantia.
A inadimplência acima de 90 dias no crédito pessoal avançou 40 pontos-base em maio, para 10,5%. Nos cartões de crédito, a alta foi de 30 pontos-base, levando a taxa para 9,5%.
O maior ponto de atenção permanece no rotativo do cartão, cuja inadimplência atingiu 63%, um dos níveis mais elevados da série recente.
No consignado privado, a inadimplência também acelerou de forma relevante, subindo 40 pontos-base no mês, para 7,9%.
Embora os atrasos de curto prazo — entre 15 e 90 dias — tenham mostrado leve melhora no varejo, analistas destacam que a pressão permanece elevada, especialmente nas linhas mais sensíveis à renda disponível das famílias.
Spreads permanecem elevados
Mesmo com ligeira estabilidade nas margens de novas operações, os spreads seguem em patamares historicamente elevados.
O spread médio das novas concessões caiu marginalmente para 22,1%, enquanto o spread do varejo recuou 20 pontos-base no mês. Já o indicador de custo do crédito permaneceu praticamente estável em 24,3%.
Nas linhas de maior risco, os juros seguem extremamente elevados:
- Rotativo do cartão: 425,9%
- Crédito pessoal: 106,4%
- Cheque especial: 124,3%
O ambiente de juros elevados contribui para preservar a rentabilidade bancária, mas também amplia o risco de deterioração adicional da inadimplência.
Segmento agro amplia preocupação para bancos públicos
Outro vetor relevante de deterioração veio do agronegócio.
A inadimplência entre 15 e 90 dias nas operações rurais subiu 88 pontos-base em maio, enquanto as linhas a taxas de mercado tiveram salto ainda mais intenso, de 179 pontos-base.
Já a inadimplência acima de 90 dias no crédito rural avançou para 7,6%, mais que o dobro do nível observado um ano antes.
O movimento preocupa especialmente bancos públicos com maior exposição ao setor, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
A avaliação do mercado é de que a concentração de vencimentos de dívidas rurais entre abril e setembro, somada ao aumento esperado das perdas de crédito, pode pressionar os resultados do segundo trimestre dessas instituições.
Bancos privados ainda sustentam expansão do crédito
Apesar do ambiente mais desafiador, os bancos privados continuam liderando a expansão das carteiras.
As instituições privadas registraram crescimento anual de 10,5% na carteira total, acima dos bancos públicos, que avançaram 8,2%.
O segmento de pequenas e médias empresas também mostrou resiliência. A carteira para PMEs cresceu 1,5% no mês e 9,6% em 12 meses, acelerando em relação ao dado anterior.
No crédito imobiliário, as operações seguem em ritmo robusto, com expansão anual de 12,7%, sustentando parte relevante da dinâmica de crescimento do sistema financeiro.
Cenário reforça postura mais conservadora para o setor
Os dados de maio reforçam uma leitura mais defensiva para o setor bancário brasileiro no curto prazo.
A desaceleração gradual do crédito ocorre em paralelo à piora consistente da inadimplência, especialmente em linhas de varejo sem garantia e no agronegócio. Embora os spreads ainda sustentem rentabilidade, o avanço das provisões tende a ganhar relevância nos próximos balanços.
O índice de provisões sobre a carteira total subiu para 8%, acima dos 7,2% registrados um ano antes, sinalizando que os bancos já começam a reforçar colchões de proteção diante do ambiente mais desafiador.
Para investidores, o foco do mercado passa a se concentrar na capacidade das instituições financeiras de preservar rentabilidade sem ampliar excessivamente o risco de crédito, em um cenário de desaceleração econômica e maior seletividade nas concessões.
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O aumento da inadimplência está relacionado principalmente a juros elevados, renda pressionada das famílias e maior fragilidade nas linhas de crédito de maior risco. Os dados de maio mostram que a taxa de inadimplência acima de 90 dias do sistema financeiro subiu para 4,7%, com deterioração especialmente concentrada em cartões de crédito, empréstimos pessoais e crédito consignado privado, que são operações sem garantia mais sensíveis à renda disponível das famílias.
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As linhas de crédito sem garantia apresentam os maiores índices de inadimplência. O rotativo do cartão de crédito atingiu 63% de inadimplência, o crédito pessoal chegou a 10,5%, o cartão de crédito a 9,5% e o consignado privado a 7,9%. Essas modalidades são mais sensíveis às variações da renda das famílias e aos juros elevados, tornando-se as principais preocupações para os bancos.
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A desaceleração do crédito, que cresceu apenas 0,5% em maio na comparação mensal e 8,2% em 12 meses, pressiona as ações dos bancos porque ocorre simultaneamente com a piora da inadimplência. Isso força os bancos a aumentarem suas provisões de crédito duvidoso, reduzindo a rentabilidade. Além disso, a maior seletividade nas concessões limita o crescimento futuro das carteiras de crédito.
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Quando o pagamento não ocorre, a instituição financeira pode incluir o CPF nos cadastros de inadimplência, como Serasa e SPC. Isso dificulta o acesso a empréstimos, financiamentos e cartões no futuro. Além disso, o cliente fica sujeito a juros de mora, multas e possíveis ações judiciais para cobrança da dívida.
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As concessões de crédito consignado privado recuaram 22,8% em maio frente a abril, e o consignado vinculado ao INSS caiu 25,4% no mês. Essa desaceleração reflete uma normalização após período de forte expansão, mas também sinaliza maior seletividade dos bancos diante do aumento da inadimplência nessa modalidade, que subiu 40 pontos-base no mês para 7,9%.
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Os spreads elevados, especialmente nas linhas de maior risco, contribuem para aumentar a inadimplência. O rotativo do cartão está em 425,9%, o crédito pessoal em 106,4% e o cheque especial em 124,3%. Embora esses juros altos preservem a rentabilidade bancária no curto prazo, ampliam o risco de deterioração adicional da inadimplência ao reduzir a capacidade de pagamento das famílias.
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A inadimplência no crédito rural avançou para 7,6% acima de 90 dias, mais que o dobro do nível observado um ano antes. Isso preocupa especialmente bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que têm maior exposição ao setor. A concentração de vencimentos de dívidas rurais entre abril e setembro, somada ao aumento esperado das perdas de crédito, pode pressionar significativamente os resultados dessas instituições.
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Os bancos estão aumentando suas provisões de crédito duvidoso como forma de proteção. O índice de provisões sobre a carteira total subiu para 8%, acima dos 7,2% registrados um ano antes. Além disso, as instituições estão adotando maior seletividade nas concessões de crédito, priorizando operações com menor risco e reduzindo a expansão em linhas de varejo sem garantia.
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