Corrida da IA muda foco de Wall Street após rali dos semicondutores
Relatório do Banco Safra aponta que o mercado começa a migrar parte das apostas em inteligência artificial das fabricantes de chips para gigantes de nuvem e plataformas digitais
5 minutos Publicado emCrescimento dos investimentos em inteligência artificial amplia demanda por chips, memória e infraestrutura de nuvem, mas investidores já discutem uma rotação de capital dentro do setor de tecnologia | Foto: Getty Images
O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) está provocando uma mudança relevante na forma como investidores globais enxergam o setor de tecnologia. Depois de um primeiro semestre marcado pela forte valorização das empresas ligadas à cadeia de semicondutores, o mercado começa a discutir uma possível migração parcial de capital para os chamados hyperscalers, gigantes de computação em nuvem, como Amazon, Microsoft, Google e Meta.
A avaliação consta em relatório do Banco Safra elaborado após reuniões com investidores institucionais em São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo os analistas, o debate central deixou de ser apenas o crescimento da IA e passou a girar em torno de quem conseguirá capturar valor econômico sustentável no atual ciclo de investimentos.
O ponto de tensão está no volume recorde de investimentos em infraestrutura tecnológica. O mercado segue otimista com a expansão da IA, mas começa a questionar se o retorno financeiro desses aportes justificará valuations já bastante elevados em alguns segmentos da cadeia.
Semicondutores continuam fortes, mas valuations preocupam
As empresas de semicondutores seguem vistas como protagonistas da corrida da IA. Fabricantes de chips, memória e equipamentos de produção ainda apresentam fundamentos sólidos, sustentados pela demanda crescente por processamento computacional.
No entanto, o Safra destaca que o posicionamento dos investidores tornou-se “congestionado”, especialmente em áreas consideradas gargalos de oferta, como memória de alta performance, fotônica, lasers e equipamentos para fabricação de wafers, as finas lâminas de silício utilizadas na produção de chips.
Na prática, isso significa que parte do mercado teme que as ações dessas empresas tenham subido mais rapidamente do que a evolução efetiva dos lucros futuros.
O relatório cita sinais de excesso especulativo, especialmente na Coreia do Sul, onde investidores de varejo chegaram a liquidar aplicações financeiras e seguros para ampliar posições em fabricantes de memória utilizando níveis recordes de alavancagem.
TSMC segue como principal aposta estrutural
Entre as empresas mais bem avaliadas pelos investidores, a taiwanesa TSMC permanece como uma das preferidas. A companhia é hoje a principal fabricante mundial de chips avançados utilizados em aplicações de IA.
Segundo o Safra, a empresa é vista como uma forma relativamente “segura” de exposição ao crescimento da inteligência artificial, sem necessidade de apostar em um único vencedor entre fabricantes de GPUs, modelos de IA ou plataformas de nuvem.
A tese se apoia em três fatores principais:
- Liderança tecnológica na fabricação de chips avançados;
- Forte demanda estrutural por capacidade computacional;
- Elevado custo e tempo de migração para fornecedores concorrentes.
O relatório também destaca que a expansão da chamada IA agêntica — sistemas capazes de executar tarefas de maneira autônoma — tende a aumentar não apenas a demanda por GPUs, mas também por processadores tradicionais (CPUs), ampliando o mercado potencial da companhia.
NVIDIA ainda lidera corrida da IA
A NVIDIA segue como principal símbolo do ciclo de inteligência artificial, embora os investidores estejam mais atentos à sustentabilidade das margens da companhia nos próximos anos.
O Safra avalia que a preocupação do mercado deixou de ser a demanda de curto prazo, considerada robusta, e passou a se concentrar nos custos futuros de memória e infraestrutura.
Mesmo assim, os analistas argumentam que a ação já embute cenários conservadores. Segundo o relatório, os múltiplos atuais refletem expectativas de desaceleração dos investimentos em IA, aumento da concorrência de chips customizados e eventual pressão sobre margens.
Ainda assim, a instituição vê fatores que sustentam a tese de longo prazo:
- Expansão da IA para empresas, governos e indústrias;
- Crescente adoção de sistemas autônomos;
- Maior diversificação da demanda além das big techs;
- Avanços em eficiência energética e desempenho computacional.
A análise também aponta que a fragmentação do mercado de modelos de IA pode beneficiar a NVIDIA, reduzindo a dependência de poucos clientes dominantes.
Mercado começa a olhar hyperscalers com mais otimismo
Se os semicondutores dominaram o primeiro semestre, os hyperscalers começam a ganhar espaço nas carteiras globais.
A percepção dos investidores é que essas empresas ficaram relativamente descontadas após meses de desempenho inferior ao setor de chips. Ao mesmo tempo, os lucros futuros gerados pelos investimentos em IA ainda não estariam totalmente refletidos nos preços das ações.
O Safra observa uma aparente contradição de mercado: enquanto os valuations das empresas de semicondutores pressupõem continuidade dos investimentos em IA, os preços dos hyperscalers sugerem que os retornos desses aportes serão modestos.
Para os analistas, as duas teses não parecem compatíveis ao mesmo tempo.
Fluxo de caixa virou centro da discussão
Outro ponto recorrente nas reuniões foi a pressão sobre o fluxo de caixa das gigantes de tecnologia.
Os hyperscalers vêm ampliando fortemente os investimentos em data centers, chips próprios e infraestrutura de nuvem. Isso reduz a geração de caixa no curto prazo, mas pode criar valor relevante no longo prazo caso os projetos gerem retorno acima do custo de capital.
O Safra argumenta que muitos investidores estão excessivamente focados no fluxo de caixa imediato, sem considerar o potencial de geração futura de receitas e lucros.
Ainda assim, o financiamento dessa nova etapa do ciclo de IA tende a ficar mais caro e complexo. O grupo de empresas analisado emitiu cerca de US$ 250 bilhões em títulos de dívida em 2026, mais que o dobro do volume registrado em 2025.
Além disso, houve deterioração na demanda dos investidores por essas emissões, com spreads mais elevados e redução da procura pelos papéis.
Meta, Amazon e Google aparecem entre destaques positivos
Entre os hyperscalers, a Meta foi uma das empresas que mais despertou interesse dos investidores durante as reuniões.
O mercado passou a enxergar com mais clareza o potencial de monetização da inteligência artificial dentro do ecossistema da companhia, especialmente em publicidade digital, WhatsApp, ferramentas empresariais e assistentes virtuais.
O Safra destaca que a empresa possui uma combinação rara de:
- Base massiva de usuários;
- Dados proprietários;
- Capacidade computacional;
- Distribuição global.
A Amazon também recebeu avaliações positivas, sobretudo pela aceleração da AWS, sua divisão de computação em nuvem. O mercado vê espaço para crescimento impulsionado por IA generativa e pela expansão da plataforma Bedrock, voltada ao desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial.
Já o Google segue reconhecido pela força tecnológica e pela liderança em infraestrutura de IA, embora investidores considerem que a ação já reflita boa parte desse cenário positivo.
Memória vira principal ponto de divergência do mercado
O segmento de memória foi descrito como o tema mais controverso entre investidores.
Parte do mercado acredita que o ciclo atual é estruturalmente diferente dos anteriores, devido à forte demanda de data centers e IA. Outro grupo argumenta que o setor historicamente alterna períodos de escassez e excesso de oferta, o que tende a pressionar margens no futuro.
O debate ganhou relevância porque memórias de alta largura de banda (HBM), fundamentais para IA generativa, exigem muito mais capacidade produtiva do que tecnologias tradicionais.
Hoje, a visão predominante é de que a demanda continuará superior à oferta até pelo menos 2028.
Ainda assim, o Safra alerta que os níveis atuais de rentabilidade são historicamente elevados e podem atrair novos investimentos e aumento de capacidade, repetindo ciclos anteriores da indústria.
IA amplia disputa por infraestrutura digital
O relatório reforça que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tendência tecnológica e passou a redefinir a dinâmica competitiva do setor global de tecnologia.
A corrida atual envolve três frentes principais:
- Infraestrutura computacional;
- Modelos de IA e software;
- Distribuição e relacionamento com clientes.
Nesse cenário, empresas capazes de combinar dados proprietários, escala operacional e infraestrutura de nuvem tendem a capturar parcela relevante do valor econômico gerado pela IA.
Ao mesmo tempo, o setor entra em uma fase mais complexa, em que crescimento acelerado precisará ser acompanhado por rentabilidade consistente e disciplina financeira.
O relatório do Safra conclui que a temporada de resultados deve continuar favorável no curto prazo, tanto para semicondutores quanto para hyperscalers, impulsionada pela aceleração das receitas de nuvem e pela continuidade dos investimentos em IA.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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